CAPÍTULO QUATRO

BRIELLE

Muita coisa maluca tinha acontecido comigo nos últimos meses.

Primeiro, um dos meus livros foi publicado e um monte de fãs está devorando — o que era pra ser o sonho. E talvez fosse. Só que não mudou nada do que eu realmente queria que mudasse.

Segundo, eu fui pega de surpresa com a notícia de que iam me casar como se eu fosse um item de leilão em edição limitada.

E terceiro — porque o universo claramente tinha um gosto por drama — eu agora estava me mudando para a cobertura de Damien Moretti.

É. Aquele Damien.

O homem com uma linha do maxilar esculpida para a guerra e uma personalidade feita inteiramente de sinais de alerta.

— Ai, meu Deus, é tão lindo — Aria suspirou ao meu lado quando as portas do elevador se abriram com um ding suave, revelando um espaço moderno e elegante que parecia ter saído de uma matéria da Architectural Digest.

Pisos de madeira escura. Janelões com vista para o horizonte da cidade. Móveis cinza em tons discretos, com cara de caros demais para alguém realmente sentar. Arte que provavelmente custava mais do que toda a minha faculdade.

Por um instante, eu quase conseguia esquecer por que estava ali.

Então a voz da Aria baixou, cortando o encantamento.

— Bom... foda-se. Ele ainda é o pior.

Sorri, tensa.

— Bem-vinda à minha nova prisão.

Ela me lançou um olhar de lado.

— Uma prisão com adega climatizada, piso aquecido e provavelmente um quarto do pânico.

Os carregadores passaram por nós, arrastando minhas caixas — rotuladas com marcador preto em letras grandes: Livros, Casacos de Inverno que Eu Nunca Uso, Coisas de que Vou Me Arrepender Depois.

Verem eles levando pedaços da minha vida para dentro da casa de um estranho fez meu estômago revirar.

— Isso não parece real — murmurei.

Ela se virou para mim, e os olhos dela estavam de repente marejados.

— Bri...

— Eu estou bem — menti depressa.

— Não está — ela disse, a voz falhando. — Você não está bem, e isso não está certo.

Desviei o olhar.

Eu não podia chorar. Não ali. Não agora.

— Você não devia ter que fazer isso — ela disse com ferocidade. — Você merece alguém que te escolha. Não alguém que te tolere por obrigação.

— Eu não estou procurando ser escolhida, Aria — eu disse, forçando um sorriso apertado. — Só... deixada em paz.

Ela balançou a cabeça, caminhou até mim e pegou minha mão.

— Meu Deus, eu queria poder consertar isso. Queria que você só aceitasse minha proposta de antes. Eu podia botar fogo em tudo e te fazer fugir comigo para Barcelona.

— Eu odeio sol.

— Tá, então. Islândia. A gente escreve livros e alimenta renas.

Eu ri — uma risada de verdade, dessa vez.

— Eu ainda estaria presa nessa confusão, mesmo na Islândia.

O rosto dela murchou de novo, e ela me puxou para um abraço apertado.

— Ele não merece dividir um teto com você. Muito menos uma vida.

— Acho que ele não quer — murmurei.

Ela se afastou, estreitando os olhos.

— Ótimo. Porque se ele te machucar — emocionalmente, fisicamente, psicologicamente, ou até respirando perto demais — eu vou matar ele com as minhas próprias mãos e fazer parecer um acidente.

— Você não é exatamente discreta.

— Eu não estou tentando ser — ela disse, passando a mão debaixo dos olhos. — Eu odeio ele.

— Já somos duas.

Revirei os olhos e comecei a caminhar mais para dentro da cobertura. O ar cheirava a roupa de cama limpa e ambição gelada. Tudo estava impecável. Frio. Perfeito demais.

Exatamente como o dono.

Eu não sabia onde Damien estava — e não me importava.

Quanto menos eu visse ele, mais fácil isso seria.

— Eu ainda não acredito que seus pais estão de boa com isso — Aria resmungou, vindo atrás de mim. — Tipo, se mudar com o seu futuro marido pra evitar fofoca? Que século é esse?

— Décimo oitavo. Com Wi-Fi.

Ela me lançou um olhar.

— Você acha que ele pelo menos tem TV? Ou é só uma parede que grita?

Nós duas paramos diante de uma parede da sala que era, de fato, uma tela enorme embutida. Ela ergueu uma sobrancelha.

— Tá, tá. Coisas de gente rica.

Suspirei. “Não é como se eu tivesse escolha. Como meu pai disse... imagem. Aparências. ‘Vamos fingir que está tudo bem para a imprensa não entrar em pânico.’”

“E o que ele ganha com isso?”, ela perguntou, a voz baixa agora. Séria.

Eu não tinha uma resposta para isso.

Antes que eu pudesse tentar responder à pergunta da Aria — ou surtar pensando nisso —, uma batida educada soou na moldura da entrada e surgiu uma mulher, por volta dos quarenta e tantos, uniforme impecavelmente passado, cabelo preso num coque daquele tipo que provavelmente não saía do lugar desde 2005.

“Senhora?”, disse ela com polidez, juntando as mãos. “Seu quarto está pronto. Vou lhe mostrar.”

Seu quarto. Singular.

Então não estávamos fingindo que eu dividiria a cama com meu noivo. Ótimo.

Pelo menos Damien teve a decência — ou a consciência estratégica — de evitar essa exata dose de constrangimento.

“Já vou”, murmurei, e Aria veio atrás sem precisar de sinal.

Fomos conduzidas por um corredor longo e pouco iluminado, com obras de arte discretas e painéis de parede com luz indireta. Cada passo ecoava, como se a cobertura me lembrasse que eu não pertencia ali. Que aquilo não era minha casa. Só mais um palco para eu atuar.

A mulher abriu uma porta no fim do corredor. “A senhora vai encontrar tudo organizado de acordo com as instruções que recebemos”, disse. “Se precisar de qualquer coisa, é só chamar.”

E então desapareceu como neblina.

O quarto era — bem, objetivamente falando — deslumbrante.

Luz suave. Janelas do chão ao teto com vista para a linha do horizonte. Piso de madeira clara e uma cama que parecia ter sido projetada para um comercial de sono de alto padrão. Uma poltrona de leitura de veludo creme ficava no canto, voltada para uma estante embutida alta que já estava meio preenchida com meus próprios romances e alguns favoritos que eu não via desde a faculdade.

Alguém tinha feito a lição de casa.

“Uau”, Aria resmungou. “Isso aqui é tipo um quadro do Pinterest que teve um bebê com um museu.”

Eu me joguei na cama e soltei o ar, a coluna afundando no colchão ridículo.

O anel no meu dedo cintilou sob a luz. Elegante. Gelado como gelo. Perfeito.

Igual ao homem que o enviou.

Damien nem se deu ao trabalho de entregá-lo pessoalmente.

Não — eu o recebi pelas mãos da assistente dele, junto com um bilhete de tom duro que dizia:

“Use. A imprensa vai notar.”

Romântico, né?

Eu tinha encarado o anel por horas antes de finalmente enfiá-lo no dedo. Não porque eu aceitasse o que ele significava, mas porque eu não queria que minha mãe perguntasse por que eu não estava usando.

Eu não via Damien desde o jantar.

Sem mensagens. Sem checagens. Sem aquela fase constrangedora de “se conhecer” pela qual a maioria dos noivos costuma tropeçar.

E, sinceramente?

Eu preferia assim.

O homem era mais frio do que esta cobertura. Ele deixou cristalino que eu era só mais uma peça no jogo longo dele. E, embora eu não soubesse exatamente o que ele estava tramando, eu sabia melhor do que acreditar que eu era algo minimamente importante.

“Você ainda pode desistir”, Aria sussurrou. “Ainda pode fugir.”

Encarei os olhos dela e, por um segundo imprudente, quase disse que sim.

Mas então pensei na imprensa. Nos meus pais. Na expressão do meu pai quando ele me disse que isso era “pelo bem maior”.

E em Damien — que nem sequer olhou para trás.

“Eu não acho que seja eu quem tem poder para ir embora”, eu disse, baixinho.

Aria suspirou e pegou minha mão. “Então fica. Mas não se perca aí dentro dessa cobertura.”

Dei um sorriso triste. “Já sinto como se tivesse me deixado na porta.”

Lá fora, a cidade ainda estava viva. Os carros se moviam como estrelas sobre o asfalto, alheios à garota que encarava tudo de cima, de uma torre dourada onde ela nunca pediu para morar.

E em algum lugar — talvez em outra ala ou talvez em outra cidade inteira — Damien Moretti ainda estava por aí.

Intocado. Indiferente.

Invisível.

Tirei o anel e o coloquei no criado-mudo.

Por enquanto, essa era a única escolha que eu ainda podia fazer.

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