Capítulo 2 - Rachaduras na armadura

Os dias seguintes passaram em um borrão de aulas, trabalho e exaustão. Sophia tentou se concentrar nos estudos, mergulhando nos livros e nas tarefas com uma determinação que beirava a obsessão. Mas, por mais que tentasse afastar o encontro com Ethan de sua mente, ele continuava a invadir seus pensamentos.

Não era apenas a presença dele que a deixava inquieta—era o jeito como ele a olhava, como se visse algo nela que ninguém mais via. Isso a fazia se sentir exposta, vulnerável, e ela odiava isso. Sophia passou a vida inteira construindo muros ao seu redor, muros que eram para manter as pessoas afastadas e protegê-la do mundo. Mas Ethan conseguiu passar pelas brechas, e isso a aterrorizava.

Ela não o tinha visto desde aquela noite no bar, e dizia a si mesma que isso era o melhor. Mas, no fundo, uma parte dela estava desapontada. Ela não estava acostumada a se sentir assim—curiosa, intrigada, até um pouco animada. Era uma mistura perigosa de emoções, uma que ela não estava preparada para lidar.

As aulas na faculdade estavam se tornando cada vez mais exigentes. Ela estava no terceiro ano de psicologia, e o curso estava mais desafiador do que nunca. Mas Sophia prosperava sob pressão; era uma distração do caos de sua vida. Ela sempre foi uma boa aluna, movida pelo desejo de provar a si mesma, de mostrar ao mundo que era mais do que apenas a filha de uma mãe solteira que foi abandonada pelo pai.

Enquanto estava sentada em uma de suas aulas, o professor falando monotonamente sobre desenvolvimento cognitivo, a mente de Sophia começou a divagar. Ela pensou na mãe, nos anos que passaram lutando para sobreviver. Amelia sempre foi uma lutadora, mas a luta cobrou seu preço. Sophia se lembrava dos dias em que a mãe chegava tarde em casa, exausta e desgastada, mal conseguindo esboçar um sorriso.

E então veio a doença. Surgiu de repente, uma força implacável que tirou tudo delas. Amelia lutou contra ela com a mesma determinação com que lutou contra tudo na vida, mas no final, foi demais. Sophia foi deixada para juntar os pedaços, para navegar em um mundo que parecia determinado a quebrar seu espírito. Ela mal conseguiu juntar dinheiro suficiente para o funeral da mãe, e a lembrança daqueles dias ainda a assombrava. A sensação de vazio ao lado do túmulo, o pequeno grupo de enlutados que compareceram por obrigação e não por afeto—tudo estava gravado em sua mente como uma cicatriz que nunca iria sarar.

Mas Sophia sempre foi resiliente. Ela não tinha escolha. Após a morte da mãe, ela se jogou ainda mais nos estudos, determinada a criar uma vida melhor para si mesma. Não podia se dar ao luxo de deixar alguém entrar, não podia se dar ao luxo de mostrar fraqueza. O mundo já tinha tirado tanto dela, e ela se recusava a dar mais.

Ainda assim, por mais que tentasse se distanciar de suas emoções, o encontro com Ethan roía as bordas de sua consciência. Ela se pegava revivendo a breve conversa em sua mente, dissecando cada palavra, cada olhar, tentando entender por que ele a afetou tão profundamente. Não era apenas a aparência dele, embora ele fosse inegavelmente atraente. Era algo mais profundo, algo que a fazia sentir que ele via através dela, além das defesas que ela tão cuidadosamente construiu.

Sophia sabia que não podia se dar ao luxo de se distrair, não agora. As provas estavam se aproximando, e ela precisava manter o foco. Mas, à medida que os dias se transformavam em semanas, ela não conseguia se livrar da sensação de que algo estava por vir, algo para o qual ela não estava preparada.

Uma noite, após uma sessão de estudos particularmente exaustiva, Sophia decidiu ir ao bar mais cedo. Precisava da distração, da rotina mecânica de servir bebidas, qualquer coisa para impedir seus pensamentos de voltarem a Ethan. Ao passar pela porta familiar, foi recebida pelo zumbido usual de conversas, o cheiro de álcool e suor misturando-se no ar. Era reconfortante em sua familiaridade, um lugar onde ela conhecia seu papel e podia se perder no ritmo do trabalho.

Ela estava na metade do turno quando sentiu uma tensão súbita e inexplicável no ambiente, como se o ar tivesse se tornado mais denso ao seu redor. Sophia olhou para cima do drink que estava servindo e o viu. Ethan estava sentado na extremidade do bar, observando-a com aquele mesmo olhar intenso que a deixou tão inquieta na primeira vez que se encontraram.

Seu coração deu um salto, uma mistura de medo e algo que ela não queria reconhecer. Por que ele estava ali de novo? Será que ele vinha regularmente e ela não tinha notado, ou isso era deliberado? Ela rapidamente desviou o olhar, tentando se concentrar no trabalho, mas podia sentir os olhos dele sobre ela, seguindo cada movimento seu.

À medida que a noite avançava, Sophia achava cada vez mais difícil ignorá-lo. Toda vez que olhava na direção dele, ele estava lá, observando-a com uma expressão que ela não conseguia decifrar. Havia algo predatório na maneira como ele a olhava, algo que fazia seu pulso acelerar e a respiração prender na garganta. Era como se ele estivesse esperando algo, aguardando o momento certo.

Finalmente, incapaz de suportar mais, Sophia caminhou até onde ele estava sentado. Tentou manter a voz firme, tentando projetar uma confiança que não sentia.

"Posso ajudar em alguma coisa?" ela perguntou, com um tom seco.

Ethan sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. "Eu estava apenas aproveitando a atmosfera," ele disse, com a voz suave como seda.

Sophia levantou uma sobrancelha. "Parece que você está mais interessado em me observar do que na atmosfera."

O sorriso dele se alargou, e houve um lampejo de algo sombrio em seus olhos. "Você é muito observadora."

Sophia não sabia como responder a isso. Cruzou os braços sobre o peito, tentando criar alguma distância entre eles. "Olha, se você está aqui para jogar, eu não estou interessada. Já tenho problemas suficientes sem adicionar mais complicações."

Ethan se recostou na cadeira, ainda a observando com aquela intensidade perturbadora. "Não estou aqui para jogar, Sophia. Estou aqui porque há algo em você que não consigo ignorar."

Seu estômago deu um nó ao ouvir seu nome nos lábios dele, mas ela se forçou a manter a calma. "E o que exatamente é isso?"

Ethan hesitou por um momento, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. "Você é diferente," ele disse finalmente. "Há algo em você que me atrai, algo que não consigo identificar. E acho que você sente isso também."

O coração de Sophia batia forte no peito. Ela queria negar, dizer que ele estava errado, mas não podia. Havia algo nele que a chamava, algo que a fazia querer saber mais, apesar de todos os instintos dizendo para ficar longe.

"Eu não sei do que você está falando," ela disse, com a voz trêmula.

A expressão de Ethan suavizou um pouco, e por um momento, ela achou que viu um lampejo de vulnerabilidade em seus olhos. "Talvez você não saiba. Mas acho que logo saberá."

Antes que Sophia pudesse responder, Ethan se levantou e colocou algumas notas no balcão. "Nos vemos por aí, Sophia," ele disse, com a voz baixa e cheia de algo que ela não conseguia nomear.

E então ele se foi, deixando Sophia ali, com a mente cheia de perguntas. O que ele quis dizer com "logo saberá"? O que havia nela que ele achava tão atraente, e por que ela sentia a mesma atração por ele, apesar de todos os sinais de alerta em sua cabeça?

Pelo resto do turno, Sophia não conseguia parar de pensar na conversa deles. Repassava as palavras dele repetidamente, tentando entendê-las, mas elas só a deixavam mais confusa. Havia algo em Ethan, algo que a atraía e a repelía ao mesmo tempo, e ela não sabia o que fazer a respeito.

Quando finalmente fechou o bar e saiu para o ar fresco da noite, Sophia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Olhou ao redor, meio esperando ver Ethan espreitando nas sombras, mas a rua estava vazia. Ainda assim, não conseguia se livrar da sensação de que estava sendo observada, de que algo a esperava fora de vista.

Sophia puxou o casaco mais apertado ao redor de si e começou a caminhar para casa, seus passos ecoando no silêncio. Disse a si mesma que estava apenas sendo paranoica, que Ethan não passava de um cliente com um interesse doentio nela. Mas, no fundo, sabia que havia mais do que isso.

E enquanto virava a esquina e seguia pela rua deserta em direção ao seu apartamento, não podia deixar de sentir que sua vida estava prestes a mudar de maneiras que ela não podia nem começar a imaginar.

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