Capítulo 3

Por dentro, a mansão era ainda mais opulenta do que ela havia imaginado: lustres enormes, pisos tão polidos que dava para ver o próprio reflexo, e paredes revestidas de pinturas clássicas que pareciam ter séculos.

Uma fileira de cadeiras fora arrumada no grande salão, e as mulheres eram chamadas uma a uma para as entrevistas.

Ivy esperou. Prestou atenção às escondidas quando as outras voltaram; algumas com ar de superioridade, outras confusas. Uma garota estava até chorando.

— Próxima, Ivy Wesley — chamou uma assistente de cabelo loiro-platinado e sobrancelhas perfeitamente desenhadas.

Ivy se levantou, sacudiu a jaqueta e seguiu a mulher por um conjunto de portas de madeira entalhada até uma sala menor: um escritório com uma mesa de vidro, cadeiras de couro e janelas do chão ao teto que davam vista para a propriedade.

Victor estava sentado atrás da mesa. Ao lado dele havia outra mulher, uma loira curvilínea, com uma prancheta e uma expressão dura como aço.

— Esta é a Chloe — disse Victor. — Ela é a assistente pessoal do Sr. Martinelli.

Ivy assentiu.

— Prazer em conhecer você.

Chloe não disse nada; apenas a avaliou com olhos verdes e frios.

— Fale um pouco sobre você, Ivy — começou Victor.

Ivy forçou um sorriso.

— O que vocês querem saber? Tenho vinte e cinco anos. Cresci em Michigan. Saí de casa aos dezesseis. Desde então tenho feito bicos.

— Por que você saiu de casa? — Chloe perguntou, cortante.

Ivy hesitou.

— Não era seguro — disse por fim.

Chloe trocou um olhar com Victor.

Ivy cruzou os braços.

— Olha, eu não estou aqui pra contar uma história triste. Só estou tentando sair de uma vida que ficou presa no modo sobrevivência. Eu não tenho medo de gente rica, de segredos nem de drama. Eu sei me misturar, ficar quieta e me garantir.

Victor ergueu as sobrancelhas.

— Isso... foi inesperadamente honesto.

Ivy deu de ombros.

— Pra que mentir? Vocês vão desenterrar tudo numa checagem de antecedentes de qualquer jeito.

Os lábios de Chloe se curvaram num sorriso.

— Interessante.

Victor se inclinou para a frente.

— Mais uma pergunta. Se você for escolhida, este casamento vai vir com expectativas — aparições públicas, discrição e lealdade. Você não será livre para ir e vir quando quiser. Consegue lidar com isso?

Ivy pensou no apartamento mofado que dividia com duas colegas que fumavam sem parar. Pensou no emprego que perdera na semana passada porque o restaurante fechou. Pensou no silêncio da mãe. Nas mãos do padrasto. Nos hematomas que ninguém via.

Ela encarou Victor e disse:

— Eu já lidei com coisa pior.

Chloe se levantou.

— Obrigada, Ivy. Você será avisada em breve.

Horas se passaram. A maioria das mulheres já tinha ido embora. Só restavam quatro, incluindo Ivy. Ela estava sentada no canto, tomando pequenos goles de uma taça de champanhe que alguém havia lhe entregado, quando Victor voltou, sorrindo como se tivesse acabado de vencer um jogo.

— Senhoritas — anunciou —, o Sr. Martinelli tomou sua decisão.

Um silêncio tenso tomou conta do ambiente.

Ele se virou para Ivy e disse:

— Parabéns.

A boca dela se abriu.

— Espera... o quê?

— Você foi selecionada — Victor confirmou.

As outras mulheres prenderam o fôlego. Uma delas fez uma careta de desdém.

— Ela? Sério?

Victor as ignorou.

— Você será escoltada até uma suíte de hóspedes. Amanhã, a equipe jurídica vai passar as orientações. O casamento acontecerá dentro dos próximos cinco dias.

Ivy mal conseguia respirar. Aquilo era real. Ela ia se casar com um bilionário. Um homem com supostas ligações com a Máfia. Um homem que ela só tinha encontrado uma vez!

Antes que pudesse fazer outra pergunta, Chloe apareceu ao lado dela.

— Por aqui — disse, fria.

A suíte de hóspedes era três vezes maior do que o apartamento inteiro de Ivy. A cama era king size, e os lençóis eram de algodão egípcio. Um roupão estava estendido, pronto para ser usado.

Havia até uma cesta de produtos de banho de luxo com um bilhete escrito à mão: “Bem-vinda à família — temporariamente ou não. Sinta-se à vontade.”

Ivy se deixou cair na cama, encarando o teto. Em que diabos ela tinha se metido?

Ela mal teve tempo de processar quando a porta se abriu de novo.

— O Sr. Martinelli vai recebê-la agora — disse Chloe, da soleira.

Ivy se sentou, o coração disparado.

— Agora?

Chloe assentiu.

— É uma cortesia. Ele prefere conhecer a esposa antes do casamento.

Tá bom, pensou Ivy. Sem brincadeira.

Ela seguiu Chloe pela mansão, descendo por um corredor ladeado por retratos de família: homens de smoking, mulheres de vestido de gala, rostos de traços duros e olhos frios. Passaram por esculturas de pedra, impassíveis, que encaravam como se julgassem cada passo de Ivy.

Ela tinha crescido em lugares onde janelas quebradas eram normais e a polícia só aparecia quando alguém morria. Ali? O silêncio tinha a própria riqueza.

Chloe parou diante de um par de portas duplas e disse:

— Ele está esperando.

Ivy hesitou, então entrou.

Lorenzo Martinelli estava sentado atrás de uma mesa de mogno. Ele se levantou quando a viu, abotoando o paletó do terno. Era mais alto do que ela se lembrava, com ombros largos, maxilar quadrado e olhos escuros que brilhavam na luz quente.

— Você é a Ivy, certo? — perguntou ele.

— E você é o cara que acabou de cometer o maior erro da vida — ela retrucou, tentando disfarçar o nervosismo com sarcasmo.

Ele esboçou um sorriso.

— Acho sua sinceridade revigorante.

Ivy caminhou até ele, tentando não deixar as pernas tremerem.

— Por que eu?

— Você não fingiu ser perfeita — Lorenzo respondeu, direto. — Você já viveu uma vida dura. Não fez perguntas idiotas. E eu sempre preferi alguém com garra.

— Ótimo — disse Ivy. — Porque eu mordo.

O sorriso de Lorenzo se aprofundou.

Ivy cruzou os braços e perguntou:

— Então você sai por aí pedindo estranhos em casamento como se fosse uma transação comercial?

— Porque é — Lorenzo respondeu de imediato. — Isso não tem a ver com amor, Ivy. Tem a ver com influência. Aparências. Estratégia.

— E você me escolheu porque…? — ela perguntou, desconfiada.

— Você é inteligente — Lorenzo disse, simplesmente. — As outras não são. Você? Você me encarou e falou com ousadia. Esse tipo de coragem não é fácil de encontrar.

A boca de Ivy ficou seca.

— Isso não é um elogio. É um aviso.

— É os dois — Lorenzo garantiu.

Ele foi até a janela, as mãos nos bolsos, e disse:

— Meu mundo não é seguro. É feito de cantos afiados e portas seladas. Mas também é poder. Dinheiro. Segurança.

Ivy o observou.

— Você está me contando tudo isso como se eu não já conhecesse os boatos — disse ela.

Lorenzo voltou a encará-la.

— Boatos são fumaça. Eu sou fogo.

Lá estava de novo — aquele brilho de perigo por baixo do verniz. Ela devia ter virado as costas e ido embora. Em vez disso, Ivy deu um passo mais perto.

— Por que eu? — perguntou outra vez. — Por que não alguém do seu mundo?

— Porque alguém do meu mundo sabe demais — Lorenzo respondeu, franco. — Mas você? Você é nova. Um coringa.

— E o que eu ganho com isso? — Ivy quis saber.

Então Lorenzo olhou para ela — olhou de verdade.

— Mais dinheiro do que você já tocou na vida, um status respeitável na sociedade, conexões úteis. E, acima de tudo, proteção.

Ivy soltou uma risada curta e nervosa.

— Você está tentando me comprar?

— Estou oferecendo uma saída — disse Lorenzo. — Do canto da cidade onde você tem sobrevivido. Uma ficha limpa. A chance de se reinventar e escolher um futuro muito melhor do que qualquer coisa que você já imaginou.

O estômago dela se revirou. Ivy estava ao mesmo tempo seduzida e apavorada. A oferta de Lorenzo parecia boa demais para ser verdade.

Ele acompanhou a reação dela e sorriu de leve.

— Eu não faço ofertas duas vezes.

Ivy engoliu em seco, a mente em turbilhão. Considerou com cuidado o que Lorenzo estava oferecendo: riqueza, um casamento por conveniência, um novo status social. Era, de fato, uma proposta de cair o queixo. O que ela tinha a perder?

— O que acontece se eu disser que sim? — perguntou, cautelosa.

— Nós nos casamos na semana que vem — Lorenzo disse, suave. — Você se muda para lá. Você segue as regras. Sorri quando as câmeras estiverem ligadas. E faz o possível para se dar bem com a minha família.

— E se eu disser que não? — Ivy perguntou, hesitante.

Lorenzo deu de ombros.

— Você vai embora com um café chique e uma história em que ninguém vai acreditar.

Ivy encarou-o, ponderando a loucura. Aquilo não era uma comédia romântica; era real. Insano, arriscado e tentador.

Por fim, ela soltou o ar.

— Certo. Eu vou pensar.

Lorenzo assentiu.

— Você tem vinte e quatro horas — disse, frio.

Ivy se virou para sair, mas parou na porta.

— Só mais uma coisa, sr. Martinelli.

Ele inclinou a cabeça.

— Se eu fizer isso… eu não vou bancar a burra. Eu quero termos, proteções, limites — disse ela.

A boca de Lorenzo se curvou, só um pouco.

— Claro. Eu não esperaria nada menos, sra. Martinelli — respondeu.

Ivy não hesitou. Ela se virou de uma vez e saiu apressada do escritório antes que os joelhos falhassem.

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