Capítulo 7 7
Olívia
— Está bem. — É tudo que digo após secar as lágrimas e entrar no banheiro.
Tia Ju tinha razão. Um banho morno deixou o meu corpo molenga e agora a sonolência estava prestes a me afundar no mundo dos sonhos... isso, ou ela pôs algo no meu chá. Minutos depois, estávamos na varanda no mais completo silêncio tomando um café da manhã tardio, já que são quase onze do dia.
O silêncio me fez pensar no estranho que virou a minha vida de cabeça para baixo e rio debochadamente de mim quando penso o quanto fui uma burra.
Logo na primeira vez, Olívia?
Isso tudo é uma droga!
— Olívia, acorde querida! — A voz de tia Ju me embala e eu me forço a abrir uma brecha de olhos, encarando um céu alaranjado através das largas janelas de vidros transparentes. — Você precisa ir.
— O que?
— Seu pai me ligou e ele está vindo para cá. — Atordoada, me sento no colchão e esfrego os olhos. — Minha amiga já está aqui e eu quero que vá com ela.
— Mas, agora? — Ela segura na minha mão e me guia para fora da cama.
— Não quero que se preocupe com dinheiro, está bem? Eu vou cuidar de tudo. Você vai ficar bem. Venha, quero que conheça alguém especial antes de ir. — Ela diz assim que chegamos ao topo da escadaria e eu fito duas mulheres no centro da enorme sala de visitas, e uma delas está segurando a minha bolsa. — Essa é a Lara, ela é a minha esposa. — Não consigo evitar a minha surpresa.
Esposa?
— Foi por causa dela que o seu pai me pôs para fora de casa.
— Eu não... sabia.
— É claro que não. Ele jamais assumiria que tem uma irmã lésbica. Aquele preconceituoso dos infernos abominaria o mundo se fosse preciso. Naquela cabeça doentia apenas ele é perfeito e a louca da sua mãe não ajuda muito.
— É um prazer conhecê-la, Olivia. A sua tia falou muito de você e de sua irmã ao longo desses anos.
— O prazer é meu, Lara! — digo, abraçando-a fortemente.
— E essa é a Anne, a amiga de que te falei mais cedo. Você vai ficar na casa dela até que o bebê nasça e após isso, faremos o que você quiser.
— Prazer, Anne!
Não demora para nos despedirmos e logo estamos na estrada.
Ainda no começo da nossa viagem a noite cai e eu olho pela janela, mas não dá para ver nada lá fora, então os meus pensamentos voltam a me assombrar, mas dessa vez sem lágrimas. Preciso ser forte agora por nós dois. O meu filho precisa de mim e eu tenho que cuidar dele.
O que me conforta é que temos onde ficar agora e com um tempo tudo vai se ajeitar.
... Eu vou te buscar, Kim. Posso demorar um pouco, mas eu vou te buscar.
— Na nossa cidade tem apenas um hospital. — Anne comenta me tirando dos meus devaneios. — Mas não se preocupe, a minha mãe é uma parteira de mão cheia e ela sabe cuidar muito bem das grávidas.
Parteira? Céus, onde estou me metendo?
— A Olívian me disse que fez um curso de secretária.
— Eu fiz.
— Temos ótimas empresas por lá e quem sabe depois que o bebê nascer, você possa realizar o seu sonho?
— Isso seria perfeito, Anne!
— Conheço algumas pessoas que podem nos ajudar com isso, mas quero que saiba que tanto a Olívian quanto eu queremos dar a você e ao seu bebê todo conforto que precisar. — Não comento sobre o que acabou de falar, pois a minha cabeça está girando o tempo todo.
De certo que não mudarei os meus planos e com certeza não permitirei que mais ninguém dite os meus passos ou os meus pensamentos. Após o nascimento do meu bebê darei sim, um tempo para enfim ir trabalhar.
Nossos planos não mudaram, Kim, eles só foram adiados. Digo em pensamentos e volto a olhar para o lado de fora do veículo.
