Capítulo 2
Ivy seguiu o mordomo por um corredor forrado de pinturas a óleo, passando por portas que pareciam mais antigas do que o próprio prédio, até chegarem a um escritório com poltronas de couro e uma lareira crepitante.
Um único homem estava sentado lá dentro, de costas para ela, encarando as chamas. Ele não se virou.
— Sente-se — disse o mordomo.
Ivy se sentou. O mordomo saiu e fechou a porta suavemente atrás de si. No escritório, o silêncio se prolongou.
Então, finalmente, o homem falou. Sua voz era baixa, suave e controlada.
— Você viveu em oito cidades diferentes em dez anos. Nenhum registro dos seus pais. Vários empregos. Nenhuma formação além do ensino médio.
Ivy enrijeceu.
— Você é engenhosa — ele continuou. — Imprevisível. E difícil de rastrear.
Ele se virou, e Ivy prendeu a respiração.
O homem era jovem. Devia ter pouco mais de trinta anos. Tinha cabelo escuro, perfeitamente cortado. Pele oliva, maxilar bem marcado e olhos como obsidiana — frios e indecifráveis.
Lorenzo Martinelli.
Ivy nunca o tinha conhecido antes, mas já tinha visto seu rosto algumas vezes em sites de fofoca. O bilionário que ninguém jamais via em pessoa. O homem intocável e perigoso com supostas ligações com a Máfia. E agora, ao que parecia, entrevistando possíveis esposas como se fossem candidatas a uma coroa.
— Por que você veio? — ele perguntou.
Ivy sustentou o olhar dele sem piscar.
— Curiosidade. E quinhentos dólares.
Ele sorriu — quase nada.
— Honesta. Isso é raro — disse ele. — Gosto disso.
Lorenzo se levantou, atravessando o cômodo com a confiança de alguém acostumado a ter o mundo aos seus pés.
— Eu não quero alguém que me queira — disse ele, parando a poucos centímetros dela. — Quero alguém que consiga sobreviver a mim.
Ivy sentiu literalmente o calor do fogo em seu rosto. Seu pulso martelava nos ouvidos.
— Você não me conhece — disse ela em voz baixa.
— Não — ele concordou. — Mas vou conhecer.
Ele se virou de novo.
— A taxa pela sua presença será entregue a você assim que sair daqui. Você será contatada amanhã.
E, assim, a entrevista acabou.
Lá fora, o vento tinha diminuído. Ivy entrou de novo no carro preto, com o coração disparado. Sua recompensa por participar daquela piada maluca já estava guardada dentro da sua bolsa de mão. Para ela, aquilo parecia uma fortuna.
Ela não sabia com o que tinha acabado de concordar, mas, pela primeira vez em anos, o futuro não parecia vazio. Parecia perigoso, e ela não tinha certeza se isso a assustava… ou a empolgava.
Na manhã seguinte, Ivy estava diante dos portões da propriedade Martinelli, sem saber se devia admirar o imponente desenho de ferro forjado ou sentir terror pelo que a esperava além deles. O sol mal tinha subido acima do horizonte, lançando longas sombras sobre a entrada de cascalho.
Seus tênis trituravam as pedras enquanto ela mudava o peso de um pé para o outro, nervosa. Aquilo era diferente de tudo em que ela já tinha se metido — e ela já tinha se metido em muita coisa maluca.
Ela tinha recebido uma mensagem às cinco da manhã, de um número desconhecido, dizendo para que voltasse à propriedade Martinelli. Um homem muito bem vestido saiu da guarita de segurança. O terno dele parecia custar mais do que todo o guarda-roupa dela.
— Nome? — ele perguntou sem erguer os olhos da prancheta.
— Ivy. Ivy Wesley.
Ele conferiu a lista, assentiu uma vez e apertou um botão no painel ao lado. Os portões se abriram com um gemido lento e sinistro.
— Siga pela entrada — instruiu o homem, em tom rude. — A casa fica à esquerda. Não saia do caminho. Há câmeras por toda parte.
Ela ofereceu um sorriso tenso e atravessou os portões, com o coração martelando como um tambor de guerra.
A propriedade era imensa. Era o tipo de lugar que gritava dinheiro antigo, sussurros de máfia e gerações de segredos. A mansão surgiu à vista; uma mistura de vila italiana com fortaleza moderna, com pilares de mármore, fontes e jardins aparados que pareciam perfeitos demais para serem de verdade.
Uma fila de mulheres já se aglomerava perto dos degraus da entrada. Todas estavam vestidas como se fossem a um tapete vermelho: salto alto, batom vermelho, cabelo impecável. Ivy engoliu em seco, de repente muito consciente do jeans gasto e da jaqueta de couro de segunda mão. Era a única que parecia ter chegado ali de ônibus.
— Quem deixou a faxineira entrar? — uma das garotas debochou, soltando uma risadinha.
Ivy ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada. Que rissem. Elas não sabiam da história dela. Ivy tinha sobrevivido a coisa demais para se deixar intimidar por batom e stilettos.
Antes que encontrasse um lugar para ficar, a porta da frente se abriu com um movimento teatral. Um homem no fim dos trinta saiu, ladeado por outros dois assistentes. Parecia um produtor de TV: cabelo penteado para trás com gel, sapatos caros e um tablet na mão.
— Senhoritas! — ele bateu palmas, com a voz retumbante. — Bem-vindas à Propriedade Martinelli. Meu nome é Victor. Vou conduzir o... processo de entrevistas de hoje.
— Entrevistas? — uma garota perguntou, ajeitando o decote.
— Sim. Hoje é menos uma festa e mais uma audição — disse Victor. — Vocês não estão aqui para fazer contatos. Não estão aqui para desfilar. Como foram informadas ontem à noite, vocês estão aqui para, possivelmente, se tornarem a esposa legal do Sr. Lorenzo Martinelli.
Um burburinho percorreu o grupo.
— O Sr. Martinelli é o CEO da Martinelli Enterprises, que administra uma rede de restaurantes de luxo pelo país e uma vinícola que produz os melhores vinhos e champanhes conhecidos pela humanidade — Victor continuou. — Ele é herdeiro de uma fortuna de bilhões de dólares — e, sim, os boatos são verdadeiros: ele é aquele Martinelli.
Ivy engoliu em seco, mas permaneceu calada. Não conseguiu evitar se perguntar por que um homem rico e bonito como Lorenzo Martinelli tinha recorrido a um método tão extremo para encontrar uma esposa.
— Eu sabia — sussurrou atrás de Ivy uma garota de batom vermelho. — Isso é a audição do cara da máfia.
Victor deu um meio sorriso.
— Sim, sim. Dá para ver a confusão. Mas fiquem tranquilas — trata-se de um acordo legítimo. Por tradição familiar, o Sr. Martinelli é obrigado a se casar nos próximos trinta dias. Em vez de passar por um cortejo típico, ele decidiu... acelerar as coisas.
O maxilar de Ivy se contraiu. Sim, ela precisava de dinheiro, mas não esperava acabar num episódio de The Bachelor: Edição Máfia. Por que diabos ela tinha voltado?
Mesmo antes de a pergunta terminar de se formar na cabeça, Ivy já sabia a resposta. Ela tinha voltado por mais. Muito mais do que quinhentos dólares.
— Vocês serão entrevistadas individualmente — continuou Victor. — Terão a chance de falar com o próprio homem — por pouco tempo — e, se forem selecionadas, haverá uma rodada final com a família.
— Isso é sequer legal? — alguém perguntou.
O sorriso de Victor se alargou.
— Perfeitamente. Todas as participantes vão assinar outro termo de confidencialidade ao fim deste processo. Se forem escolhidas, assinarão um acordo pré-nupcial e um contrato de casamento. O pagamento é generoso. A dispensa é discreta. Agora... se alguma de vocês preferir ir embora, o portão ainda está aberto.
Ivy olhou ao redor. Três garotas saíram da fila na mesma hora e foram embora. Outra revirou os olhos e se afastou, resmungando sobre gente rica e seus jogos malucos.
Ivy ficou. Não estava ali por amor. Nem sequer estava ali por aventura. Estava ali porque precisava de uma saída. Um futuro. Talvez até uma segunda chance.
Ela ergueu o queixo e murmurou:
— Vamos nessa.
