Capítulo 4 Perto
Ximena não voltou direto para o apartamento de Paola.
Parou em uma lan house velha, longe o suficiente da rota que costumava fazer, e só então plugou o pen drive. As mãos ainda tremiam. Cada barulho na rua fazia ela erguer o olhar, o coração disparado. O aviso de Emiliano continuava ecoando: Pare agora. A voz dele tinha sido baixa, quase suave, e justamente por isso assustava mais.
O conteúdo do pen drive era pesado.
Extratos, planilhas, áudios curtos de conversas e uma lista de nomes. Ricardo Alarcón aparecia com frequência. E, pela primeira vez, o nome de Emiliano Reyes deixava de ser só um fantasma. Havia transferências, códigos de rotas e anotações sobre “proteção” de cargas. Nada que pudesse ser publicado ainda sem verificação, mas era concreto. Era real. Ximena sentiu um misto estranho de euforia e medo. A jornalista dentro dela queria comemorar. A mulher que tinha uma irmã ameaçada só conseguia sentir o estômago apertado.
Copiou tudo em duas pastas criptografadas, mandou uma cópia para o e-mail seguro e removeu o pen drive com cuidado. Enquanto fazia isso, percebeu que estava suando apesar do frio.
Até onde eu consigo ir antes que algo irreparável aconteça?
A pergunta doeu. Sofia merecia segurança. Mas desistir agora também não garantia nada. Homens como Reyes não liberavam ninguém por pena.
Quando voltou para o apartamento de Paola, já era noite. Mentiu de novo. Disse que tinha resolvido coisas na redação. Paola olhou desconfiada, mas estava cansada demais para brigar. Ximena se trancou no quarto e passou horas organizando os arquivos, fazendo anotações, cruzando datas. Cada nova ligação que encontrava entre Alarcón e Reyes aumentava a certeza de que tinha colocado o pé em um território muito maior do que imaginava.
Também aumentava o medo.
De madrugada, o sono veio em pedaços. Sonhou com a foto de Sofia, com a voz de Emiliano e com carros pretos se aproximando. Acordou ofegante, a camiseta colada nas costas.
No dia seguinte, decidiu que precisava passar no próprio apartamento. Queria outros HDs, um caderno antigo de fontes e roupas limpas. Paola tentou impedir.
— Você está teimando demais, Xi. Isso já passou de jornalismo.
— Eu sei — respondeu Ximena, a voz mais dura do que pretendia. — Mas eu não consigo parar.
A verdade era essa. Parar doía quase tanto quanto continuar.
O prédio dela parecia mais silencioso que o normal. No elevador, Ximena ficou encarando o próprio reflexo na porta de metal. Estava pálida, com olheiras profundas e uma expressão que ela mesma quase não reconhecia. Entrou no apartamento com a chave na mão e o corpo em alerta.
No primeiro segundo, achou que estava tudo igual.
No segundo, percebeu que não.
A cadeira da mesa de trabalho estava levemente puxada para trás. Ela sempre encostava na parede. Um dos gaveteiros tinha a gaveta um pouco aberta. O cheiro do ambiente… era diferente. Como se alguém tivesse estado ali há pouco tempo.
O sangue gelou.
Ximena ficou parada no meio da sala, ouvindo o próprio coração. Abriu a bolsa e pegou o spray de pimenta. Foi aos poucos, cômodo por cômodo. Nada destruído. Nada roubado de forma óbvia. Mas detalhes pequenos estavam fora do lugar. A foto de Sofia com ela na praia, que ficava na estante, agora estava virada para baixo. No banheiro, a toalha tinha sido mexida.
Alguém entrara.
Alguém mexera nas coisas dela com calma, sem pressa, como quem tinha todo o tempo do mundo.
Ximena sentou na beira da cama porque as pernas fraquejaram. O medo veio em uma onda náuseante. Não era mais só ameaça externa. Tinham invadido o único espaço que ainda era dela. A sensação de violação foi tão forte que os olhos arderam. Pela primeira vez em dias, uma lágrima escapou. Ela limpou com o verso da mão, com raiva de si mesma por chorar.
— Filho da puta — sussurrou.
Não sabia se estava falando de Emiliano, dos homens dele ou de si mesma por ter continuado.
Forçou-se a agir. Pegou o que precisava com pressa, evitou tocar demais nas coisas e saiu. No corredor, teve a nítida impressão de ser observada. Dentro do elevador, quase não respirava.
Na rua, o alívio durou pouco.
Enquanto caminhava até o carro, sentiu.
Aquele formigamento na nuca. A certeza primitiva de que olhos estavam sobre ela. Ximena diminuiu o passo sem querer, depois forçou-se a manter o ritmo. Olhou o reflexo na vitrine de uma loja fechada. Do outro lado da rua, um homem de terno escuro estava parado perto de um poste, o celular na mão. Não disfarçava. Quando ela o encarou pelo reflexo, ele ergueu o olhar e manteve o contato por um segundo a mais do que seria normal.
Depois sorriu de leve.
Foi só isso. Um sorriso pequeno, quase educado.
Ximena sentiu o estômago afundar. Acelerou o passo, entrou no carro e trancou as portas com força. As mãos tremiam tanto que demorou a conseguir ligar o motor. Pelo retrovisor, o homem continuava lá. Não se aproximou. Não precisava.
Ele só queria que ela soubesse.
Enquanto dirigia, o medo se misturou com uma raiva quente e impotente. Emiliano não estava apenas ameaçando. Estava demonstrando controle. Estava dizendo, sem palavras, que podia entrar na vida dela quando quisesse, mexer no que quisesse, chegar perto o suficiente para sufocar.
Ximena apertou o volante até as articulações doerem.
No peito, o medo continuava vivo, latejando. Mas junto com ele havia outra coisa, dura e teimosa: a certeza de que, se ela parasse agora, tudo isso teria sido em vão. E o pior… era que uma parte dela já não sabia distinguir se continuava por justiça, por orgulho ou simplesmente porque o homem do outro lado tinha se tornado uma obsessão perigosa.
Quando parou em um sinal, pegou o celular.
Abriu uma nota nova e escreveu apenas uma frase, como quem faz uma promessa para si mesma:
Eu vou chegar nele.
O sinal abriu. Ximena acelerou.
Atrás dela, em algum lugar da cidade, ela tinha certeza de que Emiliano Reyes já sabia exatamente o que ela faria em seguida.
E estava só esperando.
