Capítulo 2 VÉU DA ESCURIDÃO
A escuridão me engole por inteiro... Densa e sufocante. Ela aperta minha pele, rasteja para dentro dos meus pulmões e se enrola na minha garganta até respirar parecer como puxar ar através da água.
Por um momento, eu não me mexo. Meu vestido de noiva está rasgado em vários lugares e fica frio e grudado contra a minha pele. Não consigo ver as minhas próprias mãos, mas sinto a renda se rompendo entre meus dedos enquanto a aperto como uma tábua de salvação.
Nada parece real. Num instante eu era uma noiva, de pé à beira de tudo o que eu sempre quis... e agora— Agora eu estou aqui, enterrada no subsolo como algo que já morreu.
Lá fora, além do bunker, o pesadelo continua. Os sons de cima batem em mim de uma vez só. Sons de rasgo... Uma mistura úmida e violenta de ossos esmagando e carne sendo dilacerada. Um grito corta o caos e é interrompido abruptamente.
Eu me encolho, tapando os ouvidos com as mãos, mas não adianta. O barulho se infiltra mesmo assim, vibrando através das paredes de pedra.
Eu nem sei quem está ganhando... Não sei se meu pai está bem, se Maddox está vivo, se Kieran ainda está respirando...
“Kieran…” O nome treme nos meus lábios e meu peito se aperta, dolorosamente. Por favor... Por favor, esteja vivo!
Ouço um movimento fraco ao meu lado, seguido pelo som agudo de metal raspando. Então as luzes piscam e se acendem.
As velhas lamparinas a gás ganham vida com estalos, lançando um brilho dourado e fraco, e o bunker vai se revelando aos poucos. Eu absorvo o que me cerca devagar. Paredes de pedra. Teto baixo... Mulheres. Cerca de vinte de nós.
Acolhidas em pequenos grupos, com as costas pressionadas contra as paredes e os braços em volta de si mesmas, como se estivessem tentando se manter inteiras à força. Algumas choram sem esconder... os ombros tremendo com soluços. Outras ficam sentadas, paralisadas, olhos arregalados e vazios, como se a alma já tivesse ido embora.
A visão me atinge ainda mais forte do que os gritos.
Isso é real...
Lila aparece na minha frente, o rosto pálido, mas decidido, enquanto ajusta uma das lamparinas.
“Aí”, ela diz baixinho, embora a voz dela trema nas bordas. “Nós—nós estamos bem. Estamos seguras aqui embaixo.”
Seguras... A palavra soa como mentira.
“Lila?” Minha voz sai num sussurro desesperado. “Eu disse a ele... Eu disse ao Kieran que dava azar ver a noiva antes da cerimônia. Não é só uma superstição qualquer...” As palavras despencam num atropelo frágil, o pavor se enrolando mais apertado no meu peito, como se eu mesma tivesse amaldiçoado este dia.
Lila se vira para mim, o rosto pálido na luz fraca, o medo tremulando nos olhos arregalados. Ela agarra a minha mão e aperta com força, como se estivesse tentando nos ancorar às duas. “Malia, não... por favor, não faça isso com você mesma”, ela diz, a voz tremendo apesar da firmeza que tenta impor. “A culpa não é sua.”
Outro uivo distante ecoa lá de cima, mais grave desta vez, mais poderoso. Ele faz estremecer algo primitivo dentro de mim, algo instintivo e apavorado.
Os Lycans do Eclipse...
Eles não são como os lobisomens. São monstros nascidos das partes mais sombrias da natureza selvagem.
Todo filhote de lobo cresce ouvindo essas histórias.
Os Lycans do Eclipse vivem nas profundezas do Vale Sombrio, onde a floresta é tão densa que até a luz do sol mal consegue sobreviver. Raramente saem de lá, mas, quando saem, nunca é sem derramamento de sangue.
Eles atacam — a cada vinte e oito anos, como uma maldição ligada à própria lua, descem sobre uma alcateia perto da borda do vale. Massacram os machos e arrastam todas as fêmeas férteis para gerar herdeiros híbridos. Dizem que é um destino pior que a morte. A Alcateia Crescent e a Alcateia Kade eram as únicas ao redor da borda que nunca haviam sido tocadas... até esta noite.
Os Lycans eram selvagens sem consciência, e seu Rei, Lucien Voss, era o pior de todos. Ele era o tipo de pesadelo usado para ameaçar filhotes desobedientes. Diziam que era maior e duas vezes mais monstruoso que os outros Lycans. Era impiedoso... sem coração. Alguns até diziam que ele era o próprio diabo...
Aperto os olhos ao sentir a bile subir pela minha garganta.
“Eles... eles não vão descer aqui, vão?” uma ômega sussurra do outro lado do bunker. A voz dela treme tanto que quase se desfaz por completo.
“Eles vão vir”, outra ômega soluça, balançando o corpo para a frente e para trás. “Você ouviu as histórias. Eles sempre encontram elas...”
“Não vão”, digo de repente. As palavras escapam antes que eu consiga detê-las.
Eu acredito nisso? Não sei.
Mas preciso dizer alguma coisa... ou tudo desmorona.
Eu me obrigo a ficar de pé, ignorando como minhas pernas tremem sob mim. Todos os olhos se voltam instantaneamente para mim. Estão esperando que eu seja forte. Filha do Alfa — futura Luna —, mas eu não consigo protegê-las, não consigo nem me transformar... Eu me sinto uma fraude.
“O que... o que vai acontecer com a gente agora?”, a ômega pergunta, a voz falhando enquanto lágrimas escorrem por seu rosto. “Por favor... diga pra gente...”
Meu coração se contorce. Ela está olhando para mim como se eu tivesse respostas... como se eu pudesse consertar isso, mas eu não posso.
Estou tão apavorada quanto ela, mas não posso deixar isso transparecer.
Endireito os ombros e forço firmeza na coluna.
“Nossos homens são fortes”, digo com firmeza, minha voz mais estável do que eu me sinto. “Meu pai... nosso Alfa. Meu irmão. Alfa Kieran. Eles não vão deixar isso acontecer.”
“Não podemos perder a esperança”, continuo, me agarrando às minhas próprias palavras como se fossem a única coisa me mantendo de pé. “Tenho certeza de que eles virão nos buscar.”
Lila se coloca ao meu lado imediatamente, sua presença calorosa e sólida.
“Ela tem razão”, diz ela, com a voz mais forte agora. “Vocês todas já viram como Maddox luta. E Kieran? Ele nunca perdeu para ninguém! Eles vão despedaçar aqueles monstros e tirar a gente daqui.”
Algumas das mulheres assentem com hesitação, e o choro diminui. A esperança tremula nos olhos delas como chamas frágeis de vela.
De repente, uma risada aguda e amarga corta o momento.
— Esperança? Vocês são burros ou o quê? — a voz de Selena pinga veneno.
Claro que ela ia estragar tudo...
Ela está num canto, de braços cruzados, os olhos cintilando com alguma coisa feia.
— Não enfie mentiras na cabeça delas, Malia! — ela rosna, cravando o olhar no meu. — Elas merecem saber a verdade. Estamos todas fodidas! É melhor se preparar...
Meu estômago despenca.
— Selena... — Lila começa, mas Selena a interrompe.
— A verdade — Selena repete, mais alto agora, a voz cortando o bunker — é que, quando aquela escotilha abrir, aquelas coisas vão nos arrastar para fora como despojos de guerra. Como recompensa...
Uma onda de medo percorre as mulheres.
— Não... — alguém sussurra.
Os lábios de Selena se curvam num sorriso cruel e sádico, como se ela estivesse gostando disso. Que psicopata...
— Elas vão nos levar de volta para o Vale Sombrio, o mesmo das histórias de onde ninguém nunca retorna — ela continua, num tom quase casual, como se estivesse falando do tempo em vez do nosso destino. — E aí? Não vamos ser filhas de Alfa nem Lunas nem nada que importe.
Minhas mãos se fecham em punhos.
— Para com isso!
Ela me ignora.
— Elas vão dividir a gente entre si... — diz, os olhos brilhando com algo quase fora de controle. — Depois vão nos quebrar e nos estuprar noite após noite, até a gente ficar inchada com as crias híbridas monstruosas deles. E quando a gente estiver velha demais pra procriar, vão nos largar pra apodrecer.
Um grito rasga a garganta de uma das mulheres. A maioria está soluçando ainda mais agora.
— Selena! — Lila dispara, avançando. — Cala a boca!
Mas o olhar de Selena continua preso no meu. Ela dá um passo mais perto, a voz subindo com um prazer cruel.
— Eles são mais fortes do que a gente. Maiores... praticamente imortais. A única coisa que pode matá-los é Prata Abençoada, e a gente não tem nada!
Cada palavra cai como um martelo.
— E o seu precioso Alfa Kieran? — ela acrescenta, com um deboche. — Provavelmente já está morto.
Meu peito se contrai com tanta força que eu não consigo respirar.
— Não.
Mas a palavra soa fraca... até pra mim.
— Se preparem para o que vem! — ela conclui, fria. — Porque ninguém vai vir nos salvar. Só os fortes vão sobreviver!
A esperança frágil que eu tentei dar a elas morre na hora, e o choro explode de novo, mais alto desta vez, cru e sem esperança. Algumas mulheres desabam umas sobre as outras, se agarrando com força, como se pudessem se fundir e desaparecer.
— Não... não, por favor...
— Eu não quero morrer...
— Nos salvem, Deusa da Lua...
Lila se vira contra Selena, a fúria incendiando os olhos.
— Que porra é essa? O que tem de errado com você?!
— Eu só estou sendo realista — Selena rebate, ríspida.
— Você está sendo cruel!
— Melhor ser cruel do que delirante! Enchendo elas de esperança falsa!
“Chega!!!” eu grito.
A palavra sai de mim rasgando, mais cortante do que eu pretendia, e o cômodo paralisa.
“Eles não estão mortos”, eu digo, a voz tremendo, mas alta. “Kieran não está morto.”
“E-ele… ele me prometeu”, sussurro, agora mais para mim mesma. “Ele prometeu… Ela só está mentindo para assustar vocês. A gente não sabe o que está acontecendo lá fora—” Mas as palavras soam vazias até para mim.
De repente, o barulho do lado de fora para.
Os uivos, os gritos, o som de carne sendo rasgada—silêncio absoluto. Cada mulher no bunker fica imóvel. Ninguém respira, ninguém se mexe.
Um rangido baixo corta o silêncio, e meu sangue vira gelo.
A escotilha...
Ela geme de novo, o metal velho se retorcendo sob a pressão vinda de cima.
“Eles nos acharam…”, sussurra a Ômega, pálida como a morte.
A mão de Lila encontra a minha na mesma hora. Nossos dedos se entrelaçam com força, e eu aperto de volta. A gente não fala nada, mas o aperto diz tudo. Seja o que for que atravessar aquela escotilha, vamos enfrentar juntas.
.
A escotilha dá um tranco violento e então é arrancada, aberta com força brutal.
Uma silhueta gigantesca bloqueia a abertura banhada pelo luar. Ele está meio transformado, a pelagem preta empastada de sangue, os olhos vermelhos brilhando como brasas. O licano lança um olhar de escárnio, as presas reluzindo com algo selvagem e faminto.
Ele sorri para nossos rostos trêmulos.
“Ora, ora…” A voz dele é áspera, divertida. “Vejam só o que temos aqui.”
Meu estômago despenca.
Atrás dele, mais formas se juntam, as silhuetas enormes contra a luz da lua. Os olhos deles brilham como carvões na escuridão.
Um coro de uivos vitoriosos sobe pela noite, e as mulheres gritam.
“Fêmeas fresquinhas”, grita o licano na escotilha por cima do ombro, o sorriso se alargando. “Venham ver!”
Eles avançam de supetão, e o bunker explode em caos enquanto mulheres são arrastadas em direção à abertura, as unhas raspando na pedra, os gritos rasgando o ar.
“Não! Me solta!”
“Por favor!”
“Me ajuda!”
Eu nem consigo me mexer. Só consigo assistir… congelada no lugar. Impotente.
Uma por uma, elas são levadas. Arrancadas… sumidas.
Uma sombra cai sobre mim, e eu levanto o olhar quando outro licano se agacha na beirada da escotilha, os olhos vermelhos se fixando nos meus.
Devagar—ele abre um sorriso, baixo, apreciativo.
“Bem, você é um alívio para os olhos…” ele arrasta as palavras, inclinando a cabeça. “E o que é que temos aqui?”
Meu coração para.
“Estou apostando que você é a noiva sortuda?”
A mão dele dispara para baixo, e eu grito quando ele me agarra, o aperto esmagador enquanto me puxa para cima. Meus pés saem do chão, meu corpo se torce enquanto eu chuto e me debato, arranhando o braço dele. “Me solta! Me solta—!”
Ele me arranca para fora do bunker num único puxão brutal. Eu chuto e grito, minhas unhas raspando inutilmente na pelagem empastada dele, mas não adianta.
A última coisa que eu ouço é minha melhor amiga gritando meu nome noite adentro, enquanto a escuridão engole nós duas…
