CAPÍTULO CINCO

DAMIEN

“...Com efeito imediato, Damien Moretti assumirá o cargo de Diretor Executivo da Moretti Global, após uma votação unânime do conselho.”

Houve um instante de silêncio antes que uma onda de aplausos se espalhasse pela sala de reuniões — educados, ensaiados e cautelosos o bastante para me lembrar que, embora tivessem votado em mim, não necessariamente tinham parado de me observar.

Tudo bem. Eu não voltei para ser querido.

Sentei-me na cabeceira da longa mesa de obsidiana, cercado por uma dúzia de homens em ternos que custavam mais do que o aluguel anual de algumas pessoas. Alguns me olhavam com uma aprovação contida; outros, com ceticismo velado; e alguns, com aquela curiosidade desconfiada que só aparecia quando alguém inesperado voltava para tomar o que agora, por direito, era seu.

Deixei que olhassem.

Dois anos atrás, eu fui embora desta cidade. Da empresa. Do nome. Deixei para trás as câmeras, as expectativas, o peso de algo em que eu não tinha nascido — mas que, ainda assim, haviam me moldado para carregar. Não por sangue. Não por herança. Por vontade.

Agora eu estava de volta.

Não como uma sombra, não como o herdeiro silencioso escondido na Itália, mas como o homem no centro da sala. O homem segurando as rédeas de um império que não foi construído para suavidade nem sentimentalismo.

Eu me levantei, ajustando as mangas do paletó com uma calma deliberada, deixando o silêncio se acomodar por tempo suficiente para lembrá-los de quem tinha a palavra.

“Começamos a implementação do plano de reestruturação neste trimestre”, eu disse, com a voz uniforme. “Os chefes de departamento receberão a estrutura atualizada antes do meio-dia. A partir de agora, nossas operações serão mais enxutas, mais rápidas e sem dependência de sistemas legados. Qualquer ineficiência será eliminada. Permanentemente.”

Ninguém contestou. Raramente contestavam quando o recado era claro.

Afinal, controle não exigia barulho. Só precisão.

Quinze minutos depois, a sala estava vazia, as cadeiras empurradas de volta para a mesa e o cheiro de colônia cara ainda pairando de leve no ar. Atrás das paredes de vidro, eu já conseguia ouvir a agitação crescendo lá embaixo — imprensa se alinhando no saguão, equipes de câmera rondando do lado de fora, assessores de relações públicas apagando incêndio antes mesmo de qualquer coisa começar.

A história já tinha sido escrita.

O herdeiro Moretti retorna. Uma nova era começa.

Que publicassem o que quisessem, contanto que isso os fizesse se sentir importantes.

Voltei para o meu escritório — uma extensão elegante de vidro, aço e silêncio — e coloquei o celular sobre a mesa no exato instante em que ele vibrou.

Lorenzo:

Ela entrou. Os carregadores acabaram de sair. Até agora, sem drama.

Outro aviso veio antes que eu pudesse responder.

A imprensa está em cima. Quer que eu já anuncie o noivado?

Meu polegar pairou sobre a tela por um segundo antes de eu responder.

Brielle Lancaster. Minha noiva. Tecnicamente.

Nós não nos falávamos desde aquele jantar.

Nem uma única palavra. Nem uma mensagem. Nem um olhar. E, ainda assim, ela se mudou. Em silêncio. Como esperado. Como combinado.

Ela fazia parte do plano agora.

Não porque eu a quisesse ali — mas porque não havia outra escolha.

Anuncie. Ou controlamos a narrativa, ou eles criam uma por nós. Use fotos do jantar dos Lancaster. Quero o comunicado na minha mesa hoje à noite.

A resposta de Lorenzo veio na hora.

Entendido. Quer que eu envie uma cópia para ela?

Não. Ela vai descobrir junto com o resto do mundo.

Bloqueei a tela e me recostei na cadeira, observando a luz do sol se esticar sobre a linha do horizonte.

De manhã, as manchetes já estariam no ar.

Damien Moretti: CEO. Noivo. Estabelecido. Poderoso.

Eles teriam o seu conto de fadas.

Sempre tinham.

Mas nenhum deles conhecia a história real por trás disso.

Ninguém sabia do arquivo enterrado na minha pasta criptografada.

A foto. O áudio. O momento em que eu baixei a guarda por uma fração de segundo — e dei a alguém como Thomas Lancaster uma arma para brandir.

Esse noivado não era romântico. Não era pessoal.

Era calculado.

Uma troca feita a portas fechadas. Uma tática de sobrevivência vestida de algo limpo.

Fiquei encarando a tela por mais um instante antes de fechar a pasta.

O que quer que ele achasse que tinha contra mim — qualquer vantagem que acreditasse possuir — logo não importaria.

E quando tudo isso acabasse — quando eu finalmente enterrasse cada segredo que Thomas Lancaster já transformou em arma — eu iria embora com tudo.


Naquela noite

A cobertura estava silenciosa quando eu entrei — até deixar de estar.

Risadas vinham da cozinha. Femininas. Quentes. Leves o bastante para parecerem deslocadas num lugar como aquele.

Segui o som por instinto, afrouxando o colarinho da camisa ao virar a esquina. E lá estava ela.

Brielle.

Encostada na ilha, descalça, o cabelo úmido e solto caindo pelas costas. Uma taça de vinho na mão. Rindo de alguma coisa que a minha governanta — Elena, a única funcionária que estava comigo havia mais tempo do que o meu nome vinha significando alguma coisa — tinha dito. Era surreal, como ver alguém reescrever um capítulo dentro da sua casa sem pedir.

No instante em que Elena me viu, o rosto dela se transformou naquela mistura de pânico e respeito, de lábios cerrados, que só se reserva a gente com títulos como CEO e senhor Moretti.

— Senhor. — Ela se endireitou na hora, pousou a toalha que estava na mão e recuou. — Eu só... Ela estava perguntando sobre a disposição da cozinha. Nós estávamos... só conversando.

Brielle não disse nada. Apenas deu um gole no vinho e me observou, fria e indecifrável.

— Entendo — eu disse, calmo, largando as chaves no balcão. — Pode ir, Elena.

Ela assentiu, quase tropeçou numa reverência que não fazia havia anos, e saiu apressada como se o lugar estivesse pegando fogo.

O silêncio que veio depois foi mais alto do que qualquer discussão.

— Sabe — Brielle disse por fim, pousando a taça com um leve tilintar —, se você vai invadir os cômodos desse jeito, o mínimo que podia fazer era dizer oi.

— Eu não sabia que precisava cumprimentar visitas na minha própria casa — respondi, seco.

Ela inclinou a cabeça.

— Não sou visita, lembra? Eu moro aqui agora. Sua encantadora futura esposa.

Ergui uma sobrancelha.

— Encantadora não é a palavra que eu usaria.

— Nem “material de marido”, mas cá estamos.

Eu não sorri.

Ela contornou a ilha devagar, os pés descalços sem fazer som no piso polido.

— Para alguém que orquestrou esse circo inteiro, você parece bem irritado com ele.

— Você fazia parte do acordo, se bem me lembro.

— Eu fui dano colateral num acordo entre dois homens que não conseguiam manter os próprios egos sob controle.

— Não se ache — eu disse, a voz baixa. — Você não é tão importante.

Ela sorriu, doce e mortal.

— Então por que eu estou aqui?

Uma pausa. Um segundo. Dois.

— Porque você fica bem no papel — eu disse enfim, servindo uma bebida para mim. — Você sabe sorrir. Vem de uma família respeitável. É inteligente o bastante para fingir a narrativa perfeita para as câmeras. E me odeia o suficiente para manter distância.

— Ah, não se preocupe — ela disse com uma risada suave, passando por mim. — Distância não vai ser um problema.

Eu me virei quando ela foi em direção à sala de estar, as costas retas, cada passo uma declaração silenciosa de guerra.

— Você pode fazer o que quiser dentro destas paredes, Brielle. Se divertir como achar melhor. Só garanta que, quando o mundo estiver olhando, você cumpra o seu papel.

Ela parou perto da janela, a silhueta brilhando de leve contra a linha do horizonte da cidade.

— E que papel é esse, exatamente?

Dei um gole na bebida, deixando o silêncio se esticar.

— A noiva amorosa. A esposa devotada. A mulher que tem tudo o que sempre quis.

— E você? — ela perguntou sem se virar. — Que papel você faz?

— Eu não preciso de papel — eu disse, simples. — Eu já sou dono do palco.

Ela riu de novo, baixo e amargo.

— Você realmente acha que isso aqui é todo seu, não acha?

Encontrei o olhar dela refletido no vidro.

— Eu sei que é.

Outro silêncio. Esse mais longo. Mais apertado.

Ela se virou por completo, os braços cruzados.

— Eu não me importo com a história que você quer vender, Damien. Eu não te devo afeto falso. Não vou segurar sua mão em público e bater cílios como se eu fosse a mulher mais sortuda do mundo.

— Não precisa — eu disse. — Só não me envergonhe.

— E se eu envergonhar?

Eu me aproximei, só o bastante para a tensão faiscar entre nós como um fio desencapado.

— Então nós dois queimamos.

Ela não vacilou.

— Eu não tenho medo de fogo.

— Ótimo — eu disse, me inclinando só o suficiente para ver o lampejo nos olhos dela.

Ela me encarou por tempo demais. Então disse, leve:

— Então eu estou livre para fazer o que eu quiser aqui dentro, é?

— Dentro do razoável.

Os lábios dela se curvaram, provocadores e perigosos.

— Bom saber. Então, se eu decidir dormir com outra pessoa, isso ainda fica dentro dos limites?

Alguma coisa em mim se contraiu.

Só um lampejo. Mas estava lá.

Meu maxilar retesou.

Eu me aproximei mais, deixando o ar rarefeito entre nós.

— Não com o meu anel no seu dedo, Brielle.

O sorriso de canto dela desapareceu.

Eu me endireitei e dei um passo para trás, restabelecendo o espaço entre nós.

— Você pode me odiar o quanto quiser — eu disse. — Pode gritar em cada travesseiro deste cobertura e contar os dias até a sua liberdade. Mas enquanto estiver usando o anel? Eu olhei bem no fundo dos olhos dela.

— Você é minha.

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