Capítulo 6

A porta se abriu suavemente, e entrou uma mulher pequena, de cabelos grisalhos bem presos num coque. Ela usava um uniforme azul-marinho e um sorriso caloroso e ensaiado.

— Bom dia, senhora Martinelli. Sou Anna. Serei sua criada pessoal — disse ela, com um aceno respeitoso.

Senhora Martinelli. Ainda soava estranho.

— Oi, Anna — disse Ivy, oferecendo um sorriso hesitante. — Você não precisa me chamar assim. Ivy está bom.

O sorriso de Anna continuou profissional.

— Isso não é permitido, senhora. Preciso me referir à senhora pelo seu título.

— Ah, entendi — disse Ivy, em voz baixa.

— Preparei um banho para a senhora, e o café da manhã será servido em breve — disse Anna. — O senhor Martinelli já saiu para seus compromissos de hoje, mas me pediu para garantir que a senhora esteja confortável.

Ele saiu sem se despedir?

O rosto de Ivy vacilou por um segundo.

— Ele… disse aonde foi?

— Receio que não — respondeu Anna. — Ele raramente discute sua agenda com os funcionários.

Certo. Claro que não.

Ivy seguiu Anna até o banheiro ao lado, onde uma enorme banheira de mármore reluzia sob um lustre de cristal. Vapor subia da água, perfumada com pétalas de rosa e alguma erva aromática. Parecia uma cena de comercial de spa.

— Isso é… bonito — disse Ivy, aproximando-se.

Anna fez um pequeno gesto de cabeça.

— Gostaria que eu a ajudasse com alguma coisa?

Ivy balançou a cabeça depressa.

— Não, não. Eu dou conta.

Ela não estava acostumada com aquilo: ser mimada, ser servida. Aquilo lhe dava uma leve aflição na pele. Ivy sempre fez tudo sozinha. Pedir que alguém preparasse seu banho parecia quase trapacear na vida.

Anna pareceu perceber seu desconforto.

— Tome o tempo que precisar, senhora. Vou deixar sua roupa separada e esperar do lado de fora.

Ivy afundou na banheira assim que Anna saiu, deixando o calor envolvê-la. Fechou os olhos e soltou o ar devagar.

Tudo parecia surreal. A música jazz suave tocando por caixas de som escondidas, o fato de o banheiro ter piso aquecido, as toalhas com monograma mais macias do que qualquer travesseiro que ela já tivera.

Era o paraíso… mas não era seu lar.

Quando saiu, trinta minutos depois, Anna havia deixado separado um vestido amarelo-claro de grife, com delicadas mangas de renda. Ivy tocou o tecido como se ele pudesse desaparecer sob seus dedos. As etiquetas ainda estavam presas, provavelmente novinho em folha, escolhido para ela antes mesmo de chegar.

Ela se vestiu em silêncio e então deixou que Anna a conduzisse até o salão de jantar. O corredor era uma grandiosa vitrine de pisos polidos, arandelas douradas e retratos frios de homens de aparência severa, todos com o mesmo maxilar anguloso que Lorenzo herdara. Os olhos deles a seguiam enquanto ela passava.

— Todos eram homens da família Martinelli — disse Anna em voz baixa, percebendo o olhar de Ivy. — Antepassados do senhor Lorenzo. Poderosos, impiedosos, mas respeitados.

Ivy engoliu em seco. Isso não é nada reconfortante, pensou.

Esta sala de jantar era diferente daquela em que jantaram na noite anterior. Esta era enorme e formal, com uma longa mesa de vidro que acomodava trinta pessoas. Apenas seis lugares estavam postos, mas ainda assim parecia uma apresentação.

Por um breve segundo, Ivy brincou com a ideia de se virar e sair correndo da mansão, mas sabia que aquilo não era possível. Foi para isso que ela concordou. E agora era hora de enfrentar as consequências.

Quando Ivy e Anna se aproximaram, viram que três pessoas já estavam sentadas na sala de jantar.

Olivia estava na cabeceira da mesa, severa e impecavelmente vestida. Seus olhos penetrantes pareciam capazes de cortar aço.

Isabella era inconfundível em uma blusa creme, com a postura perfeita e a expressão indecifrável. Ao lado dela, um homem que parecia ter uns trinta e poucos anos estava largado na cadeira com um sorriso de canto, o blazer azul-marinho caído displicentemente de um ombro. Ele exalava arrogância.

Ivy não precisava de uma apresentação formal para saber quem ele era. Cumprimentou todos educadamente, mas mal recebeu qualquer reconhecimento.

Anna puxou uma cadeira para Ivy, e ela se sentou rigidamente no lugar reservado para ela, de frente para os sogros.

"Ivy, este é meu marido, Ken", disse Isabella, sem emoção, referindo-se ao homem largado na cadeira.

"Prazer", murmurou Ivy, fazendo um aceno de cabeça.

"Desculpe por ter perdido o casamento", disse Ken com um sorriso torto. "Eu tinha alguns assuntos muito importantes para resolver ontem. Embora eu tenha ouvido dizer que o evento foi bastante... espetacular."

Ivy não tinha certeza se precisava oferecer uma resposta educada a Ken, então permaneceu em silêncio. O sujeito era insuportável e a lembrava de seu padrasto viscoso.

"Mas devo dizer que o gosto de Lorenzo parece estar evoluindo", disse Ken com um sorriso malicioso, olhando para Ivy como se ela fosse um acessório novo.

Ivy arqueou uma sobrancelha. "Isso era para ser um elogio?"

Ken riu baixo e tomou um gole de café sem responder.

Isabella lançou a ele um olhar capaz de congelar água. "Ken", disse ela, com a voz doce, porém afiada.

"Só estou puxando conversa", ele disse, dando de ombros.

Um garçom apareceu com uma bandeja de prata e serviu um café da manhã completo: frutas frescas, croissants amanteigados e uma delicada quiche de espinafre.

Ivy nunca tinha comido algo tão sofisticado no café da manhã. Afinal, ela era do tipo cereal com café, e mesmo isso já era um esforço na maioria dos dias.

Ela percebeu que todos usavam guardanapos de pano e talheres minúsculos, cortando tudo em bocados perfeitos. Ivy fez o possível para imitá-los, mas conseguia sentir os olhos deles sobre ela. Julgando. Medindo.

"Então", começou Olivia, quebrando o silêncio, "quais são as suas intenções com o meu filho?"

Ivy quase se engasgou com o suco de laranja. "Como é?"

Olivia cruzou as mãos e continuou: "Esse arranjo aconteceu rápido demais. Você é uma estranha para nós, e ainda assim agora carrega o nosso nome. Quero entender qual é o seu propósito aqui. Como convenceu meu filho a escolher você entre todas as pessoas?"

Isabella suspirou, enxugando os lábios com um guardanapo. "Mãe, provavelmente deveríamos respeitar a decisão de Lorenzo."

"Eu não perguntei a Lorenzo. Perguntei a ela", retrucou Olivia.

Ivy endireitou os ombros, sustentando o olhar dela com firmeza. "Com todo o respeito, senhora, não estou aqui para provar nada a ninguém. Lorenzo e eu temos um entendimento. Isso diz respeito apenas a nós dois."

Olivia prendeu Ivy com um olhar duro. "Casamento é um compromisso sério, e espero que você tenha plena consciência disso. Ninguém nesta família vai tolerar qualquer tipo de desrespeito ou comportamento inadequado da sua parte. Ignorância não é uma desculpa aceitável. Fui clara?"

"Claríssima", respondeu Ivy, secamente.

Ken assobiou baixinho. "Temperamental. Gostei dela."

"Você sempre flerta com a cunhada no café da manhã?", perguntou Ivy docemente, inclinando a cabeça.

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