Capítulo 4

A catedral erguia-se à frente, régia e antiga, aninhada num morro bem cuidado na extremidade mais distante da propriedade da família Martinelli. As paredes de pedra marfim eram acariciadas pela hera que subia, e os vitrais cintilavam como joias ocultas sob o sol da manhã.

O ar guardava uma quietude fria, como se o próprio mundo prendesse a respiração diante do que estava prestes a acontecer.

Ivy estava logo dentro das portas de madeira em arco, os dedos tremendo de leve enquanto segurava o delicado véu de renda preso ao elegante vestido marfim que haviam colocado nela. O vestido, escolhido por um dos estilistas pessoais de Lorenzo, caía como uma luva: o corpete justo e favorecedor, a silhueta sereia desaguando ao redor das pernas em ondas de seda e renda.

— Pronta, signorina? — Victor perguntou baixinho, com a mesma calma profissional que ela já esperava dele.

Vestido num terno cinza sob medida, ele parecia mais um padrinho do que um assistente. Ainda assim, seu olhar atento não deixava nada passar.

Ivy engoliu em seco e assentiu.

— Tão pronta quanto eu vou conseguir estar — disse, com coragem.

Victor esboçou um sorriso discreto e saiu de lado. As portas enormes se abriram com um rangido baixo, revelando o interior grandioso da catedral.

Os bancos estavam pouco ocupados por familiares e associados, a maioria dos quais Ivy nem sequer tinha sido apresentada. Ainda assim, ela sentia os olhares: mil julgamentos costurados em ternos de tecido fino e perfume caro.

Ela começou a caminhar pelo corredor central, acompanhada pelo crescendo de um único violino. Não havia madrinhas nem daminhas. Aquilo não era um casamento tradicional. Era negócio. Uma transação selada com votos e uma assinatura. Mesmo assim, Ivy manteve a cabeça erguida.

No altar estava Lorenzo, impecável num smoking preto, o cabelo escuro penteado para trás, a expressão indecifrável. Parecia ter saído de um editorial de moda: bonito, composto e distante. Ele não sorriu ao vê-la, mas também não fez cara feia. Ivy decidiu considerar isso uma vitória.

Quando ela se aproximou, um padre em vestes carmesim indicou que ela se colocasse ao lado de Lorenzo. A cerimônia começou imediatamente. Preces em latim ecoaram sob o teto alto, o cheiro de incenso pesado no ar. Ivy mal ouvia as palavras. A mente dela oscilava entre pânico e incredulidade.

Você está se casando com um homem que mal conhece, Ivy pensou. Está se casando com a Máfia. Esta é a sua vida agora.

Quando chegou a hora dos votos, a voz de Lorenzo era firme e fria.

— Eu, Lorenzo Antonio Martinelli, recebo você, Ivy Giselle Wesley, como minha esposa. Para honrar e proteger, enquanto ambos vivermos.

Ivy hesitou por um segundo antes de responder.

— Eu, Ivy Giselle Wesley, recebo você, Lorenzo Antonio Martinelli, como meu marido. Para estar ao seu lado, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe.

O padre abençoou as alianças e, com uma precisão mecânica, eles as trocaram. Quando ele os declarou marido e mulher, Lorenzo se inclinou e encostou um beijo educado na bochecha dela. Sem lábios. Sem calor. Apenas dever.

Os convidados aplaudiram, suave e contidamente. Parecia mais o encerramento de uma fusão empresarial do que o começo de um casamento.

Depois da cerimônia, Victor conduziu Ivy a uma salinha nos fundos da catedral, onde uma certidão de casamento aguardava sobre uma pesada mesa de mogno. Lorenzo já estava lá, assinando o documento final com uma caneta-tinteiro gravada.

Ele entregou a caneta para Ivy sem dizer uma palavra. Ela a pegou e assinou seu nome com traços cuidadosos: Ivy Wesley-Martinelli.

— Parabéns — disse Victor ao recolher os papéis. — Agora é oficial.

Ivy conseguiu assentir, embora o estômago estivesse todo embrulhado. Ela se virou para Lorenzo e perguntou:

— Então... e agora?

Ele olhou para ela, com os olhos frios e indecifráveis.

— Agora vamos enfrentar minha família.

Lorenzo desapareceu com Victor para atender uma ligação pouco depois das fotos do casamento. Ela ficou sozinha para encontrar o caminho até a sala de estar formal, onde o restante da família Martinelli aguardava para dar as boas-vindas à nova noiva.

Ou julgá-la.

— Por aqui, signora — disse uma das governantas, com um forte sotaque italiano, fazendo um gesto para um corredor ladeado por pinturas a óleo dos ancestrais Martinelli, todos igualmente intimidadores.

Ivy ajeitou a barra do vestido creme e a seguiu, ensaiando o sorriso em silêncio. Ela entrou no grande salão, um cômodo elegante banhado em tons dourados e mogno escuro, o tipo de lugar onde segredos sussurravam contra almofadas de veludo.

Olivia Martinelli estava sentada numa cadeira parecida com um trono no centro da sala, com o cabelo riscado de prata preso para trás com firmeza. Seus olhos de falcão observavam cada movimento de Ivy.

— Então — começou Olivia, com a voz tão seca e refinada quanto o vinho que levava o nome de sua família — esta é a mulher com quem meu filho se casou.

Ao lado dela, Isabella e Giulia estavam largadas como gatas prestes a dar o bote. Isabella usava um vestido verde-floresta que contrastava de propósito com o discreto conjunto creme de Brenda, enquanto Giulia enrolava uma mecha do cabelo loiro-descolorido entre os dedos longos e bem cuidados, com um sorrisinho puxando seus lábios.

— Bem-vinda à família — disse Giulia, arrastando as palavras.

— Obrigada — disse Ivy, forçando calor na voz. — É uma honra estar aqui.

Olivia não respondeu de imediato. Seus olhos se estreitaram, estudando Ivy como se ela fosse um vinho fino que não envelheceu o bastante.

— Onde estão os seus, Ivy? — perguntou Olivia, com as palavras carregadas de condescendência sutil.

O sorriso de Ivy se apertou.

— Vim sozinha. Não tenho família que pudesse comparecer.

— Que conveniente — murmurou Isabella, erguendo uma taça de cristal aos lábios.

— Algumas pessoas ficam melhor sem o peso do passado — respondeu Ivy com calma, sustentando o olhar da nova sogra.

Olivia se recostou, claramente intrigada.

— Você não se intimida com facilidade. Isso é bom. Esta família devora os fracos.

— Já enfrentei recepções piores e mulheres mais bonitas soltando indiretas — retrucou Ivy, arrancando um resmungo abafado de Giulia, que não esperava que a noiva soubesse morder de volta.

Nesse momento, Lorenzo entrou na sala com Victor vindo logo atrás. Os olhos dele percorreram o grupo e pousaram em Ivy, suavizando um pouco.

— Espero não ter perdido as calorosas boas-vindas.

Olivia se levantou.

— Uma palavra, Lorenzo — disse ela, seca.

Ele assentiu, pousando a mão com suavidade na parte baixa das costas de Ivy antes de seguir a mãe para uma sala ao lado. A porta se fechou atrás deles com um clique ominoso.

Giulia se aproximou mais de Ivy, ainda sorrindo com doçura.

— Você faz ideia de quantas mulheres tentaram se casar com meu irmão?

— O suficiente para você apresentar seu próprio reality show, imagino — respondeu Ivy, impassível.

Isabella soltou um muxoxo, e por um breve segundo a tensão se quebrou. Mas Giulia se recompôs rapidamente.

— Você não vai durar.

— Talvez não, mas vou aproveitar o percurso — respondeu Ivy, com ousadia.

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