CAPÍTULO DOIS
BRIELLE
Eu já tinha enfrentado editores, críticos, prazos se aproximando e até os almoços beneficentes exaustivos da minha mãe, em que todo mundo usava sorrisos falsos e te julgava pela firmeza do aperto de mão.
Mas nada... absolutamente nada me preparou para o pavor que me atravessava até os ossos ao entrar num vestido para encontrar meu futuro marido.
— Isso é insano — sussurrei.
A mulher que me encarava no espelho parecia… controlada. Elegante, até.
A seda macia se agarrava ao corpo dela em dobras delicadas, o tecido marfim suave escorrendo de um ombro de um jeito que gritava caro. Meu cabelo ruivo comprido tinha sido torcido num coque elaborado, preso com grampos e laquê até obedecer a cada ângulo. Alguns fios cuidadosamente soltos emolduravam meu rosto — só o suficiente para parecer natural. A maquiagem estava impecável: um blush quente, sobrancelhas bem definidas, um brilho sutil nas pálpebras que realçava o azul intenso, antinaturalmente vivo, dos meus olhos.
Objetivamente? Eu parecia pertencer a esse mundo.
Mas por baixo da superfície? Eu estava me desfazendo.
Meu estômago se revirava de nervoso, minhas palmas estavam úmidas, e meus pensamentos continuavam voltando para um nome.
Damian Moretti.
O nome que tinha assombrado meus sonhos a noite inteira. Um estranho que eu nunca tinha conhecido. Um homem para quem eu deveria sorrir durante o jantar e fingir que queria passar o resto da vida.
Meu pai não perguntou. Ele decidiu. Como se eu fosse uma maldita opção de ações que ele estava negociando em troca de uma aliança mais vantajosa.
Levei a mão ao decote do vestido, de repente odiando o quão justo ele parecia no meu peito. Eu não conseguia respirar. Não de verdade.
A porta se abriu com um clique atrás de mim.
— Eu bati — veio a voz da minha mãe — suave, cortante e levemente irritada. — Você não respondeu.
Eu não me virei.
No espelho, vi quando ela se aproximou, graciosa como sempre, vestida com um vestido de noite preto e elegante que provavelmente custava mais do que meu aluguel mensal. Os brincos de pérola cintilaram sob a luz, e seu coque clássico não tinha deslocado um fio sequer.
Ela parou atrás de mim, o olhar varrendo meu reflexo como o de uma crítica inspecionando um quadro.
— Hm — murmurou. — Fique ereta.
Eu fiquei. Automaticamente.
Ela ajustou uma das alças com a precisão de quem já fez aquilo mil vezes. Depois alisou uma ruga perto da minha cintura e franziu a testa.
— Você está linda — disse. — Mas a sua postura estraga as linhas do vestido.
— Bom saber — murmurei.
Ela ignorou o sarcasmo. Claro que ignorou.
Pegando um pincel de maquiagem, deu leves batidinhas na minha maçã do rosto. — Você precisa de mais calor. Está pálida.
— Eu estou nervosa.
— Isso também.
Ela deu um passo para trás e me avaliou uma última vez. A expressão não suavizou, mas algo nos olhos dela tremulou — preocupação, talvez. Com ela, era sempre difícil saber.
— Eu sei que isso não é o ideal — disse por fim, ajustando o fecho do meu colar. — Mas é necessário. Pela família. Pelo seu futuro.
— Pelo império dele — corrigi.
Os lábios dela se comprimiram numa linha. — Às vezes a gente não pode escolher por quem se apaixona. Mas às vezes… a gente também não pode escolher com quem se casa. E há uma diferença.
Meu coração afundou. — Você acha que eu vou me apaixonar por ele?
— Acho que você vai aprender a viver com isso.
Engoli em seco, o peso das palavras dela pressionando meu peito como pedra.
— Pela primeira vez… — Minha voz falhou, mas eu segui em frente. — Pela primeira vez, você poderia agir como minha mãe?
Ela congelou no meio do caminho até a porta.
— Não como a gerente de relações públicas dos Lancaster. Não como o acessório perfeito do meu pai. Não como a mulher que enxerga a minha vida como uma lista de movimentos estratégicos.
Devagar, ela se virou para me encarar.
— Eu sou sua filha — sussurrei, as palavras saindo de uma vez. — Eu estou com medo. Eu estou com raiva. E eu não quero isso. Eu nem conheço esse homem e, em poucos minutos, eu tenho que sentar na frente dele e fingir que estou bem em amarrar a minha vida à dele só porque isso faz sentido para os negócios?
A expressão dela vacilou. Por um segundo, algo cru se moveu por trás dos olhos — arrependimento, talvez. Ou reconhecimento. Mas sumiu tão rápido quanto apareceu.
— Eu estou agindo como sua mãe, Brielle — disse ela, a voz mais suave agora. — Estou tentando te proteger. Do único jeito que eu sei.
— Me entregando a um estranho?
— Garantindo que você tenha segurança. Um futuro. Um parceiro que possa igualar sua ambição e proteger seu nome.
Balancei a cabeça, atônita com o quanto ela soava distante.
— Você nem sabe se ele é gentil — eu disse, baixinho. — Se ele trata as pessoas como se importassem. Se ele vai me ver como qualquer coisa além de uma ferramenta de barganha.
Ela não respondeu.
Porque não podia.
O silêncio se estendeu entre nós, denso e amargo.
Então ela baixou o olhar, ajustando o fecho da clutch com dedos trêmulos. “Use os brincos de diamante. São discretos, mas caros o bastante para mostrar respeito.”
Soltei uma risada vazia. “Claro. Não ia querer envergonhar a marca.”
Ela não respondeu. Nem sequer voltou a olhar para mim.
Apenas abriu a porta e saiu, os saltos estalando pelo corredor como um martelo de juiz sobre mármore polido.
E, assim, ela se foi.
Fitei a porta fechada por um segundo, depois encarei de novo a estranha no espelho — a garota de seda e salto alto que estava prestes a conhecer o homem para quem estava sendo vendida.
Damian Moretti.
O salto dos meus sapatos batia no piso de mármore enquanto eu seguia pelo corredor, cada passo ecoando como uma contagem regressiva. Meu pulso batia mais alto do que deveria, meu estômago era um nó de nervos embrulhado em seda.
Quando cheguei à sala de jantar, eu já não tinha certeza se estava respirando.
O mordomo abriu a porta para mim com um aceno discreto e ensaiado.
“Senhorita Brielle.”
Entrei.
Tudo estava exatamente como esperado — opulento, frio e perfeito do jeito que os jantares dos Lancaster sempre eram. A longa mesa de mogno reluzia sob o brilho suave do lustre. Um arranjo de orquídeas frescas ocupava o centro, ladeado por talheres cintilantes e taças de cristal.
Havia apenas duas pessoas sentadas.
Meu pai, na cabeceira, estava como uma estátua esculpida em ferro — mãos entrelaçadas, coluna ereta, expressão indecifrável. Minha mãe estava ao lado dele, taça de vinho na mão, postura impecável, cada detalhe da aparência sem um fio fora do lugar.
E então havia eu.
Fui até a cadeira vazia em frente à minha mãe, ao lado da que claramente era destinada a Damian. Tentei não encará-la por tempo demais.
“Ele ainda não chegou?” perguntei, mantendo a voz estável.
Meu pai mal levantou os olhos. “Ele vai se juntar a nós em breve. Sente-se.”
Eu me sentei, alisando o vestido com cuidado enquanto me acomodava na cadeira.
O silêncio que se seguiu não era novidade. Os jantares dos Lancaster raramente eram cheios de conversa, a não ser que servisse a um propósito. Mas hoje à noite, a tensão parecia diferente. Mais afiada. Como se todos estivessem esperando o espetáculo começar.
Minha mãe me passou o vinho sem dizer uma palavra.
Recusei com um leve balançar de cabeça.
Por mais furiosa que eu estivesse com meus pais por jogarem isso em cima de mim, eu podia desmoronar depois — depois do show. Depois de interpretar o papel. Depois de sobreviver ao jantar mais longo da minha vida.
Não era como se eu tivesse escolha.
Esse casamento tinha sido decidido muito antes de alguém sequer me pedir para aparecer de seda e salto alto.
Meu futuro marido — Deus me ajude — estaria aqui a qualquer minuto.
Passei a palma da mão na lateral do vestido, tentando conter o tremor. Meu pulso trovejava nos ouvidos, mas eu forcei os ombros para trás, queixo erguido, máscara no lugar.
Ainda assim, cada segundo que passava só piorava. A espera. As conjecturas. O pavor horrível e insistente roendo meu peito.
Eu sentia meu pai me observando, embora ele não dissesse nada. E minha mãe… ela não encontrava meu olhar de jeito nenhum.
Eu estava prestes a dizer alguma coisa, qualquer coisa, só para cortar aquele silêncio sufocante, quando as portas duplas rangeram e se abriram de novo.
E, dessa vez, o mordomo nem precisou dizer o nome dele.
Porque eu já sabia.
Damian Moretti.
Eu me levantei, virei-me e esqueci como se respirava.
Não havia hesitação em seu passo, nem incerteza no modo como o olhar dele varreu o ambiente.
Ele não era bonito no sentido tradicional.
Ele era afiado demais para isso.
Bruto demais nas bordas.
Alto e de ombros largos, vestia o terno preto como uma segunda pele — impecavelmente sob medida, e ainda assim natural. O cabelo escuro estava um pouco comprido demais, jogado para trás como se ele tivesse estado ocupado demais para se importar. A pele trazia o leve tom dourado do sangue mediterrâneo, e a mandíbula estava sombreada pelo começo de uma barba por fazer que o fazia parecer mais perigoso do que polido.
Mas não era a aparência que o tornava marcante.
Era a imobilidade.
Aquela imobilidade inquietante e controlada, como um predador esperando alguém se mexer primeiro.
Os olhos eram a pior parte.
Escuros. Penetrantes. Distantes. Não eram curiosos nem amigáveis. Não brilhavam nem aqueciam. Avaliavam.
E quando pousaram em mim…
Eu senti.
Aquele aperto no estômago. A consciência visceral de que esse homem não era apenas poderoso.
Ele estava acostumado ao poder. Era feito dele. Não pedia desculpas por isso.
E, enquanto o resto do mundo talvez o chamasse de um mistério, naquele momento eu não vi mistério.
Eu vi um aviso.
