Capítulo 3 Fonte
Ximena não dormiu direito.
Toda vez que fechava os olhos, via o casaco vermelho de Sofia e a letra firme no verso da foto. Ela ainda está segura. Por enquanto. A frase ficava rodando na cabeça como um eco maldito. De madrugada, pegou o celular e ficou encarando o número da irmã sem ter coragem de ligar. E se estivessem ouvindo? E se uma ligação colocasse Sofia em ainda mais perigo?
O medo tinha um gosto amargo na boca.
De manhã, ainda no apartamento de Paola, ela tentou manter a compostura. Tomou café sem sentir o gosto, respondeu Martín com mensagens curtas e fingiu que estava sob controle. Por dentro, tudo tremia. A raiva misturava-se com uma ansiedade que não a largava. Em alguns momentos, a vontade de desistir apertava o peito. No seguinte, a teimosia voltava mais forte, quase desesperada.
Foi no meio da manhã que o e-mail chegou.
Remetente estranho, cheio de números e letras. Assunto: Sobre Reyes e Alarcón.
Ximena abriu com o coração acelerado.
Sei o que você publicou. Sei que mexeu com gente perigosa. Tenho documentos que provam a ligação direta entre Ricardo Alarcón e Emiliano Reyes. Lavagem, rotas, nomes. Se quiser, a gente se encontra. Sozinha. Hoje, 16h. Estacionamento abandonado da antiga fábrica têxtil em Naucalpán. Se levar alguém, eu sumo.
Ela leu três vezes.
A lógica gritava que era armadilha. O instinto de jornalista, porém, já estava em movimento. Documentos. Provas. A conexão que ela precisava. Se fosse verdade, mudava tudo.
Paola, ao perceber o silêncio, perguntou:
— O que foi?
Ximena hesitou. Mentiu.
— Só mais uma ameaça. Vou resolver.
O olhar da amiga disse que não acreditou, mas não insistiu.
As horas até as quatro da tarde foram um tormento. Ximena tentou trabalhar, tentou comer, tentou respirar fundo. Nada funcionava. O corpo inteiro estava em alerta. Em alguns momentos, o medo pela irmã apertava tanto que ela precisava parar o que estava fazendo e fechar os olhos. Em outros, uma determinação fria tomava conta. Ela tinha começado isso. Agora precisava terminar.
Às quinze e meia estava no carro, dirigindo em direção a Naucalpán. O envelope com a foto de Sofia continuava no bolso da jaqueta, como um lembrete cruel. Várias vezes quase desistiu e deu meia-volta. Todas as vezes continuou.
O estacionamento da antiga fábrica era exatamente como ela imaginava: vasto, rachado, tomado pelo mato e pelo abandono. Poucos postes funcionavam. O vento batia nas estruturas de metal fazendo um barulho triste. Ximena estacionou longe da entrada e ficou dentro do carro por alguns minutos, observando. Nenhum outro veículo. Nenhum movimento.
O medo latejava no pescoço.
Ela saiu mesmo assim.
Caminhou alguns metros, a bolsa cruzada no corpo, o celular com a tecla de emergência pronta. O silêncio era pesado demais. Cada passo ecoava.
— Senhorita Ríos.
A voz veio de trás de uma coluna de concreto. Um homem magro, de jaqueta marrom e boné baixo, surgiu das sombras. Parecia nervoso. As mãos mexiam sem parar na barra da roupa.
— Você veio sozinha? — perguntou ele.
— Sim. E os documentos?
Ele olhou ao redor, inquieto.
— Não posso ficar muito tempo. Eles já desconfiam de mim. — Tirou um pen drive do bolso e estendeu. — Está tudo aqui. Extratos, áudios, uma lista de pagamentos. Alarcón lavava para Reyes há anos. Se você for inteligente, some com isso e com você mesma depois.
Ximena pegou o pen drive. Os dedos estavam frios.
— Por que está me ajudando?
O homem deu um sorriso torto.
— Porque meu irmão sumiu depois que tentou sair do esquema. E porque você foi a única que teve coragem de publicar alguma coisa.
Ele ainda estava falando quando o barulho de motores cortou o ar.
Dois carros pretos entraram no estacionamento em alta velocidade. O homem empalideceu.
— Merda. Corra!
Ximena não precisou ouvir duas vezes. Virou-se e disparou em direção ao próprio carro. O coração batia tão forte que doía. Ouviu portas batendo, vozes, passos pesados. Um grito abafado atrás dela. Não olhou para trás.
Entrou no Jetta com as mãos tremendo tanto que quase não conseguiu girar a chave. O motor pegou. Ela pisou fundo. No retrovisor, viu um dos carros pretos virando em sua direção.
A perseguição foi curta e brutalmente intensa. Ximena dirigia como alguém que não tinha mais nada a perder, entrando em ruas estreitas, furando sinais, o corpo inteiro tomado por um pânico gelado. Em determinado momento, sentiu os olhos arderem. Não era só medo de morrer. Era medo de deixar Sofia sozinha. Medo de ter sido tola. Medo de que tudo isso não servisse para nada.
Conseguiu perder os perseguidores perto de uma avenida movimentada, misturando-se ao trânsito. Só então permitiu que o carro reduzisse a velocidade. As mãos continuavam trancadas no volante. A respiração vinha em engasgos. O pen drive queimava no bolso.
Quando finalmente parou em um posto isolado, demorou vários minutos para conseguir sair do carro. As pernas bambas. A náusea subindo. Ela se curvou perto do capô e ficou ali, tremendo, tentando não vomitar.
O celular vibrou.
Número desconhecido.
Com o coração na boca, Ximena atendeu.
A voz que ela já conhecia preencheu a linha. Baixa. Controlada. Irritantemente calma.
— Eu avisei.
Ela fechou os olhos com força. A raiva e o medo se misturaram de um jeito quase insuportável.
— Você mandou aqueles homens? — perguntou, a voz rouca.
— Eu não preciso mandar ninguém para a senhora se meter em encrenca sozinha. Você é boa nisso. — Houve uma pausa. — O homem com quem se encontrou não vai mais falar com ninguém. E o que ele te deu… bem, espero que tenha valido o risco.
Ximena apertou o telefone.
— Se tocar na minha irmã…
— Sofia continua bem. Por enquanto. Mas a senhora está testando minha paciência, Ximena. — Ele falou o nome dela com uma intimidade que fez o estômago dela revirar. — Pare agora.
A linha caiu.
Ximena ficou parada no meio do posto, o vento frio batendo no rosto, o pen drive ainda fechado na mão suada. O corpo inteiro doía de tensão. As lágrimas ameaçaram subir, mas ela seguiu. Engoliu o choro com dificuldade.
Medo. Raiva. Exaustão. E por baixo de tudo isso, uma teimosia feroz que se recusava a morrer.
Ela olhou para o pen drive.
Depois para a estrada escura à frente.
Emiliano Reyes queria que ela parasse.
Ainda tremendo, Ximena entrou no carro e ligou o motor.
Parar era a única coisa que ela não ia fazer.
