Capítulo 2 Um casamento?
Capítulo 2
MARIA VITTORIA BELLINI
Ninguém disse mais nada.
— Três dias? — questionei.
— Espero que, quando estiver na minha casa, não cometa esses erros.
Indicou a bagunça no chão.
— Não vai juntar?
Figlio di puttana.
Abaixei novamente e comecei a recolher os pedaços com mais pressa do que deveria.
— Merda!
Um deles cortou meu dedo.
Don Alessandro estendeu um lenço.
— Cuidado, ragazza.
— Obrigada.
Enrolei o tecido no dedo e voltei a olhar para Nikolai. Ele continuava com aquela expressão de reprovação. Maledetto.
— Então... Nikolai?
Ele sequer respondeu para mim. Olhou diretamente para o Don.
— Temos um acordo ou não?
Meu queixo quase caiu. Ele era um arrogante.
Meu pai interferiu antes que eu respondesse.
— Vittoria, escuta. A esposa de Nikolai faleceu durante o parto.
Eu tinha ouvido falar daquilo. A morte da esposa do novo don russo tinha circulado entre algumas famílias.
— Ela deixou uma filha recém-nascida — meu pai continuou.
Uma bebê.
Olhei novamente para Nikolai. Então não estavam apenas procurando uma esposa para o novo don. Estavam procurando alguém para ocupar um lugar que tinha ficado vazio.
— Nikolai assumiu como don e precisa de uma esposa. O acordo é importante para todos nós.
— Eu sabia que a esposa dele tinha morrido. Só não sabia que vocês estavam procurando uma substituta e decidiram que seria eu.
Nikolai contraiu o maxilar. Não me importei.
Don Alessandro aproximou-se.
— Vittoria, esse casamento vai fortalecer a aliança entre nossas famílias e a Rússia. Evita conflitos e garante proteção dos dois lados.
Passei a mão livre pelos cabelos. Eu sabia como aquilo funcionava. Tinha crescido naquele mundo.
Casamentos eram usados para selar acordos havia gerações. Só nunca pensei que chegaria a minha vez.
— Não tem outra mulher?
— Não — meu pai respondeu.
— Que conveniente.
— Vittoria...
— Estou pensando.
Olhei ao redor, e foi quando encontrei Enzo. Ele estava mais afastado, perto da entrada. O desgraçado me encarava. Parecia incomodado.
Quase ri. Agora estava incomodado? Horas atrás estava muito ocupado.
Voltei a atenção para meu pai.
— E meu tratamento?
Ele pareceu surpreso com a pergunta.
— Já conversei sobre isso. O senhor Volkov garantiu que você continuará sendo acompanhada na Rússia. Eles têm excelentes médicos.
Olhei para Nikolai, mas ele permaneceu calado.
Casar com um desconhecido russo estava muito longe dos meus planos.
Olhei para meu pai. Depois para Don Alessandro. Nenhum dos dois tinha me perguntado o que eu queria. E essa era a parte que mais me incomodava.
Eu sabia como aquele mundo funcionava. Don Alessandro não tinha ido até nossa casa para apresentar uma possibilidade. O acordo já estava praticamente decidido antes mesmo que eu soubesse da existência dele.
Poderia gritar. Recusar. Fazer um escândalo. E depois?
Continuei olhando para Nikolai.
Talvez estivesse na hora de descobrir como era viver longe da proteção dos meus pais. Passei anos presa naquela casa, sendo tratada como se pudesse quebrar a qualquer momento.
Se aquele casamento era inevitável, pelo menos eu decidiria como entraria nele.
Respirei fundo.
— Tudo bem.
Meu pai soltou o ar.
— Eu aceito.
Nikolai não reagiu. Nem um mísero sorriso ou uma palavra.
Comecei a achar que tinham esquecido de ensinar emoções na Rússia.
Saí dali antes que alguém resolvesse anunciar mais alguma surpresa e entrei em uma das salas.
Precisava de alguns minutos sozinha.
Primeiro Enzo, agora um casamento.
Em três dias.
— Dio mio...
Mas ouvi passos atrás de mim e virei.
Nikolai entrou e fechou a porta, fazendo meu coração disparar. Ele veio na minha direção com aquela mesma expressão fechada.
— Arrume apenas uma bolsa pequena.
Franzi a testa.
— Como é?
— Uma bolsa. Não precisa levar suas roupas.
Os olhos dele desceram pelo meu corpo devagar.
Olhei para meu vestido e depois para ele.
— Qual é o problema com a minha roupa?
— Tudo. Suas novas roupas estarão no closet.
Pisquei algumas vezes. Então entendi.
— Espera. Você quer que eu use as roupas da sua esposa morta?
A expressão dele mudou.
— Não fale dela dessa maneira.
— Eu não falei nada demais. Só estou dizendo que não vou usar as coisas de nenhuma defunta. Nem sonhe com isso.
Nikolai avançou rápido. Quando percebi, sua mão estava no meu pescoço. Meu corpo travou.
Ele não apertava a ponto de me machucar, mas a força era suficiente para me impedir de simplesmente sair.
— Na minha casa, quem manda sou eu, porra.
Encarei aqueles olhos azuis.
— Que bom para você.
Os dedos dele pressionaram um pouco mais.
— Essa é a primeira regra. Você aceitou o acordo. Agora ele só termina com morte. Não tenho tempo para ladainha de mulher.
Meu coração começou a bater rápido demais.
Merda. Não agora.
Minha respiração encurtou e senti aquele mal-estar conhecido começando a aparecer.
Precisava me acalmar.
Nikolai percebeu alguma coisa, porque seus olhos mudaram por um instante. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta foi aberta.
Ele retirou a mão do meu pescoço imediatamente.
Ou melhor... Deslizou os dedos até meu colo como se estivesse apenas me acariciando.
Olhei para ele. Falso.
— Vou mandar sua passagem mais tarde — falou tranquilamente. — Preciso voltar para a Rússia hoje. Você viaja amanhã.
Esqueci até da mão dele.
— Amanhã?!
— Sim.
— O casamento não é daqui a três dias?
— É.
— Então por que preciso ir amanhã?
— Porque eu mandei.
Fechei os olhos por um segundo. Dio, me dê paciência. Porque se me der força, eu mato esse figlio di puttana antes do casamento.
— Você terá hoje para se despedir da sua família — continuou. — Amanhã embarca em um voo convencional.
— Generoso da sua parte.
Ele ignorou.
— E aproveite para melhorar seu russo.
— Meu russo é bom.
— É horrível.
Abri a boca.
— Seu...
As pessoas que estavam próximas à porta começaram a se afastar. Nikolai esperou.
Quando ficamos sozinhos novamente, Nikolai segurou minha cintura e me puxou contra seu corpo.
— O que está fazendo?
Sua outra mão subiu até minha nuca.
Meu coração disparou novamente.
Mas, dessa vez, não era pelo mal-estar.
— Nikolai...
Ele baixou o rosto. Por um segundo, sua boca ficou a poucos centímetros da minha.
Eu poderia ter me afastado. Não me afastei.
Então Nikolai me beijou.
A boca dele encontrou a minha com firmeza, enquanto sua mão me mantinha presa pela cintura.
Por alguns segundos, esqueci que aquele homem tinha me irritado desde o momento em que apareceu.
O cheiro dele estava por toda parte. A mão grande em minha cintura me segurava com firmeza, e o corpo dele parecia ainda maior tão perto do meu.
Eu deveria empurrá-lo, mas não empurrei.
Quando Nikolai afastou a boca, continuei imóvel.
— Por que fez isso?
Ele não se afastou completamente. Seus olhos permaneceram nos meus.
— Porque você é minha.
Franzi a testa.
— Eu não sou...
Nikolai me soltou antes que eu terminasse. Virou as costas e saiu.
— Arrogante! — gritei.
Ele nem olhou.
Fiquei parada no meio da sala tentando recuperar o fôlego. Então percebi Enzo passando pelo corredor e saindo furioso pelos fundos.
Olhei para ele. Dessa vez, não senti vontade de ir atrás.
Que fosse para o inferno e sentasse no colo do diavolo.
Levei os dedos até a boca e voltei a olhar para a porta por onde Nikolai tinha desaparecido.
Eu deveria estar pensando no casamento. Na Rússia. Na filha dele. No fato de que, em três dias, minha vida inteira mudaria.
Mas só conseguia pensar em uma coisa.
Eu não tinha empurrado Nikolai quando ele me beijou.
Merda.
