Capítulo 3 Minha noiva

CAPÍTULO 3

MARIA VITTORIA BELLINI

Aquele homem era um diavolo. Arrogante, grosseiro, mandão e convencido, mas beijava muito bem.

Merda.

Passei os dedos pelos lábios, ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

— Por que diabos eu aceitei esse acordo?

Olhei ao redor e percebi que estava sozinha. Ou quase. Enzo apareceu novamente no corredor e começou a vir na minha direção.

Não. Era tudo o que me faltava.

Virei antes que ele pudesse chegar perto e atravessei a casa praticamente correndo. Saí pelos fundos da propriedade e segui direto para o lago. Precisava me acalmar antes que meu corpo resolvesse reagir a tudo que tinha acontecido naquela manhã.

Tirei apenas os sapatos e entrei na água. O frio me envolveu imediatamente. Fechei os olhos e mergulhei.

A água fria sempre ajudava quando meu corpo começava a entrar naquele estado de agitação que eu conhecia tão bem. E, naquela manhã, eu precisava daquilo mais do que nunca.

Dentro da água, parecia que tudo diminuía. Minha respiração, meus pensamentos, a pressão no peito.

Atravessei boa parte do lago nadando e, quando voltei à superfície, consegui puxar o ar profundamente.

Finalmente. Só precisava de alguns minutos.

Mergulhei outra vez e comecei a voltar para a margem. Quando estava perto o suficiente para apoiar os pés no fundo, duas mãos agarraram meus braços e me puxaram com força.

— Mas que...

Fui praticamente arrastada para fora.

— Que porra você pensa que está fazendo?

Reconheci a voz.

Nikolai.

— Você não foi embora?

— Eu fiz uma pergunta.

Ele me colocou de pé e passou os olhos pelo meu corpo. A raiva que já estava estampada no rosto dele piorou.

— Que porra, mulher! Eu nem havia ido embora e você se joga na água como uma qualquer? Saia daqui imediatamente! Se um dos meus homens te ver com essa roupa grudada no corpo, arcará com as consequências!

Só então olhei para mim.

O vestido claro estava completamente encharcado e colado ao meu corpo.

Nikolai arrancou o paletó.

— Vista isso.

Tentei passar por ele, mas Nikolai segurou meu braço.

Ele jogou o paletó sobre meus ombros e fechou as duas partes na frente do meu corpo.

— Tem dezenas de soldados circulando por esta propriedade e você resolve sair de um lago com um vestido transparente grudado no corpo.

Ergui as sobrancelhas.

— Está com ciúmes?

— Não teste minha paciência.

Soltei uma risada sem humor.

— Sua paciência? Você me conhece há menos de uma hora e já reclamou da minha roupa, do meu russo, decidiu quando eu viajo e agora quer decidir até onde posso nadar.

— Não estou proibindo você de nadar.

— Que generoso.

Tentei tirar o paletó, mas ele segurou minhas mãos.

— Deixe isso onde está.

Eu puxei o ar para continuar, mas alguma coisa falhou.

Meu coração acelerou de uma vez e o aperto conhecido surgiu no peito. As mãos começaram a tremer.

Não.

Não agora.

— Vittoria?

Afastei o paletó do pescoço. De repente, o tecido parecia pesado demais sobre mim.

— O que foi?

As palavras dele começaram a se misturar às outras dentro da minha cabeça.

Eu conhecia aquela sensação e odiava cada segundo dela. Sabia que passaria, mas isso nunca fazia parecer menos real quando meu próprio corpo parecia sair do controle.

Nikolai tentou se aproximar. Arranquei o paletó e joguei contra ele.

— CHEGA!

Ele parou.

— Eu não sou sua propriedade!

Nikolai fechou a boca, mas eu estava com as pernas tremendo.

— Posso ter aceitado esse casamento, mas não aceitei virar uma boneca que você veste e guarda dentro de casa. Não sou um dos seus soldados e não vou abaixar a cabeça toda vez que você levantar a voz.

Ele deu um passo. Levantei a mão.

— Não se atreva.

Nikolai parou. Seu olhar ficou preso no meu rosto.

— Se acha que vou viver com medo de você só porque é don e fica andando com essa cara de quem quer matar todo mundo, escolheu a italiana errada.

Os olhos dele se estreitaram. Minha respiração ainda estava acelerada, mas a raiva começava a vencer a crise.

— Terminou? — perguntou.

— Agora terminei.

Ele ficou alguns segundos em silêncio. Depois se abaixou, pegou o paletó do chão e voltou até mim.

— Entre em casa.

Revirei os olhos.

— Você não escutou absolutamente nada?

Nikolai colocou o paletó novamente sobre meus ombros, mas dessa vez não tentou fechá-lo.

— Você está tremendo e com os lábios roxos.

Olhei para ele. Maledetto. Eu realmente estava com frio. Segurei o paletó e o fechei na frente do corpo.

— Acha que me assusta, Nikolai?

— Não.

A resposta veio rápida. Franzi a testa e ele sustentou meu olhar.

— Acho que deveria ter mais medo do que tem.

— Eu já enfrentei coisa pior.

Nikolai inclinou levemente a cabeça.

— Então talvez sobreviva a mim.

— Pode ter certeza.

Por um segundo, tive a impressão de que ele quase sorriu. Quase.

Depois virou as costas.

Fiquei olhando enquanto se afastava.

— Diavolo arrogante — murmurei.

Só quando ele desapareceu atrás das árvores percebi que minhas pernas ainda estavam fracas. Respirei profundamente algumas vezes até sentir o coração desacelerar e comecei a voltar para casa.

Não cheguei muito longe e bati contra alguém.

— Vittoria.

Fechei os olhos. Era o Enzo.

— Saia da minha frente.

— Você não pode ir com ele.

Tentei passar, mas Enzo segurou meus braços.

— Me solte.

— O que aconteceu hoje de manhã foi um mal-entendido. Aquela mulher entrou no meu quarto, começou a me provocar, tirou a roupa...

Fiquei olhando para ele.

— E você tropeçou, perdeu a sua roupa e caiu dentro dela?

— Vittoria, estou falando sério.

— Eu também.

Tentei puxar os braços, mas ele apertou mais.

— Me solta.

— Não aceite esse casamento. Don Alessandro não vai obrigar você.

— Eu já aceitei.

— Porque está com raiva de mim.

— Não. Aceitei porque quis.

— Você não sabe nada sobre aquele russo.

Soltei uma risada curta.

— E aparentemente também não sabia nada sobre você.

Enzo ficou calado. Tentei me soltar novamente, mas ele não deixou.

— Eu não quero que vá embora. Não aceite o acordo, o don não vai te obrigar... — Comecei a me desesperar, ele não me soltava, meu braço estava doendo.

— Me solta, eu não quero você... — Reclamei baixo para não chamar a atenção. Até que congelei ao perceber que o demônio encantador ainda estava ali, pois ouvi a sua voz e o vi engatilhar uma Udav 9 mm, arma de fabricação russa, para substituir a Macarov.

— Blyat! Quer morrer, soldado? — Nikolai falou e me puxou apenas uma vez. Senti meu corpo ceder e escorregar nos braços dele, deixando meu rosto perto do seu queixo.

“Ele parece tão alto!”

Nossos olhares se encontraram novamente, senti que dessa vez ele pareceu me dar atenção e abri a boca ao sentir sua mão com uma pegada firme na minha cintura.

“Por que estou me perguntando se ele vai me beijar de novo?” — Então, ouvi o pior absurdo da minha vida:

— Perdão, senhor! Sou apenas um soldado, imploro por perdão. — Enzo mudou até o tom de voz. — A senhorita me detesta, eu só estava tentando conseguir um pouco de compaixão da parte dela. A minha noiva trabalha na casa e a senhorita a demitiu sem motivos!

“Ele mentiu na minha cara?” — Tentei me virar, tamanha a raiva que estava sentindo, mas Nikolai me segurava firme, e, quando fui falar, colocou a arma perto da minha boca.

Seu movimento não foi violento, foi delicado. Seus olhos não me enganaram. Nikolai me virou devagar e foi soltando meu corpo. Parecia tentar me dizer que estava no controle.

— Se a minha noiva a demitiu... então, corra! Porque você tem três minutos para tirá-la dessa casa e colocar suas coisas pra fora ou te farei visitar o diabo. E eu espero não voltar a ver a cena que vi, porque meus dedos estão coçando de vontade de atirar, só não vou fazer isso por respeito à bela dama com quem vou me casar e que não precisa ver isso.

De boca aberta, me virei devagar, sentindo a mão dele acariciando meu braço. Imóvel, nem vi quando Enzo saiu, e, sem querer, deixei um sorriso escapar. Aquela puttana era conhecida minha, uma traidora que deveria rir de mim pelas costas... agora ela estaria fora, porque eu não desmentiria Nikolai.

— Obrigada... — Sussurrei.

Nikolai guardou a Udav e, ainda me encarando, apenas assentiu de leve.

— Não se atrase.

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