CAPÍTULO SEIS

BRIELLE

Nos meus vinte e quatro anos de existência dentro da lei, eu segui a maioria das regras que a sociedade me disse que importavam.

Eu não roubo, não furo fila, espero o sinal abrir, paguei meus impostos, até finjo ler os termos e condições antes de clicar em “Concordo” e devolvo livros da biblioteca no prazo.

Mas hoje?

Hoje, vale tudo, porque oficialmente estou planejando um assassinato.

E a pessoa na ponta receptora?

Ah, só o homem com quem estou marcada para me casar daqui a exatamente quatro meses.

Isso mesmo... casar. Com votos, alianças e uma cerimônia diante de testemunhas.

Um homem que, neste momento, merecia levar um chute direto para dentro de um vulcão ativo, com um sorriso no meu rosto.

Então, quando acordei hoje de manhã, não esperava muita coisa, talvez um dia tranquilo fingindo que a minha vida não estava implodindo.

O que eu não esperava?

Era abrir o Instagram e dar de cara com o meu rosto me encarando na conta oficial da Moretti Global.

@morettiglobal — 7:41 da manhã

📸: É oficial. O CEO Damien Moretti está noivo da autora Brielle Lancaster. O casal celebrou discretamente com a família no fim de semana. Mais detalhes em breve. 💍

[Imagem: Damien em um smoking. Eu, sorrindo como uma idiota naquele maldito baile de gala, dois meses atrás.]

Pisquiei para a tela.

Rolei para baixo.

Cliquei.

Atualizei.

Não. Ainda estava lá.

Ainda marcada. Ainda com legenda. Ainda completamente público.

E eu descobri ao mesmo tempo que o resto do mundo.

Na verdade... correção — o mundo descobriu antes de mim, porque aparentemente Damien não acredita em cortesia humana básica nem no conceito de avisar alguém antes de detonar uma bomba social.

Joguei o telefone na cama e me levantei, andando de um lado para o outro pelo quarto como um furacão privado de cafeína.

Mas que porra é essa?

Nenhuma ligação. Nenhum aviso. Nenhum “Ei, Brielle, hoje vou casualmente postar um anúncio conjunto de noivado para trinta milhões de pessoas”.

Só uma legenda brilhante e uma vida photoshopada da qual eu não concordei em participar.

Fui até o espelho e me vi: camiseta de dormir enorme, cabelo selvagem, rímel borrado sob o olho esquerdo como se eu tivesse perdido uma briga de socos com o travesseiro. A futura senhora Damien Moretti, senhoras e senhores. Preparem as câmeras.

Ouvi uma batida na porta.

Não era Elena.

Eu conhecia aquela batida.

Seca. Contida. Como se a pessoa do outro lado nunca tivesse batido numa porta na vida, mas tivesse visto isso acontecer uma vez num filme.

Abri de supetão.

E lá estava ele.

Damien.

Terno escuro. Camisa impecável. Gravata afrouxada na medida certa para parecer casual, mas ainda cara. E, claro, aquela expressão de quem já estava entediado com qualquer coisa que eu fosse dizer.

— Bom dia — ele disse, sem emoção.

— Você só pode estar brincando.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Imagino que você tenha visto a publicação.

— Visto? — Eu ri... curto, seco, incrédulo. — Damien, eu fui marcada nela. Como se fosse uma colaboração de marca. Ou o lançamento de uma porra de bolsa.

— Era o próximo passo lógico. O mundo acabaria descobrindo de qualquer forma.

— E você achou que a melhor maneira de me contar era me deixar ler sobre isso junto com o meu café da manhã?

— Não achei que isso exigisse discussão.

Fiquei encarando-o.

— Você não acha que nada exige discussão, a menos que envolva uma teleconferência trimestral de resultados.

O maxilar dele se contraiu.

— Eu mandei meu assistente cuidar disso.

— Ah, que reconfortante. Talvez da próxima vez ele também possa cuidar dos meus votos.

Ele nem piscou.

— Você concordou com isso, Brielle. O anúncio para a imprensa era inevitável.

Dei um passo à frente, ficando cara a cara. “Existe uma diferença entre inevitável e desrespeitoso.”

“Você está com raiva. Registrado.” A voz dele era gelo. “Mas nós dois sabemos o que é isso. Você não me quer, e eu não quero você.

Cruzei os braços, o calor subindo pelo meu pescoço. “Que bom que estamos de acordo.”

“Não estamos”, Damien respondeu, já ajeitando o punho da camisa como se estivesse se preparando para uma coletiva de imprensa, e não discutindo com a noiva. “Hoje à noite tem um jantar reservado. Sete em ponto.”

Pisquei. “Como é?”

“Com a minha equipe de relações públicas”, ele disse, num tom seco. “Eles querem fotos atualizadas. Algumas citações selecionadas. Um pouco de conteúdo ‘de casal’ espontâneo para uma futura matéria na Elite Weekly, ou seja lá qual veículo eles decidiram ser o mais estratégico.”

Encarei-o como se ele tivesse criado uma segunda cabeça. “Você está brincando.”

“Eu tenho cara de quem brinca?”

“Não sei, talvez você dê um sorrisinho dormindo. Relaxa um pouco.”

O olhar dele passou por mim — vazio, impassível, gelado. “Não é opcional, Brielle. Eles querem ver a gente interagir. Entender a nossa dinâmica antes de fazermos qualquer coisa em público. Você vai vestir algo apropriado. Vai sorrir. Vai agir como se estivéssemos loucamente apaixonados.”

Soltei o ar devagar, os dedos se apertando em volta do meu celular enquanto eu resistia ao impulso de atirar aquilo na cara dele.

“Eu não sou sua marionete, Damien.”

“Claro que não.” Ele se aproximou, a voz baixa e firme. “Você é uma coestrela. Numa encenação para a qual nós dois assinamos.”

Apertei os olhos. “Não tenta enfeitar isso como se fosse algo nobre.”

“Não estou”, ele disse, simples. “Estou enfeitando como sobrevivência. Você aparece hoje à noite, ou eu explico por que a minha linda noiva não se deu ao trabalho de comparecer a um jantar com as pessoas que estão gerenciando a imagem pública dela.”

Soltei uma risada amarga. “Ah, desculpa… então é isso que eu sou agora? Um investimento de marca?”

Ele não piscou. “Você se mudou. Você aceitou o anel.”

“Eu me mudei porque fui obrigada”, retruquei. “E o anel? Aquilo chegou numa caixinha de veludo — com um post-it da sua assistente. Muito romântico.”

“Não estamos aqui para brincar de contos de fadas, Brielle.”

“Não”, eu disse, fria. “Estamos aqui para brincar de aparência.”

Ele deu um passo na minha direção — lento, deliberado. Perto o bastante para eu sentir o cheiro da colônia cara e da mentira por baixo.

“A aparência importa. Principalmente agora”, ele disse. “Esse jantar define o tom de tudo que vem depois. Você vai aparecer. Vai estar linda. Vai encantar as pessoas que foram contratadas para nos tornar convincentes.”

Eu bufei, com desdém. “Não existe ‘nós’, Damien.”

“Existe”, ele disse com calma, “quando as câmeras estão gravando.”

“Você é inacreditável.”

“E você está precisando — e muito — de uma prova de roupas”, ele disse, já passando por mim. “A stylist vai estar aqui às cinco.”

Minha boca se abriu e depois fechou. A raiva explodiu no meu peito como um fósforo aceso na gasolina.

E, antes que eu conseguisse pensar numa resposta afiada o bastante para tirar sangue, ele já tinha ido embora — desaparecendo pelo corredor como se não tivesse acabado de atropelar o último resto de dignidade que me sobrava.

Fiquei ali, os dentes cerrados, o pulso acelerado, pensando em cada manchete, cada sorriso falso, cada clique de câmera que eles capturariam naquela noite.

Jantar reservado. Mentiras coordenadas. Amor falso sob iluminação perfeita.

E um detalhe pequeno que a equipe de RP convenientemente esqueceu de mencionar:

Eu estava a aproximadamente dez minutos de assassinar meu noivo.

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