Capítulo 3 3
Olívia
— Quando vai arrumar um emprego? — Kim inquire agora mais baixo e com um tom frustrado.
— Na próxima semana começo a procurar um. — Ela abre outro sorriso, esse esperançoso.
— Tá! Eu te amo, Olívia!
— Também te amo, Kim! Boa noite!
— Boa noite!
Sair de casa para ir atrás de emprego será mais um desafio para mim, pois é incrível como o meu pai exerce grande influência sobre as pessoas aqui do bairro, principalmente os comerciantes. Então, se tiver de arrumar algo que valha a pena terei que procurar fora desse lugar.
Mas como farei isso? Será um problema.
Eu preciso encontrar o momento certo para sair de casa e voltar antes que eles percebam a minha ausência em casa. Ou seja, terei poucas horas para me dedicar a procurar um bom emprego e quando conseguir, terei que procurar um lugar para morar.
Contudo, o desafio maior virá quando eu realmente conseguir algo para fazer e será nesse momento que comprarei uma briga séria com eles.
Inquieta com os meus pensamentos saio da cama e me sento na pequena e envelhecida poltrona perto da janela. Lá fora o bairro ainda está acordado, mas parte do comércio começa a se fechar. Bufo quando penso que apenas a nossa família dorme junto com as galinhas, quando alguns jovens da minha idade fazem coisas de jovens da minha idade. Sem ter muito o que fazer, pego o velho celular que a minha tia Olívian me deu escondida dos meus pais antes de partir e decido praticar um pouco de francês.
Um mês depois...
Não é possível que o destino queira me maltratar tanto assim, pois estou à beira de um colapso só de pensar em me aventurar por esse bairro em busca de algo que me ajude a conquistar os meus objetivos e por mais que eu implore por uma mísera vaga de emprego, ela me é negada ou me oferecem uma ninharia pelo meu trabalho.
Eu não me esforcei por tantos meses, arriscando ser severamente castigada para ser explorada por esse sanguessugas.
— Meu Deus, Olívia, você demorou dessa vez! — Kim reclama nitidamente nervosa assim que entro em casa, mas estou desanimada demais para rebater.
— Eles ainda não chegaram? — Livro-me dos meus sapatos e os seguro com dois dedos. Em resposta ela faz um não para mim.
— Vá para o quarto e troque de roupa antes que eles passem por aquela porta.
— Tá, prometo que serei rápida! — digo, porém, antes de correr para as escadas beijo o seu rosto e lhe agradeço. — Obrigada por me cobrir, sei que ficou sobrecarregada com a minha parte nas tarefas de casa.
— Só, vá se trocar antes que ponha nós duas em apuros.
— Eu te amo! — sibilo e faço o que me pede.
Em três dias Kim fará vinte e um anos e se eu realmente conseguir algo que nos garanta um lugar confortável para ficar e o nosso sustento, ela virá morar comigo.
Assim que entro no quarto, livro-me das minhas roupas e rapidamente ponho outra mais simples e comportada. Contudo, ao caminhar apressada para a porta a minha cabeça dá um leve giro e eu me apoio em uma parede, puxando lentamente a respiração, sentindo as batidas do meu coração descompassar.
— Por Deus, Olívia, você quer me castigar?! — Kim adentra o quarto completamente esbaforida. Entretanto, o mal-estar parece me absorver e eu corro imediatamente para o banheiro. — O que foi? O que há de errado com você? — Ela inquire vindo atrás de mim. No entanto, não tenho tempo para responder, pois logo me prosto diante do vaso sanitário e simulo um vômito que não vem, a final, estou de estômago vazio. — Você está gelada, Olívia! — Kim parece bem preocupada.
— Eu não entendo o que está acontecendo comigo — digo com um pouco de dificuldade, quando mais uma ânsia vem subindo pela minha garganta.
— Céus, você está doente, irmã? — faço não com a cabeça e respiro fundo algumas vezes, na esperança de que essa agonia passe logo.
— Me ajude a ir para a cama, Kim — peço lhe estendendo a minha mão. Minha irmã, me ajuda a ficar de pé e na sequência ela envolve a minha cintura e me leva para me deitar um pouco.
— Eu vou chamar a mamãe! — Ela pensa em se afastar, porém, seguro na sua mão e ela me olha aturdida.
— Não precisa, Kim, já está passando.
— Você tem certeza? — Faço um sim, sentando-me no colchão e respiro fundo, sentindo o calor voltar a aquecer o meu corpo gradualmente.
Não demora para estarmos descendo as escadas com cuidado para irmos à cozinha, onde mamãe me recebe de cara fechada e o meu pai olha de mim para Kim com um olhar repreensível.
— Por que demoraram tanto? — Ela ruge irritada. Kim balbucia sem saber o que dizer e eu resolvo falar a verdade.
— Me desculpe, mamãe e papai, eu não estava me sentindo bem e a Kim ficou para me ajudar.
— O que você tem, está doente? — Imediatamente a Senhora Martin se levanta da sua cadeira para levar uma mão a minha testa, verificando a minha temperatura.
— Eu não estou doente, foi só um mal-estar.
— Sente-se, venham tomar café da manhã e coma bem, Olívia. Quero que fique bem forte, a final, para se casar com um homem como o Edie você precisa ter forças para agradá-lo. — Praticamente me engasgo com o café quando escuto essa sandice.
— Que história é essa de casamento? — Olho para a minha mãe e depois para o meu pai.
— O Senhor Durand virá nesse final de semana com a sua família aqui em casa para pedir a sua mão, filha.
— Eu não quero! Eu não vou me casar nem com ele e nem com ninguém! — rebato baixo, porém, impulsiva.
— Você não tem de querer, Olívia. O mundo não está fácil e dê-se por feliz por encontrarmos um bom homem para cuidar de você. — Irritada com essa conversa me ponho de pé e fito os dois.
— Eu não preciso que cuidem de mim! — rosno entre dentes.
— Sente-se ai, garota insolente! — Papai ordena quando penso em me retirar e bufando por dentro o obedeço. — Escute bem o que vou lhe dizer, Olívia. Eu sou o seu pai e enquanto viver debaixo do meu teto, você fará tudo como eu bem quiser. E quando a família Duran entrar nessa casa quero que a receba com sorrisos, e que sirva o seu futuro marido com muito amor, entendeu bem?! — Apenas trinco o maxilar e engulo o choro.
— Eu posso ir para o meu quarto agora? — retruco segurando uma malcriação e ele faz um gesto desdenhoso me liberando. Saio do cômodo com passos largos e corro pelos batentes da escadaria, direto para dentro do meu quarto.
