Capítulo 9

"Ariel..."

Dessa vez foi meu pai que falou. Ferrou de vez. Jogo o pijama por cima rápido, enfio uma camiseta e desço correndo.

"Pai..."

"O que é isso? Batendo papo com o namorado?" Minha mãe me encara furiosa, mostrando a tela do meu celular. Mesmo sem conseguir enxergar direito, eu já sei o que ela viu.

"O que a gente te disse sobre disciplina?" o grito do meu pai ecoa.

"Eu... não é o que parece..." minha voz falha.

"Não é o que parece? Era pra gente pensar o quê? Que você saiu pra farra ontem, ficou bêbada, voltou com um desconhecido e dormiu com ele? Ariel, você transou de novo quando sua irmã mais velha ainda é virgem. Por que não tenta ser como ela pelo menos uma vez?" minha mãe grita.

"Mãe, eu..." soluço, e olho pro lado, cruzando o olhar com a Leslie, que revira os olhos e vira o rosto.

"Mãe o quê, Ariel? A gente se esforçou pra te manter na escola, no convento inclusive, e você estragou tudo. Achei que vindo pra Nova York você ia dar um jeito na sua vida já toda atrapalhada, mas até agora só fez besteira..." meu pai grita enquanto sinto meu peito apertar. Preciso dos meus remédios ou vou surtar.

"Quem diabos é esse tal de Gray?"

"Eu nem conheço ele direito. Ele só me levou pra sair e não rolou nada, você tem que acreditar em mim."

"Acreditar? Ariel, ele tá te mandando mensagem sobre usar a calça dele e chamando pra sair. Que tipo de filha você quer ser?"

"Eu não fiz nada com ele!" grito sem nem perceber, e antes que me toque, minha mãe me dá um tapa na cara.

"Como você se atreve? Levantar a voz pra mim assim, sua sem vergonha?"

"Vou remarcar sua terapia. Você precisa de ajuda, tá virando uma daquelas meninas largadas igual sua prima Alexa. O que aconteceu com aquela Ariel que tinha vergonha na cara e medo de Deus? Largou tudo depois daquele tal de Freddie e agora esse Gray? Não tem vergonha na cara?" minha mãe grita.

Minha mão continua no rosto onde levei o tapa e tudo o que eu queria era desaparecer. Minha camisa tá ensopada de lágrimas, e se mais alguém falar, eu vou desmaiar.

"Agora tá de castigo por mais tempo. Não vai sair de casa e nem comer pelos próximos cinco dias."

"Mãe, pai..."

"Cala a boca, sua..." O toque do meu celular interrompe minha mãe bem na hora. Ela olha quem é e me encara com ódio. Pelo amor de Deus, tomara que não seja ele.

"É o tal namorado, Gray", ela rosna. Meu pai arranca o celular da mão dela e atende com o viva-voz ativado.

"Ariel..." ouço a voz dele pelo celular.

"Ariel nada, aqui é o pai dela. Presta atenção, senhor Gray, deixa a minha filha em paz. Some da vida dela. Não venha seduzindo ela pra levar pra cama. Some, seu vagabundo americano inútil!" Socorro.

Por que tão dificultando tudo? O Gray pode até ser um esquisito, mas a casa dele vale mais que o salário anual do meu pai. E isso nem importa. Ele conseguiu me humilhar por telefone. Me sinto uma adolescente idiota, mesmo não sendo.

"Vou deixar bem claro pra você..." minha mãe fala pelo telefone. "Ela não é do seu tipo. Ariel devia estar num convento, servindo a Deus e não correndo atrás de cara sem futuro igual você. Guarda essa coisa no seu short e deixa ela em paz. Ela é cristã e não foi feita pra isso. Para de ligar pra ela!" Ela desliga e taca meu celular na parede.

"Mãe..."

"Fala mais uma palavra e eu te arrebento. Sobe pro seu quarto agora." Fungando, corro escada acima.

Minha vida é uma piada. Nunca achei que meus pais fossem fazer isso tudo. Às vezes acho que sou adotada. Aquela festa insana detonou tudo. Como é que Leslie teve coragem de mostrar meu celular pra mamãe? Me odeia ou quê? Limpando as lágrimas com o dorso da mão, sento pra tomar meu remédio. Gray nunca foi importante, mas agora ele deve me achar uma maluca. Controladora e patética.

"Tá tristinha, hein?" Leslie fala encostada na porta.

"Vai passar, querida." Dá um sorrisinho sarcástico.

"Melhor você ir embora. Você fez questão de deixar mamãe me humilhar na frente dele. Ainda levei tapa por sua causa. Deve adorar me ver mal, né?" Ela dá de ombros, cruzando os braços.

"Quem é esse azarado do Gray? E o que será que ele viu em você pra te levar pra casa?" Pisquei pros comentários venenosos dela.

A culpa nem é dela.

Eu não sou estilosa. Não uso esses vestidos curtos e tops da moda. Minhas roupas são jeans, moletons, camisetões e uns vestidos que ninguém chique usaria. Nem sonho com aplique igual o da Alexa. Também não sou que nem a Leslie – toda bonita, cheia de trejeito de modelo, sempre na internet. Se meus pais deixassem, ela tava até posando pelada pra alguma revista. Finge demais.

"Aposto que ele é feio, né." Ela debocha, arqueando a sobrancelha com nojo. Com certeza tô abaixo do nível do Gray. Até bêbada eu notei a movimentação que a presença dele causou no bar.

Os carros dele humilham minha caminhonete. Até o cheiro dele é caro. Vi os olhares quando saímos do clube juntos. O que será que viu em mim? Pro Gray, eu sou só a crente bobinha, como ele diz.

"Não é da sua conta." Respondo, evitando encarar ela.

"Claro que não." Ela ironiza antes de dar as costas.

Mal posso esperar pra começar a faculdade. Pelo menos ficaria longe deles. Mas meus pais já garantiram que não moraremos nem perto do campus. Então lá vamos nós, ou melhor, lá vou eu, presa. Queria poder decidir algo sozinha, como a Leslie faz. Mas aqui estou, cheia de medo e obedecendo tudo. Boba demais.

.

Já faz uma semana desde o episódio com Gray. Nem notícias dele, e como eu não tenho mais celular, também não tem como. Fico trancada no quarto, só lendo e dormindo. Minha vida tá um tédio. Estou sentada no balcão, mexendo meu café sem parar.

"Mãe, vou sair com uma amiga."

"Arrumou amiga nova?"

"Mãe, é a Hazel. Ela é de boa, não namora." Leslie responde entrando na cozinha.

"Ela faz faculdade?"

"Faz sim, mãe." Leslie sorri, tomando um gole do café.

"Vai à igreja, participa da paróquia católica. O pai dela é um dos anciãos da igreja também..." Leslie continua.

Reviro os olhos por dentro e fico com inveja da forma como a mamãe dá atenção. Eu jamais poderia dizer "vou sair".

"Aí está ela." Olhamos pra porta da cozinha e vejo a tal loirinha linda. Muito perfeita pra ser verdade.

Ela sorri e cumprimenta a mim e à mamãe. Tudo nela parece certinho demais.

"Mãe, essa é a Hazel. Hazel, essa é minha mãe."

"Prazer em conhecê-la, senhora."

"O prazer é meu, querida. Leslie falou muito bem de você. Então vão sair esse fim de semana?" Mamãe sorri animada.

"Isso, e voltamos cedo. Prometemos nos comportar."

"Tá certo. Só não voltem bêbadas. Não quero que nenhuma acorde vestindo a roupa de um cara qualquer." Eu mordo o lábio e encaro o café. Sério mesmo que ela teve que me usar de exemplo?

"Valeu, mãe." Leslie dá um beijo nela e sai com Hazel.

Mamãe solta um suspiro debochado e me encara. Engulo o resto do café e levanto do banco. Tô tentando fugir de mais sermão. Ela resmunga e mexe no macarrão na panela.

"Mãe..." chamo baixinho.

"O quê?" Ela vira pra me olhar, cheia de impaciência.

Queria contar meu novo plano. Cansada de ficar presa em casa, resolvi procurar um emprego e precisava sair pra isso.

"Quero arrumar um emprego." Soltei, tudo de uma vez.

"Emprego?"

"É… cansei de ficar aqui sem fazer nada..." continuei antes que ela pudesse me cortar. "Vai ser um trabalho decente e eu não vou atrás de ninguém. Eu juro que não vou me meter com aquele Gray de novo..." me sinto de novo como se tivesse voltado pro colegial. Uma adolescente ridícula.

"E é pra eu acreditar em você?"

"Por favor, mãe. Prometo que não vou causar problema." Digo, esfregando minhas mãos suadas.

"Tá bom. Mas quero saber direitinho que tipo de trabalho é. E até seis da tarde tem que estar em casa. Entendido?"

"Entendido." Suspiro aliviada e corro dali.

Subo as escadas e coloco uma calça jeans preta e uma camiseta, depois desço num pique só. Finalmente vou respirar ar puro de verdade.

Rodando por aí o dia todo, acabei arranjando algo num restaurante chamado Sandy's. Super chique até. Felizmente o emprego é meio período e por turno. Como ainda não comecei a faculdade, decidi trabalhar das 12h às 17h30. Dá tempo de organizar tudo e chegar em casa no prazo.

"Vai dar tudo certo…" Sandy cochicha no meu primeiro dia. Já estava uniformizada: uma camisa com o nome do restaurante nas costas e calça preta.

Fui com a Vickie ajeitar as sobremesas em cada mesa. Depois voltei pro balcão pra anotar pedidos. Foi quando reparei num par de olhos azuis me encarando. Levantei a cabeça e o vi com um sorrisinho, logo virando pros amigos.

"Que bizarro." Murmurei, entregando uma xícara de café pra ele.

"Seu café, senhor." Falei, mesmo achando que ele mal tem mais idade que a Leslie.

"Valeu. Me chama de Ryan." Respondeu, com uma sinceridade estranha.

"Ah, certo." Ia sair dali, mas os amigos me pararam.

"Qual o seu nome?" pergunta o cara do lado, moreno de olhos cor de mel.

"Ariel. Agora preciso voltar ao trabalho."

"Tranquilo." disse Ryan, mas o jeito como ficou me olhando não era nada legal.

Assenti sem graça e fui de volta pro meu lugar.

"Tá te dando em cima?" Vickie cutuca, rindo.

"Nem tanto."

"Aham…" ela dá risada.

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