Capítulo 2

As coisas só pioraram depois daquele pesadelo com o Freddie. Mesmo apagando o número dele, ele não parava de ligar. Eu estava na frente da terapeuta, ouvindo aquelas histórias motivacionais que ela sempre contava. Mas sinceramente? Enquanto eu ainda respirasse, nada daquilo mudava alguma coisa.

Desde aquele estupro, entrei num buraco de depressão. Quase tirei minha própria vida, achando que o Freddie levou tudo de mim junto com ele. A terapeuta era legal, falava umas coisas boas e até me passou um livro pra ler. Eu tava medicada direto, vivia na consulta. Por algum motivo que nem eu explicava direito, eu praticamente morava dentro do quarto. Já tava em pedaços, e meus pais só pioravam tudo.

Pra cada erro meu, vinha aquele mesmo discurso: "você é uma vagabunda". Aquilo me acabava. Acabei virando melhor amiga das quatro paredes do meu quarto.

"Vamos mudar de casa", meu pai soltou essa depois do jantar.

Desde que perdeu o cargo de diácono na igreja, parecia que ele me odiava mais dia após dia. Talvez não fosse ódio, talvez fosse só mágoa, frustração… Vai saber. Talvez eles só não aceitavam que uma escolha minha mudou a vida de todo mundo. Minha mãe também perdeu o cargo dela. A igreja cortou toda ajuda financeira e ela vivia surtando, me usando de exemplo. Sempre jogava a Leslie na minha cara como se fosse o modelo perfeito.

"Vamos mudar?" Leslie perguntou enquanto prendia as tranças num coque justo.

"Isso. Georgia não tem mais nada pra gente desde que sua irmã Ariel destruiu tudo. A igreja nos afastou dos cargos, e eu não vou me rebaixar a virar só mais um membro naquela paróquia.", ele falou. Sempre foi temente a Deus. A gente foi criada com esse medo.

No ensino médio, minha mãe era cheia das regras:

– nada de namoradinhos, eles só partem seu coração.

– namorar? Deus reprova.

– fazer sexo antes do casamento? Vai pro inferno.

Lembro que eu nem pensava nessas regras direito, achava tudo meio inútil. Eu era a nerd com óculos gigantes, sem namorados, sem ninguém interessado. Era alvo fácil de zoação. Muitas vezes eu mesma me odiava, me sentia imperfeita. Aí veio o Freddie, no homecoming, dizendo que eu era bonita. Aquilo mexeu comigo de verdade. Me olhei no espelho naquela noite e até que me achei bonita. Talvez a galera só não tinha reparado ainda, mas depois que ele falou que gostava da garota mais popular da escola… bom, tudo caiu por terra. E eu? Nada.

Desisti de faculdade e fui pra uma escola de freiras, tentando fugir do bullying. Agora sou só uma vítima de estupro. Patético, né?

"Vamos nos mudar pra Buffalo," minha mãe disparou com aquele olhar pesado, cheio de pó preto e rímel. Irônico vindo dela, que sempre foi contra maquiagem.

"Nova York?", Leslie arregalou os olhos.

"O que tem?"

"Não, nada…", ela gaguejou. Nova York sempre foi o lugar dos sonhos dela. Aposto que ela tem algum boy escondido. Vive babando por famosos nas redes sociais. Eu? Nem curto esse mundo. O engraçado é que é exatamente o que nossos pais repudiam. Leslie vive de olho em uns famosinhos bem babacas.

"Nova York é tudo de bom." Ela deu um gritinho animado. Eu fiquei calada — ninguém liga pro que eu falo mesmo. Sou só a ovelha negra.

"É por causa da Alexa, né?" Minha mãe arqueou as sobrancelhas olhando torto pra Leslie.

"Não, mãe. Alexa é insuportável."

"Olha o linguajar", meu pai cortou no ato.

"Desculpa."

"Espero que você não fique saindo com ela. Vive pulando de namorado em namorado. Me disseram que já teve três caras ao mesmo tempo." Revirei os olhos e fiquei brincando com o hashi dentro do miojo.

"Ouvi dizer que a Doreen flagrou ela vendo pornô no notebook. Ridícula. Uma alma perdida. Ainda bem que minha Leslie não é desse tipo. Diferente de certas pessoas que se escondem pra transar com o namorado quando deveriam estar servindo a Deus na igreja." A fala da minha mãe veio carregada de veneno e doeu mais que um tapa.

Ela adorava me lembrar do meu passado. Mordi o lábio tentando segurar as lágrimas, mas uma escapou. Odeio minha vida. Levantei da mesa com minha tigela nas mãos, pronta pra sair.

"E vai pra onde?", meu pai perguntou entre dentes cerrados.

"Pro meu quarto. Tomar meu remédio."

"É estranho você não tá grávida, já era pra estar rodando na rua", ela disparou com aquele desprezo irritante.

"Quer saber? Eu tô indo." Saí batendo os pés.

Fechei a porta do quarto e deslizei até o chão chorando sem parar. Várias vezes eu tento me convencer de que não vale a pena chorar, mas as palavras deles cortam. Depois de horas sentada na porta, me levantei e olhei pra mim mesma no espelho. Me sentei na cadeira, abracei os joelhos e encarei minha própria imagem. Nem lembro a última vez que sorri de verdade.

"Ariel…" a voz da minha irmã me despertou de manhã.

Esfreguei os olhos pesados e mal pude reagir quando ela entrou com aquele sorrisinho debochado e os braços cruzados. Detesto admitir que ela é minha irmã mais velha.

"Bom dia."

"Bom dia. Se arruma aí. Nosso voo sai daqui a uma hora. Nova York." Ela virou as costas depois de soltar essa.

Nova York, né? Leslie já está na faculdade. E eu? Prestes a voltar pros estudos em Buffalo. Como será minha nova vida?

O voo foi péssimo. Fiquei na janela, com os olhos grudados no livro que a terapeuta me deu. Ela disse que ia me ajudar a me reconstruir. E olha, até que estava funcionando. Depois de horas apertada naquele avião, finalmente descemos. Peguei minha mala e respirei fundo. Nunca tinha pisado em Nova York.

"Yesss!" Leslie gritou tirando selfie.

"Pode tirar umas fotos minhas?" Ela me entregou o celular. Eu segurei e esperei ela posar. Várias poses — reclame se quiser, eu que ficava de vilã no fim. Entramos no carro que já nos esperava e eu sentei na frente com ela. Enquanto ela mal piscava de tanto olhar pela janela, eu tava alheia. Tava era me preparando pra ser massacrada pelos meus próprios pais de novo.

Chegamos na nova casa. Versão 2.0 da antiga.

Subi atrás deles com minhas malas. O bairro parecia tranquilo e até bonito demais. Mas subir as escadas com bagagem foi um inferno. Ninguém ouviu reclamação porque eu não falei nada — fui arrastando tudo comigo. Entrei no meu novo quarto e suspirei. Tinha muito o que fazer ali.

Comecei a limpar e algumas horas depois já tava com tudo no lugar. O fim de tarde chegou e eu ouvi a voz da molecada na rua — devia ser. Saí do quarto e fui respirar um pouco na varanda. Esse era o resultado das minhas escolhas ruins. Nova York. Só espero que dê certo. Quero dar certo. Freddie e Georgia agora são passado.

Uma semana depois, meu pai trouxe meu carro de volta. Aquele que eu usava em Georgia. Nem sei como ele veio parar aqui. Mas se era tentativa de agrado, falhou. Continuavam lembrando todos os dias dos meus erros. Aquilo doía. Batucava os dedos na bancada depois de tomar café, quando percebi que a Leslie tava online. O celular dela não parava de apitar e ela dava sorrisos bobos toda hora.

"Tá gostando de Nova York?" ela perguntou, sem tirar os olhos da tela.

"Sim", respondi, mesmo que fosse mentira. Desde que mudamos, nem saí de casa. Só ficava no meu canto, tomando remédio e lendo. Nada rolava aqui e eu nem usava rede social que nem ela.

"Legal. Mal posso esperar pela faculdade." Revirei os olhos e continuei dedilhando o balcão.

"Ariel, o que você tá fazendo?" mamãe apareceu na porta da cozinha.

"Nada."

"Tomou seu remédio?" perguntou como se se importasse. Ela queria mesmo era saber se o investimento dela tinha valido a pena.

"Sim…"

"Sim? E por que esse frasco continua cheio?" ela gritou levantando a embalagem. Pela primeira vez, Leslie parou e encarou nossa mãe.

"Eu…" A voz falhou. Tenho pulado as doses. A enfermeira falou que podia afetar meu tumor, e eu odeio lembrar que tenho um.

"'Eu' o quê? Que merda tá acontecendo com você? Saiu por aí transando com o namorado, agora finge que tá doente. Sabe quanto gastei com você depois de tudo que fez? Esquece terapia em Nova York. Você não merece."

"Mãe…"

"Cala a boca. Vagabunda nojenta." E foi isso. Sem dizer mais nada, eu já tava chorando.

"Claro, chora mesmo. Só espero que não cause ainda mais em Nova York." Ela bufou, jogou o frasco em mim e saiu da cozinha.

"Uau." Leslie murmurou, voltando a encarar o celular.

Me levantei da cadeira e saí da cozinha chorando. Chorei até perder o fôlego, socando a parede com raiva. Sem pensar duas vezes, tirei a calça de moletom e coloquei uma jeans preta e um moletom folgado. Tava frio, fazer o quê? Peguei a chave do carro e saí batendo a porta.

Liguei o motor e caí na estrada. Não fazia ideia de onde queria ir, só sabia que queria me afastar deles. Perdi a noção do tempo dirigindo. Estacionei do nada na beira da rua. Silenciosa, vazia — igual meu novo bairro. Deitei no banco e tentei não chorar mais. Felicidade? Freddie levou ela embora no dia que acabou comigo.

Um vento gelado me tirou dos devaneios. Virei de lado e… tinha um cara no banco do passageiro. Ele simplesmente entrou e fechou a porta. Era um homem. Mas não qualquer homem. Era tentador. Oi? Eu achei ele tentador?

"O que você tá fazendo? Quem é você?" gaguejei.

"Calma aí! Só preciso de uma carona. Vai negar ajuda pra um estranho?" Ele sorriu de canto.

"Desculpa, mas sai do meu carro."

"Carro?" Ele arqueou a sobrancelha.

"Sim, o MEU carro."

Ele deu uma piscada e olhou em volta, debochado.

"Só vejo uma caixa aqui." Ele riu e colocou o cinto.

"Vou chamar a polícia se você não sair." Esbravejei.

Ele estendeu o celular com aquele sorrisinho idiota. Sorrisinho fofo? Ariel, para.

"Quer usar o meu? Vai que o seu tá sem bateria." Que cara abusado.

Fiquei olhando pra ele, de boca aberta. Que tipo de cara invade o carro de uma garota e ainda debocha? Era bonito, tá? Falei! Os olhos cinza dele não tinham explicação, te pegavam de um jeito… Vi a mandíbula bem marcada e uma tatuagenzinha no pescoço, meio árabe. Tinha mais nos braços, visíveis pela manga do moletom preto. Ai meu Deus. E eu encarando ele? Há segundos eu tava na fossa e agora presa com um deus grego aleatório dentro do carro. E eu, criada num lar cristão…

"Para de me encarar e dirige logo, Sininho."

As palavras travaram. Não era comum ficar sem reação assim. Meus olhos grudaram nos dele, desceram pras bochechas, depois pra boca entreaberta dele dando um risinho. Sabia que eu tava reparando.

Respire, Ariel. Só não se humilhe. Não tenho explicação pra ele, só sei que é encrenca. Daquelas que não te deixam entrar no céu de jeito nenhum.

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