Capítulo 6 6

Athos

— Senhor Mazza, aqui está a tradução do documento que pediu — avisa Barbara, minha assistente, assim que entra na minha sala.

Contudo, faço um gesto pedindo-lhe que espere um pouco e continuo falando no telefone.

— Senhor Eron, essa cláusula não existe no nosso contrato. Você não pode me cobrar, porque não tem esse direito.

— Athos, eu exijo uma retratação imediatamente!

— Eu não vou me retratar de nada, porque o erro não foi meu!

— Que droga, Athos!

— Eron, faça o seguinte: peça para o seu advogado lhe explicar detalhadamente essa situação. Eu não tenho tempo para ensinar um leigo idiota como você.

— Ora, seu… não ouse…

— Já chega, Eron! Se quiser, fique à vontade para me processar, mas eu garanto que, se fizer isso, posso tirar tudo de você, até mesmo as suas calças, se assim desejar. Pense bem, Eron!

Bufo irritado e encerro a ligação. Após soltar uma respiração audível, fito a minha secretária, que me olha um tanto apreensiva. No entanto, pego o papel que ela acabara de colocar em cima da minha mesa e começo a ler. O meu olhar rígido a encara com dureza em seguida e, no ato, amasso o documento bem diante dos seus olhos.

— Chama essa droga de tradução? — rosno entre dentes.

Ela balbucia, nitidamente nervosa.

— Demita a idiota que fez essa porcaria de trabalho!

— Mas, senhor Mazza…

— Estou indo para uma reunião agora, Barbara. Encontre uma pessoa adequada para esse cargo, alguém com capacidade de fazer isso direito — interrompo-a e saio logo em seguida do escritório.

No corredor observo um pequeno tumulto em um canto: uma jovem está sendo confortada por seus companheiros de trabalho. Paro, olhando-os com repreensão.

— O que pensam que estão fazendo?

Eles me fitam com uma apreensão palpável.

— Vocês não têm um trabalho para fazer aqui? — rosno, e imediatamente eles se espalham.

Contudo, a garota continua lá, parada, me olhando. Ao dar alguns passos em sua direção, ela resfolega algumas vezes.

— Imagino que foi você quem fez aquela tradução?

Em resposta, ela engole em seco.

— Lágrimas não consertam os seus erros, menina. Sugiro que estude mais para se qualificar para uma empresa de grande porte como essa. Eu não quero vê-la aqui quando voltar, entendeu?

Após deixar bem clara a minha posição, deixo-a para trás e entro no elevador, olhando para o relógio no meu pulso. Reger um escritório de advocacia renomado como o Mazza Law & Order não é algo tão fácil como se imagina. Acredite: eu não cheguei até aqui levando tapinhas amigáveis nos ombros ou ouvindo dos empresários o quanto sou bom no que faço. É preciso exigir a ordem e a disciplina, mas principalmente a competência para nos mantermos no topo. E isso tem acontecido desde que assumi a presidência, logo após a morte do meu pai. Desde então assumi todos os seus afazeres, inclusive o sustento da nossa família.

— Mazza! — Felipe Bragança diz antes que as portas se fechem, adentrando o pequeno e apertado cômodo.

— Felipe! — o cumprimento de maneira formal e encaro os números no painel.

— Espero que esteja pronto para aceitar a nossa proposta. Essa será a nossa última oferta.

— Você me conhece bem, Bragança. Não sou homem de aceitar acordos.

— Athos, você não tem outra saída.

— Eu sempre encontro uma. Aconselho falar para o seu cliente preparar os bolsos, porque eu não hesitarei em arrancar um valor acima do que ele usurpou da minha cliente — rosno e saio assim que as portas voltam a se abrir.

— Mazza, por favor…

— Não tem “por favor”, Bragança!

Entro no meu carro e ponho a pasta ao meu lado.

— Para o fórum, Roger! — ordeno ao meu motorista.


Logo mais à noite…

— Olha o cara aí! — escuto Romão dizer assim que entro no bar, fazendo os rapazes se animarem.

Não sou o tipo de homem que faz muitos amigos, mas os poucos que tenho confio a minha vida a eles. O Romão, por exemplo, é um grande amigo de infância. Ele conhece os meus segredos e sabe da minha história. Já o Enrico conheci na faculdade de Direito e, desde que nos formamos, ele trabalha para mim. Para esse eu reservo os meus problemas de trabalho e costumo ouvir os seus conselhos. E tem o Andreas: esse é um amigo de todas as farras que costuma me levar para o mal caminho.

— Como vocês estão?

Como veem, é só quando estou com eles que me sinto descontraído e relaxado.

— Eu falo por mim quando digo que estou a fim de pegar uma certa morena — Andreas fala um tanto debochado, erguendo o copo para um brinde mudo a uma linda e exuberante estranha sentada no banco alto do outro lado do salão.

Rio da sua pretensão e faço um sinal para o barman trazer uma bebida para mim.

— E aí, como estão as coisas? — Romão questiona assim que me acomodo no banco ao seu lado.

Contudo, dou de ombros e bebo um pouco da minha bebida.

— Você sabe, nada nunca muda — resmungo com descaso e esvazio o copo, pedindo outro em seguida.

— Você precisa se perdoar, Athos…

— Não me venha com essa de novo, Romão. E essa não é uma noite para desabafos, certo? Você vai se casar, meu amigo!

Ele abre um sorriso largo e aproveito para abraçá-lo com direito a tapinhas nas costas.

— Meus parabéns!

— Obrigado! Nesse caso, VAMOS BEBER TODAS!!! — ele grita, agitando a todos dentro do bar.

Era exatamente disso que eu estava precisando. Uma noitada com muita bebida e algumas mulheres. Mas essa última parte irei dispensar. Sério, com um certo dia se aproximando, a minha cabeça está cheia de pensamentos que eu queria jogar no fogo e simplesmente assisti-los virarem cinzas. Portanto, após acomodarmo-nos em uma mesa, apenas observo os meus amigos se deleitarem nos braços das garotas enquanto encho a cara. Afinal, quando voltar para casa depois disso, quero simplesmente cair na minha cama e apagar sem ter tempo de sonhar.


No dia seguinte…

— Bom dia, senhor Mazza!

— Bom dia! Barbara, pode me trazer um comprimido para dor de cabeça e um pouco de água?

— Claro, senhor Mazza!

Dou-lhe as costas, acomodando-me na minha cadeira, e massageio as têmporas. No mesmo minuto o meu telefone começa a tocar e o nome Andreas surge na tela.

— Aqui está, senhor Mazza.

Barbara me estende um copo e um comprimido assim que seguro o aparelho. Engulo o remédio e a dispenso em seguida.

— Fala, Andreas!

— Preciso da sua ajuda!

— Como assim? O que houve?

— Aquela vadia roubou todo o meu dinheiro e agora não tenho como pagar a droga do quarto de hotel.

Inevitavelmente começo a rir.

— Você dormiu com ela?! — o repreendo com um certo humor negro, e ele bufa do outro lado da linha. — Quais são as regras para noites como essas, senhor Rocha?

— Ah, vai se foder, senhor fodão! Vai me ajudar ou não?

— Talvez!

— Athos Mazza, não se atreva a me deixar na mão!

— Tenho uma reunião em poucos minutos, Andreas, mas mandarei alguém aí te socorrer.

— Muito obrigado, eu fico te devendo essa!

— Só não durma da próxima vez! — ralho um tanto irritado.

— Pode deixar, papai! — ele rebate debochado, e eu reviro os olhos.

— Idiota!

— Senhor Mazza, aqui estão os arquivos que pediu para separar para a reunião.

— Ótimo, Barbara!

— As novas traduções já estão prontas e a nova estagiária está aguardando pela sua entrevista.

— Certo. Avise-a que irei recebê-la após a reunião. Eu preciso ir.

— Sim, senhor!

Reúno a documentação e saio imediatamente para a reunião em uma sala no quinto andar do prédio. Uma secretária nova. Nunca foi tão difícil encontrar a pessoa adequada para trabalhar comigo. Na verdade, a Barbara seria suficiente para esse serviço, mas o fato de estar se formando em Direito por esses dias lhe dará um cargo que faz jus ao seu diploma. Uma garota bonita, esforçada e inteligente. Definitivamente essa transição não será nada fácil e, até encontrar outra aluna aplicada como ela, a sugestão de uma secretária me pareceu bem atraente.

— Ah, Barbara, peça para o meu motorista levar o meu cartão para o senhor Rocha no hotel Royal.

— Claro, senhor Mazza.

Ela sai da minha sala e, assim que eu saio, sinto um forte impacto que me faz derrubar as pastas. Uma ardência incômoda no meu abdômen me faz olhar na mesma direção.

— Mas o que… — rosno irritado, encarando a mancha de café quente na minha camisa branca.

No mesmo instante ergo o meu olhar furioso, encontrando um par de olhos castanhos fitando a mesma mancha com extrema surpresa.

— Quem é você?!

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