Capítulo 2 Consequências
Ximena acordou com o coração disparado e a sensação de que alguém ainda estava na linha com ela.
Demorou alguns segundos para entender que estava no sofá do apartamento de Paola, coberta por uma manta que cheirava a amaciante barato e café velho. A luz da manhã entrava pelas frestas da cortina. O celular, no chão, vibrava sem parar.
Ela pegou o aparelho com a mão trêmula. Vinte e três ligações perdidas. Quarenta e uma mensagens. A maioria de números desconhecidos. Algumas de Martín. Duas de Sofia.
O estômago revirou.
Ainda dava para ouvir a voz de Emiliano Reyes na cabeça. Baixa. Calma. Quase educada. Aquela calma era pior do que qualquer grito. Parecia que ele não precisava se apressar. Como se já tivesse ganho.
Ximena sentou-se, passando as mãos pelo rosto. Os olhos ardiam. O corpo inteiro doía de cansaço e adrenalina acumulada. Por um segundo, quase desejou ter apagado a matéria. Quase.
Depois lembrou do sorriso de Ricardo Alarcón nas capas de revista e a raiva voltou, quente e familiar.
Paola apareceu na porta da sala com duas canecas.
— Você dormiu três horas — disse, entregando uma delas. — E já está com cara de quem vai fazer merda de novo.
Ximena aceitou o café sem responder. O líquido amargo desceu queimando.
— Eles ligaram para a redação o dia inteiro — continuou Paola. — Martín está uma fera. Alarcón soltou um comunicado chamando a matéria de “difamação irresponsável”. O jurídico do jornal já está em cima.
— Deixa eles virem — murmurou Ximena.
— Não é só isso. — Paola hesitou. — Sua irmã ligou. Está assustada. Alguém mandou flores para a clínica dela. Sem cartão.
O café quase caiu da mão de Ximena. O peito apertou com uma força súbita e dolorida. Medo. Medo de verdade. Não o medo controlado de sempre, aquele que ela transformava em combustível. Esse era diferente. Esse tinha o nome de Sofia.
Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando dominar o tremor que subia pela garganta.
— Eu vou ligar para ela.
— Já liguei. Falei que você estava bem e que ia ficar um tempo aqui comigo. Mas, Xi… isso está feio.
Ximena não respondeu. Levantou-se, foi até a janela e abriu um pouco a cortina. A rua embaixo parecia normal. Carros passando, alguém andando com cachorro, o vendedor de suco na esquina. Tudo ridiculamente normal. Como se o mundo não tivesse mudado na madrugada anterior.
Mas tinha. Ela sentia.
Passou o resto da manhã trancada no quarto de hóspedes de Paola, com o notebook no colo. A matéria continuava no ar. Os números de visualização eram absurdos. Comentários se dividiam entre apoio e ódio. Alguns pedidos de investigação. Muitas ameaças. Ximena arquivava tudo com uma frieza que contrastava com o nó apertado no estômago.
Depois abriu uma pasta nova.
Emiliano Reyes.
Começou a cavar.
Horas se passaram. O que ela encontrou era pouco e, ao mesmo tempo, demais. Quase nada oficial. Nenhuma foto clara além daquela que tinham mandado. Nenhuma biografia. Apenas menções indiretas em reportagens antigas sobre violência no norte do país, desaparecimentos de empresários, e um sobrenome que fazia fontes fecharem a boca.
Reyes não era um homem que aparecia. Era um homem que as pessoas temiam mencionar.
A cada nova informação, o medo de Ximena mudava de forma. Deixava de ser só sobre a irmã e passava a ser sobre o tamanho real do que ela tinha tocado. Alarcón era sujo, mas era visível. Reyes era outra coisa. Era sombra. E sombras não se denunciavam com matérias.
Por um momento, a dúvida a atravessou com força.
E se eu tiver ido longe demais?
A pergunta veio acompanhada de uma sensação fria na nuca. Ela se viu de novo na garagem, ouvindo aquela voz. A forma como ele falara o nome dela. Como se já a conhecesse.
Ximena apertou a mandíbula até doer. Não. Ela não ia parar. Se parasse agora, tudo o que tinha arriscado não valeria nada. E Sofia continuaria em perigo de qualquer jeito. Homens como Reyes não esqueciam.
No início da tarde, Martín mandou uma mensagem seca:
Martín:Reunião amanhã às 9h. Obrigatória. Não faça mais nenhuma merda até lá.
Ela não respondeu.
Quando a noite chegou, Ximena insistiu em ir até o próprio apartamento buscar roupas e o HD externo onde guardava cópias de tudo. Paola tentou impedir. Perdeu a discussão.
O prédio dela parecia estranho. Ou talvez fosse só ela. Cada barulho do elevador fazia o coração disparar. No corredor, parou na frente da porta e ficou escutando. Nada. Abriu com cuidado, a mão no spray de pimenta dentro da bolsa.
O apartamento estava exatamente como ela tinha deixado. Bagunçado, cheio de papéis, o cheiro de café velho e perfume barato. Mesmo assim, Ximena sentiu o corpo inteiro em alerta enquanto andava pelos cômodos. Abriu armários. Olhou atrás das portas. Verificou as janelas.
Nada.
Só quando estava saindo, com a mochila nas costas, percebeu.
O carro.
O Jetta prata estava estacionado no mesmo lugar de sempre, na rua. Mas havia algo no para-brisa.
Ximena parou a alguns metros de distância. O coração subiu para a garganta. Olhou ao redor. A rua estava quieta. Longe demais de qualquer poste para ficar bem iluminada. Aproximou-se devagar.
Era um envelope preto, preso embaixo do limpador de para-brisa. Sem nome. Sem nada.
As mãos suaram quando ela o puxou. Por um segundo pensou em não abrir. Em jogar longe. Em ligar para Paola e voltar correndo.
Abriu. Dentro havia uma única fotografia.
Sofia.
Sua irmã saindo da clínica em Puebla, com o casaco vermelho, o cabelo preso, alheia a tudo. A foto era nítida. Recente. Tirada de perto o suficiente para mostrar o brinco que Ximena tinha ganhado no aniversário dela no ano passado.
No verso, uma frase escrita à mão, com letra firme e controlada:
Ela ainda está segura.
Por enquanto.
— E.R.
As pernas de Ximena fraquejaram. Ela se apoiou no carro, o ar sumindo dos pulmões. O medo veio em onda, tão forte que enjoou. Não era mais ameaça abstrata. Era real. Estava ali, impresso no papel, com a imagem da única pessoa que ela não podia perder.
Os olhos arderam. Pela primeira vez desde que tudo começara, Ximena sentiu vontade de chorar de verdade. De se encolher. De sumir.
Mas não chorou.
Apertou a foto com força até amassar um pouco a borda e levantou o rosto, encarando a rua escura como se pudesse encontrar quem estava assistindo.
A raiva veio logo depois do medo. Quente. Afiada. Misturada com um desespero silencioso.
Emiliano Reyes queria assustá-la.
Queria que ela sentisse que não tinha para onde correr.
Ximena guardou a foto no bolso interno da jaqueta, bem perto do peito, e entrou no carro. As mãos ainda tremiam quando girou a chave. No retrovisor, a rua continuava vazia.
Mas ela já não acreditava mais em ruas vazias.
Enquanto dirigia de volta para o apartamento de Paola, uma única certeza se formava dentro dela, dura e clara.
Ela tinha medo. Muito medo.E mesmo assim não ia parar.
