CAPÍTULO SETE
BRIELLE
Quando o elevador se abriu no último andar, eu já tinha dominado meu visual com perfeição.
Meu vestido era minha pintura de guerra. Um slip dress de seda, preto-meia-noite, que deslizava pelo meu corpo como uma ameaça — elegante, discreto e revelador na medida certa para dizer que eu poderia acabar com a sua vida com um sorriso. As costas desciam escandalosamente, a barra roçava minhas coxas, e os saltos prateados estalavam no mármore como tiros de advertência. Minha maquiagem? Impecável. Delineado gatinho afiado, boca vermelho-sangue, maçãs do rosto contornadas como mármore esculpido. Cabelo puxado para trás, pescoço nu, exceto pelos delicados pontos de diamante que a equipe de RP dele mandou como “presente de boas-vindas”.
Quando entrei na sala de jantar, a atmosfera mudou.
Uma mesa comprida se estendia pelo centro do cômodo, ladeada por seis membros da equipe de RP do Damien, todos em traje social. Taças de cristal, guardanapos perfeitamente dobrados, o brilho suave de velas. Não pelo clima. Pela estética. Câmeras disparavam discretamente ao fundo, e uma playlist instrumental cuidadosamente escolhida tocava como um sussurro.
E então eu o vi.
Damien Moretti estava na ponta oposta, falando com uma mulher de terninho azul-marinho e batom marcante.
O olhar dele me encontrou na mesma hora.
E parou.
Por um momento, a sala inteira encolheu até caber naquele único olhar. Os olhos dele percorreram meu corpo — devagar, calculista, indecifrável.
Ele não sorriu.
Claro que não.
“Srta. Lancaster”, uma loira animada com uma prancheta correu para me receber. “Eu sou a Ava. Você está incrível. Muito obrigada por vir. Estamos tão animados por você ter conseguido. Você está absolutamente deslumbrante.”
“Obrigada”, eu disse, fria, oferecendo um sorriso que não chegava bem aos olhos. “Só vim fazer figuração de braço.”
Algumas risadas educadas vieram em seguida. As câmeras clicaram suavemente ao fundo.
E então ele estava ali — ao meu lado.
A presença dele chegou antes da voz. Silenciosa, esmagadora, impossível de ignorar.
“Você está atrasada”, Damien murmurou baixo o suficiente para ninguém mais ouvir.
Eu nem olhei para ele. “E você ainda está respirando. Nós dois temos nossos milagres.”
Ele não reagiu. Não de forma visível. Mas seus olhos cortaram de lado na minha direção, com um lampejo de alguma coisa indecifrável.
Desejo. Irritação. Diversão?
Difícil dizer com homens como ele.
“Vamos?” ele perguntou, suave, oferecendo o braço.
Eu aceitei com um sorriso afiado o bastante para cortar vidro. “Vamos dar a eles o conto de fadas, querido.”
Posamos. Sorrimos. Trocamos olhares ensaiados que as câmeras devoraram como doce.
E cada segundo daquilo fazia minha pele se arrepiar.
“Vamos todos nos sentar”, Ava disse, radiante.
Nós nos acomodamos nos lugares marcados na cabeceira da mesa — Damien à minha direita, a equipe dele espalhada ao redor como peões.
“Antes de mais nada”, Ava disse, entrelaçando as mãos como se fosse anunciar a cura do câncer, “muito obrigada a vocês dois por estarem aqui hoje. Sabemos que o tempo de vocês é limitado, mas queríamos muito começar a moldar a narrativa cedo — lançamento suave, imagens limpas, química genuína.”
“Genuína”, eu repeti por entre dentes. Damien nem piscou.
Ava abriu um sorriso. “Então vamos começar com algumas perguntas leves, nada intenso. Só coisas para nos ajudar a capturar a energia entre vocês dois. É menos sobre mídia e mais sobre clima.”
“Energia”, eu disse. “Certo.”
“Vamos começar pelo óbvio”, se intrometeu outro representante de RP, um cara de cabelo engomado e um entusiasmo com cara de cafeína. “Como vocês se conheceram?”
Eu abri a boca, mas Damien falou primeiro.
“Num baile de gala beneficente”, ele disse, suave. “Dois anos e meio atrás. O pai dela nos apresentou. Ela estava usando um vestido vermelho, e eu me lembro de pensar—”
“—‘Ela seria perfeita para um noivado falso algum dia’”, eu murmurei.
Algumas pessoas riram, achando que eu estava brincando.
Damien não perdeu o ritmo. “—que eu nunca tinha conhecido alguém tão pouco impressionada comigo. O que, é claro, a tornou memorável.”
A voz dele tinha mudado. Um pouco mais baixa. Enganosamente quente. Ele não estava apenas contando uma história — estava construindo uma.
“Ela insultou minha gravata”, acrescentou. “Disse que parecia algo que um banqueiro de investimentos sem imaginação usaria.”
Eu pisquei. “Isso… aconteceu mesmo.”
Mais risadinhas educadas.
“Eu soube ali”, ele disse, erguendo a taça com naturalidade, “que ela destruiria minha paz do jeito mais interessante possível.”
Eu pisquei de novo, pega de surpresa.
Que diabos de monólogo de comédia romântica era aquele?
“E quando vocês começaram a namorar?”, Ava perguntou, com os olhos brilhando.
“Nós mantivemos contato”, Damien disse. “Nos vimos ocasionalmente em eventos. As coisas mudaram por volta de um ano atrás. E quando decidi voltar para Nova York, nós soubemos que era o momento certo.”
As mentiras saíam da boca dele com uma facilidade tão grande que me deu um frio na barriga. Como se ele tivesse ensaiado.
Ele não tinha. Ele não precisava.
Porque Damien Moretti não mentia como pessoas normais. Ele mentia como se estivesse dizendo a verdade.
Outra pessoa se inclinou. “Então… você pediu antes ou depois da Itália?”
Um segundo de silêncio.
Olhei para ele, interessada em ver que tipo de confusão ele faria com essa.
“Antes”, ele disse, sem hesitar.
A boca de Ava caiu. “Espera — vocês estavam noivos esse tempo todo?”
Ele assentiu uma vez. Calmo. Firme. “Em particular. Não queríamos especulação da imprensa até estarmos prontos.”
“Como você fez?” perguntou outro representante. “O pedido. Vamos, você tem que dar alguma coisa pra gente colocar no texto.”
Damien então se virou para mim, e seus olhos prenderam os meus de um jeito que pareceu mais pesado do que eu estava pronta para aguentar.
“Era tarde”, ele disse, a voz mais baixa agora. “Estava chovendo. Ela odeia chuva.”
Minha boca se entreabriu de leve. Eu odiava mesmo.
“Eu tinha acabado de voltar de uma reunião”, ele continuou. “Ela estava no meu apartamento, lendo alguma coisa — provavelmente um dos livros dela.”
Algumas pessoas sorriram com isso.
“Eu não tinha discurso. Nenhum fotógrafo escondido num arbusto. Só um anel e uma pergunta.”
Ele olhou para a mesa por um segundo. Depois, de volta para mim.
“E eu perguntei. Porque eu sabia que ia me arrepender se não perguntasse.”
A sala ficou imóvel.
Até as bolhas do champanhe pareciam barulhentas demais.
Ele parecia tão convincente, tão composto, como se quisesse dizer cada maldita palavra.
Pisquei uma vez. Duas.
“Eu disse sim”, acrescentei por fim, a voz um pouco rouca. “Depois de um tempo. Eu achei que ele estivesse brincando.”
“Ela achou”, ele disse com um meio sorriso. “Falou que eu estava com concussão e que devia sentar.”
“Ainda acho que talvez estivesse.”
A mesa riu.
As perguntas continuaram: “...lugares preferidos pra encontros, hobbies em comum, manias de casal, planos de viagem...”
A maioria das respostas eram mentiras embrulhadas em polimento suficiente para passarem por verdade. Éramos uma ilusão bem-vestida, costurada pela conveniência e pela estratégia de RP.
Mas, de algum jeito, funcionava. Bem demais, talvez.
Um homem na ponta da mesa se inclinou para a frente, girando o vinho na taça. “Certo, última — essa é menos formal, mais divertida.”
Eu me preparei.
“Se você tivesse que descrever seu relacionamento com uma metáfora”, ele disse, “qual seria?”
Gemidos e risadas encheram a mesa. “Ah, essa é boa”, Ava entrou na conversa, os olhos brilhando. “Vamos, gente. A gente precisa de algo poético pras legendas.”
Todos os olhos se voltaram para Damien primeiro.
Ele tomou um gole da bebida, elegante e indecifrável, e então disse: “Improvável.”
Mais risadas.
Mas a atenção se deslocou para mim antes que eu pudesse me recolher nas dobras do silêncio.
“E você, Brielle?”
O momento se esticou.
Eu podia ter dito algo seguro. Algo genérico como sólido, ou crescendo, ou equilibrado.
Mas não.
Por algum motivo, eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça.
“Fogo”, murmurei. “Parece fogo.”
Isso arrancou alguns olhares curiosos. Alguém na outra ponta arqueou a sobrancelha. “Como assim?”
Encarei Damien, os lábios se curvando de leve.
“É... volátil. Perigoso, às vezes. Mas quente também. Consumidor, se você não tomar cuidado. Bonito. E às vezes…” Fiz uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado, “...às vezes parece que é a única coisa real numa sala cheia de frio.”
Um trecho silencioso se seguiu às minhas palavras.
Por um segundo, achei que eu tinha exagerado. Talvez poético demais para um jantar de RP. Mas algumas pessoas assentiram, apreciativas; uma das mulheres até levou a mão ao peito com um “Ah, isso é lindo.”
Eu não olhei para Damien — até olhar.
Ele não tinha se mexido.
Não muito.
Mas alguma coisa na postura dele tinha mudado, sutil e cortante. Como se ele tivesse travado cada músculo no lugar. A mandíbula estava cerrada só o bastante para eu notar; a mão, apertada no pé da taça como se ele tivesse esquecido como soltar. Os olhos estavam em mim, mas não do jeito de sempre — avaliando, firme, ilegível. Isso era diferente. Mais tenso. Como se eu tivesse dito algo que o desestabilizou.
Pisquei, um lampejo de confusão subindo no meu peito.
Que porra foi essa?
Mas antes que eu pudesse entender — ou pior, antes que qualquer outra pessoa pudesse —, ele pigarreou.
“Terminamos por aqui”, ele disse, suave o suficiente para que só eu pegasse a ponta afiada por trás. “Ava, mande os rascunhos amanhã. Eu vou revisar.”
“Mas a gente ainda tem—”
“Mande”, ele disse de novo, definitivo dessa vez.
Damien se levantou, ajeitando o punho da camisa como se nada tivesse acontecido.
Eu permaneci sentada mais um instante, enquanto as pessoas começaram a sair — rindo, agradecendo, elogiando a comida, as fotos, a narrativa que tínhamos servido a elas.
Mas tudo em que eu conseguia pensar era naquele olhar no rosto dele.
Aquela estranha rigidez.
Aquela reação de um piscar de olhos.
Aquilo significava alguma coisa. Eu não sabia o quê, mas não era nada.
E não era sobre mim.
Guardei o pensamento, como um fósforo deixado sem riscar, e me levantei para seguir o homem com quem eu ia me casar.
