Capítulo 1 A traição
CAPÍTULO 1
MARIA VITTORIA BELLINI
Desci as escadas quase correndo, com o resultado dos meus exames em uma das mãos.
Eu precisava contar para Enzo.
Atravessei o jardim e segui para a casa dos fundos, onde alguns dos soldados do meu pai ficavam. Nosso relacionamento ainda era escondido, mas isso nunca tinha me impedido de procurá-lo quando sabia que estava sozinho.
E naquela manhã eu tinha uma boa notícia.
Pela primeira vez em muito tempo, meus exames mostravam uma melhora significativa.
Cheguei ao quarto de Enzo e estranhei encontrar a porta apenas encostada.
— Enzo?
Empurrei, mas parei no mesmo instante. Ele estava completamente nu sobre outra mulher.
Demorei alguns segundos para entender o que estava vendo. A mulher gemia agarrada ao pescoço dele enquanto Enzo se movia entre suas pernas.
No mesmo sofá onde eu tinha estado na noite anterior.
Meu estômago revirou.
Apertei o envelope com tanta força que amassei os papéis lá dentro.
Figlio di puttana.
O envelope caiu da minha mão. Enzo ouviu o barulho e virou o rosto.
— VITTORIA?!
Ele praticamente pulou do sofá.
— Como... como você veio parar aqui?
Olhei para ele, depois para a mulher tentando se cobrir.
— Essa é a sua preocupação?
— Vittoria, espera. Não é o que você está pensando.
Soltei uma risada sem humor.
— Então coloca a roupa e me explica como seu pênis foi parar dentro dela por acidente.
Ele tentou se aproximar.
— Não encosta em mim.
— Me escuta.
— FICA LONGE DE MIM!
Peguei o primeiro vaso que encontrei e joguei a água nos dois. Depois arremessei o vaso contra a parede. O vidro se espatifou.
— Vittoria!
Bati a porta e fui embora. Não queria explicação. Enzo podia inventar a desculpa que quisesse. Eu tinha visto o suficiente.
Atravessei o jardim e entrei em casa tentando controlar a respiração. Subi direto para o meu quarto, tranquei a porta e só então deixei as lágrimas caírem.
Chorei de raiva. Muito mais de raiva do que de tristeza. Talvez porque, no fundo, meu orgulho tivesse sido ferido muito mais do que meu coração.
Na noite anterior, aquele desgraçado estava me beijando no mesmo sofá. Tentou colocar as mãos por baixo da minha roupa e ainda ficou ofendido quando mandei parar.
Horas depois, estava com outra.
— Idiota.
Limpei as lágrimas com as costas da mão e fui até o espelho.
Meu rosto estava vermelho.
— Você não vai acabar comigo, Enzo.
Eu não permitiria.
Passei tempo demais tentando provar aos meus pais que minha saúde não precisava decidir toda a minha vida. Enzo tinha sido uma das poucas escolhas que fiz sozinha.
E olha que bela merda eu tinha escolhido.
Lavei o rosto, passei uma maquiagem leve e ajeitei os cabelos. Se Enzo esperava me encontrar chorando pelos cantos da casa, morreria esperando.
Pouco depois, fui até a janela e percebi uma movimentação diferente na propriedade.
Havia carros demais na entrada. Seguranças espalhados pelo jardim e vários homens perto da porta principal.
Reconheci Don Alessandro. Meu pai tinha ido recebê-lo pessoalmente e havia outro homem, de certa idade, com eles. Pela quantidade de seguranças ao redor, não devia ser qualquer um.
Vi Enzo entre os soldados. Ele olhou para a minha janela, mas fechei a cortina.
Que se dane.
Desci.
Meu pai sempre gostava que eu ajudasse quando recebíamos alguém importante. Fui até a cozinha, preparei uma bandeja com café e caminhei em direção ao escritório.
Estava chegando à porta quando ouvi:
— Os russos querem um novo acordo de paz.
Diminuí os passos.
Russos? Parei.
As vozes continuaram lá dentro. Não conseguia entender tudo, mas ouvi algumas palavras sobre acordo de casamento.
E então meu nome. Franzi a testa.
Por que diabos estavam falando de mim?
Aproximei-me um pouco mais. Foi quando ouvi o Don:
— Então está decidido. Vittoria será o acordo.
Meu sangue gelou.
O quê?
Segurar a bandeja com uma das mãos de repente pareceu impossível.
Eu? Que acordo?
Dei um passo para trás, tentando entender o que tinha acabado de ouvir, e bati contra alguém que vinha pelo corredor. A bandeja escapou das minhas mãos e tudo caiu.
Xícaras quebraram. Café se espalhou pelo chão.
— Costuma derrubar coisas em todo homem que encontra ou tive algum privilégio?
Olhei para a bagunça aos nossos pés, mas mantive a postura.
— Normalmente eles têm educação suficiente para desviar.
Olhei para cima. Muito para cima. O homem diante de mim era enorme. Alto, de ombros largos, cabelos naturalmente loiros e olhos azuis claros demais para a expressão fechada que carregava.
Por alguns segundos, fiquei olhando. Ele era absurdamente bonito. Pena que bastou abrir a boca para estragar boa parte do efeito.
— Quem é você? — perguntei.
Ele me encarou, bufou e passou por mim.
Arregalei os olhos.
— Mal-educado...
Abaixei para começar a recolher os cacos, mas a porta do escritório abriu e meu pai apareceu.
— Vittoria?
Levantei o rosto.
Don Alessandro estava atrás dele. Havia vários homens dentro do escritório e o desconhecido loiro parou ao lado deles.
Meu pai apontou discretamente para ele.
— Filha, esse é Nikolai Volkov.
Meu corpo ficou imóvel.
Volkov? Olhei novamente para o homem. Merda. Era russo.
— E o que ele está fazendo aqui?
Meu pai trocou um olhar com Don Alessandro.
Não gostei daquele olhar.
— Acabamos de fechar um novo acordo.
Apertei os dedos ao redor do pedaço de louça que ainda segurava.
— Que acordo?
Meu pai respondeu como se estivesse me informando o horário de um jantar.
— Você vai se casar com Nikolai.
Pisquei.
— Eu vou o quê?
— O casamento será daqui a três dias.
O pedaço de louça escapou dos meus dedos e caiu novamente no chão.
Olhei para Nikolai.
O desgraçado continuava parado no mesmo lugar, completamente impassí
vel.
Então ele já sabia.
Apertei os dentes.
A minha vida já não estava ruim o suficiente?
