Capítulo 1 Ameaças

Ximena Ríos apertou o botão “publicar” às 00h17 da manhã e sentiu o gosto metálico da adrenalina na boca.

A matéria sobre Ricardo Alarcón, o CEO intocável, o empresário queridinho das revistas de negócios, o homem que estampava capas com o sorriso de quem nunca sujara as mãos, estava no ar. Três meses de noites sem dormir, documentos roubados, fontes assustadas e mentiras bem contadas agora eram públicos. Ela se recostou na cadeira da redação vazia do El Clarín e sorriu pela primeira vez em dias.

— Seu império acaba de começar a sangrar, filho da puta.

O celular vibrou quase na mesma hora. Número desconhecido.

Ximena atendeu sem hesitar.

— El Clarín.

A voz do outro lado era baixa, educada e fria demais para ser uma ameaça comum:

— Você tem uma irmã em Puebla, senhorita Ríos. Sofia. Trabalha numa clínica odontológica. Mora sozinha. Sai de casa todos os dias às sete e meia da manhã. Nos dias frios usa um casaco vermelho. Apague a matéria antes que eu precise fazer uma visita.

Ximena não piscou. O coração acelerou, mas a voz saiu firme:

— Anota o meu nome direito. É Ximena Ríos. E eu não apago nada.

Desligou. As mãos tremiam só um pouco. Ela abriu a gaveta, pegou o gravador digital que sempre carregava e salvou a chamada. A voz estava nítida. Depois abriu o notebook de novo e começou a digitar num documento novo: data, hora, conteúdo da ameaça. Salvava tudo. Sempre.

A redação estava silenciosa. Só restava o zumbido dos computadores e a luz amarela da luminária de mesa. Lá fora, a Cidade do México dormia. Dentro dela, tudo estava acordado demais.

Ximena voltou para a matéria. Leu o título mais uma vez, como quem confirma uma sentença:

Ricardo Alarcón: o império construído com dinheiro sujo

O texto detalhava tudo o que ela tinha conseguido provar. Transferências de milhões para offshores em Belize e Panamá. Empresas de fachada em Guadalajara e Monterrey. Pagamentos a senadores e juízes. Um contrato bilionário em Cancún aprovado com velocidade suspeita. E o detalhe que mais doía: parte do dinheiro voltava limpa para contas pessoais de Alarcón e de seus sócios. Tudo documentado. Tudo com datas, valores e nomes.

Martín Delgado, o editor-chefe, tinha pedido para esperar até segunda-feira. “Segurança, Ximena. Sempre segurança.” Ela concordara na hora. Agora, sozinha, não se arrependia de ter desobedecido. Se esperasse, alguém compraria o silêncio. Alguém faria a matéria desaparecer. Já tinha visto isso acontecer antes.

O celular vibrou de novo. Dessa vez era Martín.

Martín:Ximena, caralho.

Martín: A gente tinha combinado.

Ximena: Eu sei. Mas se a gente esperasse, eles teriam tempo de se mexer.

Martín: Você precisa dormir. Amanhã a gente conversa. De verdade. E apaga essa porra de ameaça da sua cabeça. Vamos cuidar disso.

Ela não respondeu. Em vez disso, abriu as redes sociais. O nome de Ricardo Alarcón já estava nos trending topics. Alguns perfis o defendiam com unhas e dentes. Outros pediam investigação imediata. Uma conta anônima postou uma foto antiga dela saindo de uma coletiva e escreveu: “Essa vadia vai se arrepender.”

Ximena arquivou o print e seguiu em frente. Ameaças faziam parte do pacote. O que não fazia parte do pacote era o e-mail que chegou três minutos depois.

Remetente desconhecido. Assunto em branco. Um único arquivo anexado.

Ela baixou o PDF com o coração batendo na garganta. Quando abriu, encontrou uma única página: uma fotografia granulada de um homem alto, de terno preto, saindo de um carro blindado em algum lugar do norte do país. O rosto estava parcialmente na sombra, mas o que se via era suficiente. Mandíbula marcada, ombros largos, postura de quem não pedia licença para ocupar o espaço. Olhar frio, quase preguiçoso, como se o mundo inteiro fosse um inconveniente menor.

Embaixo da foto, uma legenda simples, escrita em fonte limpa:

Emiliano Reyes.

El que realmente manda.

Ximena ficou olhando para a imagem por um longo tempo. O nome não era completamente estranho. Aparecia em sussurros nos corredores da redação, em relatórios confidenciais que nunca chegavam às páginas do jornal, em conversas de fontes que baixavam a voz quando o mencionavam. Um fantasma. Um homem sobre o qual quase ninguém falava em voz alta. E agora alguém alguém que claramente sabia demais, tinha jogado o nome dele direto no colo dela.

Ela salvou o arquivo em três pastas diferentes. Mandou uma cópia criptografada para o próprio e-mail e outra para um endereço seguro que só ela e Paola conheciam. Depois fechou o notebook com um estalo seco e olhou pela janela.

A avenida estava quase vazia. Quase.

A meia quadra de distância, um carro preto sem placas permanecia estacionado com o motor ligado. Os faróis apagados. Alguém lá dentro observava o prédio.

Ximena sentiu um frio subir pela espinha. Não era medo exatamente. Era reconhecimento. A partida tinha mudado de nível.

Pegou a bolsa, o gravador e o carregador do notebook. Desligou a luminária. A redação ficou escura. No elevador, enquanto descia para a garagem, abriu o celular e mandou uma mensagem para Paola:

Ximena: Publiquei. Já me ameaçaram. E me mandaram uma foto de um tal Emiliano Reyes.

Ximena: Acho que Alarcón era só a porta de entrada.

A resposta de Paola demorou menos de um minuto.

Paola:Onde você está?

Ximena:Saindo da redação.

Paola: Não vai para casa. Vem para o meu apartamento. Agora.

Ximena: Calma.

Paola: Não me diga calma. Você sabe que esses caras não brincam. Vem.

Ximena guardou o celular sem responder. Sabia que Paola tinha razão. Mas também sabia que se começasse a correr agora, nunca mais pararia.

Na garagem subterrânea, o eco dos passos dela parecia alto demais. O carro, um Jetta prata antigo que já tinha visto dias melhores, estava estacionado no fundo. Ela abriu a porta, entrou, trancou e ficou alguns segundos com as mãos no volante, respirando.

Foi então que o celular tocou de novo. Número desconhecido. Outro.

Ximena olhou para a tela. Hesitou. Atendeu.

Dessa vez a voz era diferente. Mais grave. Mais calma. Quase preguiçosa.

— Senhorita Ríos.

Ela engoliu em seco.

— Quem está falando?

— Alguém que gostou da sua matéria. Alarcón era um homem barulhento. E barulhento atrai atenção desnecessária. Você fez um favor a muita gente hoje.

Ximena apertou o telefone com força.

— E você é uma dessas pessoas?

Um silêncio curto. Depois, um som que poderia ter sido um sorriso.

— Eu sou o motivo pelo qual homens como Alarcón existem. E também o motivo pelo qual eles desaparecem quando se tornam inconvenientes.

Ela sentiu a boca secar.

— Emiliano Reyes.

— Inteligente. Gosto disso. Mas inteligência sem cuidado mata, senhorita Ríos. Você acabou de abrir uma porta. A questão é: você tem coragem de atravessar?

A linha caiu.

Ximena ficou olhando para a tela preta do celular. O coração batia tão forte que doía. Do lado de fora do carro, a garagem continuava silenciosa. Nenhum passo. Nenhum motor. Nada.

Ela ligou o carro. As mãos ainda tremiam quando saiu para a avenida. No retrovisor, o carro preto sem placas não estava mais lá.

Mas Ximena tinha certeza de uma coisa:

Alguém ainda estava assistindo.

E dessa vez não era Ricardo Alarcón.

Era alguém muito pior.

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