Capítulo 1
— Obrigada — disse Ivy ao aceitar as notas de dólar amassadas da mulher parada à porta.
— Você precisa que eu venha amanhã? — perguntou, esperançosa.
— Eu te aviso — respondeu a mulher, azeda, antes de entrar de volta no apartamento e bater a porta com força.
— Esquisita — murmurou Ivy, indo embora.
Ivy Wesley tinha aprendido três coisas da pior maneira: não confiar em ninguém, sorrir só quando fosse necessário e dormir sempre com um olho aberto.
Ela se movia como uma sombra pelas calçadas rachadas de South Haven, o brilho fraco dos postes projetando sua silhueta em formas irregulares contra os muros de tijolo cobertos de grafite. Dobrou o dinheiro na mão e enfiou no casaco. Era o pagamento pelo meio período como babá. A mãe não tinha sorrido nem uma vez e, como sempre, pagara com notas de cinco amarrotadas.
Ivy não se importava. Era dinheiro, e dinheiro era liberdade. Pelo menos era isso que ela continuava dizendo a si mesma.
Ela enfiou o dinheiro bem no fundo do bolso da jaqueta jeans surrada e apertou o passo. Suas botas — pretas, gastas e dois números maiores do que o ideal — esmagavam o cascalho enquanto ela atravessava um beco estreito, com o cheiro familiar de gordura frita e lixo vindo de uma lanchonete próxima.
Casa, se é que dava para chamar aquilo assim, ficava a três quilômetros dali, num parque de trailers. Era um apartamento dividido, com papel de parede descascando, persianas quebradas e um aquecedor que fazia barulho, mas não funcionava. O quarto dela tinha o tamanho de uma cela de prisão e era pintado numa cor que tentava ser bege, mas fracassava.
O vento atravessou sua jaqueta como uma lâmina, fazendo-a estremecer. Por um instante, ela pensou em passar no Bobby’s Deli para pegar um copo de água quente. Conhecia o cara que trabalhava no turno da noite, mas o celular vibrou no bolso.
Número desconhecido.
Ivy parou sob a marquise de um estúdio de tatuagem fechado e atendeu sem pensar.
— Alô?
A voz de uma mulher, suave e profissional, respondeu:
— Oi. Ivy Wesley?
Ivy ficou imediatamente na defensiva.
— Quem quer saber?
— Conseguimos seu contato em um banco de dados de freelancers. Você está disponível para um trabalho de curto prazo?
— Talvez — respondeu Ivy, cautelosa. — Que tipo de trabalho?
— Há um evento privado amanhã à noite, em um local de alto padrão. Você receberá apenas por comparecer. Serão só três horas, e o pagamento será de quinhentos dólares em dinheiro.
Ivy piscou.
— Repete isso?
— Quinhentos — repetiu a voz, calmamente. — O transporte será providenciado. Tudo o que você precisa fazer é aparecer, seguir as instruções e se comportar adequadamente. É uma espécie de audição. Você será avaliada junto com outras candidatas. Não há obrigação nenhuma, a menos que seja selecionada.
— Que tipo de audição? — perguntou Ivy.
Houve uma pausa.
— Digamos apenas que... a compatibilidade social está sendo testada — disse a mulher, vagamente. — É algo exclusivo. Discrição é necessária.
Ivy lançou um olhar para a rua, observando um homem empurrar um carrinho de compras cheio de latas vazias. Seu estômago se revirou. Suspeito nem começava a descrever aquilo, mas, por outro lado, suspeito era praticamente seu nome do meio. E quinhentos dólares podiam fazer muita coisa por ela.
— Me manda o endereço por mensagem — disse ela, por fim.
A voz do outro lado soltou um breve som satisfeito.
— Você receberá um pacote em breve. Ele incluirá seu figurino, instruções e um acordo de confidencialidade. Assine, apareça e seja pontual.
Então a ligação caiu.
No dia seguinte, o pacote chegou ao meio-dia em um carro preto sem identificação. O motorista não falou. Apenas entregou a Ivy uma caixa fina e foi embora sem dizer uma palavra.
Ela levou a caixa para a cozinha compartilhada da casinha, ignorando as sobrancelhas erguidas de seus dois colegas de apartamento, com quem raramente falava.
Dentro da caixa havia: um vestido preto de coquetel, elegante e decotado, com uma fenda na coxa. Saltos altos que pareciam pertencer a alguém que não andava muito. E um bilhete.
Ivy o abriu e leu o conteúdo: "Você foi selecionada para consideração. Esteja no endereço a seguir às 19h em ponto. Fique calada. Seja vista. Nem uma palavra a ninguém."
Debaixo daquilo, havia um segundo envelope, este mais fino, com um simples acordo de confidencialidade. Ivy o leu duas vezes. Era legal, vinculante. Também não explicava muita coisa. Mesmo assim, ela assinou.
Às seis, Ivy já tinha se espremido dentro do vestido e passado a chapinha no cabelo ruivo, na altura dos ombros. Ela se maquiou na medida certa para parecer arrumada, mas não tanto a ponto de parecer que estava se esforçando demais.
Ela não tinha perfume, então usou loção de coco de um kit de amostras grátis. Os saltos eram um território desconhecido, mas ela conseguiria aguentar três horas. Provavelmente.
Às 6h30, o mesmo carro preto encostou. Dessa vez, o motorista abriu a porta para ela. Ivy entrou sem dizer uma palavra.
A mansão parecia saída da capa de uma revista de luxo e estilo de vida. Alvenaria em estilo toscano, portões de ferro forjado e hera se enrolando em colunas de mármore. Tochas, tochas de verdade, alinhavam a entrada, e o ar tinha um leve aroma de cítricos e sândalo. Música clássica flutuava por alto-falantes escondidos atrás de sebes floridas.
Ivy desceu do carro, segurando uma pequena bolsa de mão com apenas o celular dentro. Outras mulheres estavam chegando, cada uma mais glamourosa que a anterior. Pernas longas, cabelos brilhantes e vestidos de grife que gritavam dinheiro.
Ivy não sabia se ria ou se ficava impressionada. Elas foram conduzidas por portas duplas em arco até um grande foyer de mármore. Lustres de cristal cintilavam acima. Uma escadaria dupla subia em curva até as sombras. Tudo reluzia como se nunca tivesse sido tocado por mãos humanas.
Cerca de trinta mulheres estavam no salão agora. Ivy pairava perto do fundo, observando. Algumas pareciam nervosas. Outras já cochichavam entre si, comparando impressões. Uma loira alta de salto vermelho praticava o sorriso diante de um espelho.
Então um homem apareceu. Ivy presumiu que fosse o mordomo. Ele tinha cabelos grisalhos, um rosto que parecia esculpido em pedra e uma voz suave como seda.
— Senhoras — ele começou —, obrigada por terem vindo. Vocês foram selecionadas por sua aparência, postura e potencial de compatibilidade. Esta noite não é uma entrevista de emprego. Esta é uma oportunidade de mudar a vida de vocês.
O salão caiu em silêncio.
— Vocês serão avaliadas pela elegância, discrição e pela forma como se portam sob pressão — continuou o mordomo. — O cavalheiro que recebe esta noite é um homem de riqueza e influência consideráveis. Se ele escolher uma de vocês, será oferecido casamento. Nada menos.
Ivy sentiu as palavras casamento e riqueza se chocarem na cabeça dela como bolas de bilhar. Ela não pertencia àquele lugar. Mas ficou.
— Cada uma de vocês será entrevistada. Nenhum nome será trocado esta noite. Não façam perguntas. Não falem a menos que falem com vocês. Se isso não é para você, agora é a hora de ir embora.
Algumas mulheres se remexeram, nervosas. Uma, depois duas, se viraram e saíram pelas portas da frente.
Ivy ficou parada. Não porque estivesse convencida, mas porque estava curiosa. E desesperada.
Ela não tinha vindo ali para encontrar o amor. Não acreditava em contos de fadas. Mas quinhentos dólares naquela noite, e talvez mais depois disso, poderiam tirá-la daquela cidade. Talvez até daquela vida.
Uma prancheta passou de mão em mão. Cada mulher assinou seu nome. Sem perguntas. Ivy hesitou por apenas um segundo antes de rabiscar o dela em tinta preta.
Elas foram separadas em grupos menores e levadas por diferentes alas da mansão. O grupo de Ivy acabou em um salão iluminado por velas, onde um homem de terno preto oferecia champanhe. Ela recusou.
Em vez disso, percorreu o ambiente com os olhos, notando os detalhes. Câmeras, espelhos, vasos que ela provavelmente conseguiria vender por milhares. Havia dinheiro ali — dinheiro de verdade. Dinheiro antigo. Não apenas carros chamativos e relógios de diamante.
— Senhorita Wesley — o mordomo reapareceu, acenando para que ela o seguisse até uma porta lateral. — Estão esperando por você na ala oeste.
Com o coração disparado, Ivy o seguiu sem dizer uma palavra.
