CAPÍTULO TRÊS
DAMIEN
—Eu diria que Brielle se muda para o seu lugar neste fim de semana —disse Thomas com suavidade, girando o vinho como se aquilo fosse um jantar casual, e não a assinatura da vida de alguém. —Como o casamento vai acontecer daqui a quatro meses, isso ajuda a reduzir especulações. As pessoas falam menos quando a aparência está arrumadinha.
Ele sorriu ao dizer isso, e cada último resquício de autocontrole em mim ameaçou se partir.
Mas mantive a expressão neutra. Polida. Controlada.
Eu jogava esse jogo havia mais tempo do que ele imaginava.
—Sim —respondi, frio, erguendo meu próprio copo. —Quatro meses, então. Ela pode se mudar neste fim de semana.
Ao meu lado, Brielle ficou imóvel.
Quase imperceptível, mas eu senti. Um lampejo de tensão na postura dela, como se a coluna tivesse virado aço sob aquele vestido macio de seda.
Ela não sabia.
Claro que não. Thomas não se daria ao trabalho de avisá-la de algo assim com antecedência. Não quando podia largar a notícia à mesa como uma demonstração de poder.
Eu não olhei para ela.
Não precisava.
Eu já sabia o que veria —olhos azuis bem abertos, cheios de uma fúria não dita, o maxilar travado por trás de uma expressão cuidadosamente educada. Ela era boa em fingir. Mas não o bastante para me enganar.
Brielle Lancaster.
A garota com quem eu supostamente ia me casar.
Ela era bonita, sim —mas não daquele jeito cuidadosamente esculpido, estéril, que tantas mulheres do nosso círculo eram treinadas para ter. Não. A beleza dela tinha marcas de vida. Era real. Até bagunçada, mesmo, por baixo do verniz que os pais tinham forçado nela naquela noite.
Ela não queria isso.
Ela não me queria.
Ótimo. Porque o sentimento era recíproco.
Eu não estava ali para me apaixonar. Não estava ali para brincar de casinha nem para cortejar a boneca quebrada no canto.
Recostei um pouco na cadeira, os olhos deslizando até a mulher sentada do outro lado da mesa —a esposa dele. Perfeita como um retrato no vestido de noite preto, pérolas no pescoço, a expressão congelada como uma pintura.
Thomas voltou o olhar para mim, o sorriso apertando nos cantos, como um laço no pescoço.
—Imagino que sua família não vá se opor ao arranjo —perguntou, num tom leve, mas havia algo mais afiado por baixo. —Sua mãe tem sido bem… tradicional nas expectativas dela, não tem?
Aí estava.
A ameaça, fina como papel, mas inconfundível.
Se comporte, ou eu vou cutucar onde dói.
Pousei o copo com um tilintar suave e encarei o olhar dele sem desviar.
—Minha mãe confia no meu julgamento.
A sobrancelha dele se ergueu, só um pouco. Thomas se recostou, unindo as pontas dos dedos.
—Ótimo. Porque eu detestaria que essa aliança desse errado. Principalmente quando tenho sido tão… generoso com o que mantive só para mim.
Aí estava.
O sorriso de verdade.
O motivo de verdade para eu estar sentado àquela mesa.
A ameaça não dita logo abaixo das palavras. Uma lâmina vestida de veludo.
Porque Thomas Lancaster não queria apenas esse casamento.
Ele tinha influência.
O tipo de influência que podia reduzir a cinzas tudo o que a minha família construiu. Um arquivo. Um sussurro na sala de reuniões certa. Um vazamento, e o nome Moretti se desfaria.
Então, sim, eu aceitei o noivado.
Aceitei porque não tinha outra opção.
Ele sabia de algo.
Algo perigoso.
E até eu encontrar um jeito de arrancar isso das mãos dele, eu faria o papel. Vestiria o terno. Sorriria para a imprensa. Levaria a filha dele ao altar.
E depois?
Eu o enterraria.
Brielle não disse nada. Nem precisava. Eu sentia o olhar dela sobre mim pelo canto do olho, esperando para ver que tipo de monstro o pai tinha arranjado para ela.
Desculpa, querida. Você não ia ganhar um herói.
Thomas e a esposa se retiraram com sorrisos polidos e algumas frases murmuradas sobre “privacidade” e “conversa”.
Tradução?
Deixar os peões se misturarem.
Quando as portas se fecharam com um clique, eu me levantei da mesa e servi outra dose.
Brielle se ergueu devagar, graciosa e furiosa. O som dos saltos dela no mármore era seco. Definitivo.
—Bom —disse ela, cruzando os braços com força sob o peito—, isso foi... uma surpresa adorável.
Eu não disse nada.
Ela deu um passo mais perto, os olhos gelados e brilhantes.
—Então, agora a gente anuncia decisões de vida como se fossem lançamento de produto? —ela disparou. —Você podia pelo menos ter me avisado antes de concordar com esse plano de eu me mudar. Ou comunicação básica é demais para o grande Damian Moretti?
Girei o uísque no copo.
—Eu não sabia que precisava da sua permissão.
A risada dela foi aguda e sem humor. “Você precisava ter o mínimo de decência. Ou não ensinam isso em escolinha preparatória de bilionário?”
Por fim, eu me virei e deixei um meio sorriso puxar o canto da boca. “Você fica uma graça quando está indignada.”
“Ah, eu já passei da indignação”, ela disse, a voz baixa, cortante. “Estão me leiloando como um maldito cavalo de corrida, e você está tratando isso como um almoço de negócios.”
“Não é?”
Ela piscou. Só uma vez. Depois soltou uma bufada e deu um passo mais perto. “Meu Deus, você é exatamente como eu imaginei.”
“Bonito e emocionalmente indisponível?”
“Não”, ela rebateu. “Arrogante. Emocionalmente constipado. Provavelmente alérgico à palavra compromisso.”
Eu me recostei na cadeira, observando-a. “Você realmente acha que eu quero isso?”
“E não quer?”, ela disparou. “Você concordou rápido o bastante.”
“Também não ouvi você saindo batendo a porta.”
O maxilar dela se retesou, só um pouco. “Eu não concordei. Fui encurralada. Mas você… por quê?”, ela exigiu. “Você tem tudo. Dinheiro, poder, uma linha do maxilar que corta vidro — por quê?”
Então eu me virei por completo para encará-la, a voz fria, carregada de ironia.
“Você é linda. Impecável. Quem não ia querer casar com você?”
Os olhos dela se estreitaram, os lábios tremendo de raiva. “Não seja condescendente.”
“Não estou sendo. Estou admirando a embalagem”, eu disse. “Esse é o ponto, não é? Você aparece vestida como um enfeite, senta toda bonitinha ao meu lado e nós dois sorrimos para as câmeras. É isso que esse casamento é.”
Ela riu — um som amargo, incrédulo. “Você acha que já me decifrou?”
“Não”, eu disse, com frieza. “Mas eu conheço garotas como você. Bonitas. Privilegiadas. Entediadas. Você acha que ser infeliz te torna profunda.”
“E você acha que ser emocionalmente falido te torna poderoso.”
Deixei escapar uma risada baixa. “Touché.”
Ela se aproximou, e o ar entre nós zumbia de tensão. “Você não me conhece.”
“Não preciso.”
“Você não quer esse casamento mais do que eu”, ela disse. “Então o que a gente está fazendo aqui?”
Eu também dei um passo à frente, igualando o fogo dela com aço. “Estamos fazendo seu pai feliz.”
“Meu Deus, você é um puta de um mentiroso.”
“Talvez”, murmurei. “Mas pelo menos eu não estou fingindo que isso tem a ver com amor.”
Ela estremeceu, só um pouco.
Então se recompôs, endireitando a coluna, os olhos afiados. “Não se preocupe, Moretti. Eu não me apaixonaria por você nem se você fosse o último herdeiro egocêntrico e moralmente dúbio da Terra.”
Ela revirou os olhos e se virou na direção da lareira; a voz agora mais baixa, mas não menos cortante. “Eu não sei qual é a sua. Talvez você seja emocionalmente atrofiado demais pra se importar. Talvez você esteja tão desesperado assim pra agradar meu pai.”
Eu fiquei tenso. “Você acha que é por isso que eu estou aqui?”
“Eu acho”, ela disse, voltando a me encarar, “que você já provou que é só mais um homem que me enxerga como parte de uma transação.”
Meu maxilar travou.
Se ao menos ela soubesse.
Se ao menos ela soubesse que o verdadeiro motivo de eu estar sentado ali não tinha nada a ver com ela — e tudo a ver com a ameaça pairando sobre o nome da minha família.
Mas ela não sabia.
E não podia saber.
Então eu lhe dei a única coisa que ainda me restava.
Uma mentira envolta em gelo.
“Como eu disse, não leve pro lado pessoal.”
“Eu não gosto de você”, ela disse, sem rodeios.
Inclinei a cabeça. “É recíproco.”
“Eu não vou ser sua boneca. Nem seu escudo de relações públicas. Eu não vou bancar a noiva perfeita enquanto você sai por aí fingindo que isso é qualquer coisa além de uma troca corporativa.”
Um sorriso lento curvou minha boca. “Então não banque. Mas se a gente vai fazer isso, é melhor você aprender a interpretar o papel.”
Os olhos dela faiscaram. “Você não tem o direito de me dizer como eu tenho que interpretar nada.”
“Então descubra sozinha. Mas vamos deixar uma coisa bem clara—” eu me inclinei, a voz baixa, cada palavra curta e deliberada “—você pode odiar esse casamento, mas eu não sou o inimigo com quem você precisa se preocupar.”
Ela ficou imóvel.
Eu não pisquei.
Então me levantei e alisei o paletó do terno, voltando ao tom frio. “Vou mandar um carro para você no sábado. Faça as malas com pouca coisa.”
“Nem se dê ao trabalho”, ela disse, levantando-se também. “Eu vou de Uber. Não quero ficar devendo nada pra você.”
Eu sorri de novo, dessa vez só dentes. “Ah, Brielle. Você já está devendo.”
Ela me encarou enquanto eu me afastava, os lábios entreabertos como se quisesse dizer mais — gritar, talvez — mas eu não esperei.
Eu a deixei ali, de pé, naquele cômodo perfeito, com suas flores escolhidas a dedo e a prataria polida como orgulho.
Deixe que ela me odeie.
Isso vai facilitar quando eu finalmente transformar tudo isso em cinzas.
