Capítulo 5 Maré

O cansaço veio como uma maré lenta e suja.

Ximena mal percebeu quando ele começou a ganhar do medo. Fazia noites que dormia pouco e mal. O corpo pedia descanso; a cabeça, não. Toda vez que fechava os olhos, via a foto de Sofia, o sorriso do homem no poste, a cadeira fora do lugar no apartamento. O nome de Emiliano Reyes tinha se instalado na mente dela como uma farpa.

Paola começou a trabalhar em um ensaio fotográfico fora da cidade e Ximena ficou sozinha no apartamento da amiga. A solidão pesou mais do que ela esperava. O silêncio aumentava os pensamentos. Várias vezes pegou o celular para mandar mensagem para Martín pedindo afastamento. Todas as vezes apagou.

Naquela tarde, recebeu um e-mail novo.

Diferente dos outros. Mais direto.

Tenho a segunda parte do que você viu no pen drive. Áudios melhores. Nomes maiores. Se ainda quiser, me encontra hoje às 19h. Mesmo lugar de antes é arriscado. Vai no estacionamento do antigo cinema em Satelite. Vou estar no carro cinza. Só você.

Ximena leu várias vezes.

A lógica gritava que era óbvio demais. Que depois de tudo, qualquer encontro sozinho era estúpido. Mas o cansaço nublava o julgamento. A obsessão também. Se fossem áudios reais, se houvesse nomes maiores, ela teria algo sólido o suficiente para se proteger… ou para negociar.

Ficou longos minutos encarando a tela, o coração dividido entre o medo e a necessidade de avançar.

No fim, foi.

Avisou Paola com uma mensagem vaga e saiu antes que a amiga pudesse responder. No caminho, tentou se convencer de que estava sendo cuidadosa. Olhou pelo retrovisor o tempo inteiro. Mudou de rota duas vezes. Mesmo assim, uma parte dela já sabia que estava forçando demais a própria sorte.

O estacionamento do antigo cinema era grande, mal iluminado e quase vazio. O letreiro quebrado balançava com o vento. Ximena estacionou longe da entrada e ficou dentro do carro, observando. Às 19h04, um carro cinza apareceu e parou a alguns metros de distância. Os faróis apagaram.

Ela esperou.

Ninguém saiu.

O celular vibrou.

Número desconhecido: Estou aqui. Com medo de descer?

O estômago dela revirou. Respondeu mesmo assim:

Ximena: Mostra o que trouxe primeiro.

Não houve resposta.

Os minutos se arrastaram. O cansaço apertava as têmporas. A ansiedade fazia a respiração ficar curta. Ximena olhou em volta mais uma vez. Nada suspeito. O erro foi exatamente esse: acreditar que, se não via perigo, ele não estava ali.

Ela abriu a porta.

O ar frio da noite bateu no rosto. Caminhou alguns passos em direção ao carro cinza, uma mão dentro da bolsa segurando o spray de pimenta. O coração batia alto demais.

— Ei — chamou, a voz firme apesar do medo. — Se for brincadeira, eu…

A porta do carro cinza não se abriu.

Quem se moveu veio de trás.

Uma mão grande cobriu a boca dela com força. Outro braço prendeu a cintura, erguendo-a do chão como se não pesasse nada. Ximena gritou contra a palma da mão, chutou, tentou alcançar o spray. Uma segunda pessoa apareceu e segurou suas pernas. O desespero veio rápido e selvagem. Ela se debateu com toda a força que ainda tinha, os olhos arderam de raiva e pânico.

Sentiu um cheiro químico doce e enjoativo perto do nariz.

— Não… — tentou dizer.

A escuridão veio sem pedir licença.

Quando Ximena voltou a si, a primeira coisa que notou foi a dor de cabeça.

A segunda, foi o silêncio.

Abriu os olhos com dificuldade. O teto acima dela era alto, de madeira escura. A luz era baixa, dourada, vinda de abajures. Não era um porão. Não era uma sala suja. Era um quarto amplo, elegante, com cortinas pesadas e um tapete grosso. O ar cheirava a madeira e algum tipo de perfume masculino discreto.

Ela tentou se sentar e só então percebeu que os pulsos estavam presos por algemas forradas de couro a cabeceira da cama. Não apertavam o suficiente para machucar de imediato, mas eram firmes. Os sapatos tinham sumido. A jaqueta também.

O medo desceu lento e pesado, diferente do pânico da captura. Era um medo mais frio. Mais consciente.

— Acordei.

A voz veio do canto do quarto.

Ximena virou a cabeça tão rápido que a dor latejou.

Emiliano Reyes estava sentado em uma poltrona escura, o corpo reclinado com uma tranquilidade quase ofensiva. Usava camisa preta de mangas dobradas e calça social. Sem paletó. Parecia ter estado ali há um tempo, apenas esperando. O olhar dele era exatamente igual ao da foto: frio, atento, sem pressa.

Ximena sentiu a garganta fechar. O coração disparou com tanta força que quase doía.

— Onde estou? — a voz saiu rouca.

Ele demorou um segundo para responder, estudando-a.

— Em um lugar seguro. Para mim. Ainda não sei se para você.

Ela puxou as algemas por reflexo. O metal soou baixo.

— Meu irmão… minha irmã…

— Sofia está bem. Continua sem saber de nada. Por enquanto.

O “por enquanto” cortou como lâmina. Ximena engoliu em seco, tentando controlar o tremor que subia pelo queixo. Não queria mostrar medo. Odiava a ideia de dar a ele esse prazer.

— Você não vai se safar disso — disse, tentando soar mais firme do que estava. — Vão me procurar.

Emiliano inclinou um pouco a cabeça, como se acharia a frase curiosa.

— Vão. Por um tempo. Depois vão achar que você se assustou e sumiu. Jornalistas sumidos não são novidade neste país.

Ele se levantou. Não foi até a cama de imediato. Caminhou devagar, as mãos nos bolsos, parando a uma distância segura. Mesmo assim, a presença dele preencheu o quarto. Ximena odiou a forma como o corpo dela reagiu: alerta total, pele formigando, respiração curta.

— Você foi avisada — continuou ele, a voz baixa. — Mais de uma vez. Mas insistiu em abrir portas que não devia.

Ximena ergueu o queixo, mesmo algemada, mesmo com o medo latejando em cada músculo.

— E agora? Vai me matar?

Emiliano segurou o olhar dela por um longo momento. Algo indecifrável passou pelo rosto dele.

— Se eu quisesse você morta — disse com simplicidade —, não estaríamos conversando.

Ele se virou e caminhou até a porta. Antes de sair, parou sem olhar para trás.

— Descanse enquanto pode, senhorita Ríos. A partir de agora, as regras são minhas.

A porta se fechou com um clique suave.

O som da fechadura girou.

Ximena ficou sozinha, algemada, no meio de um quarto que parecia caro demais para ser uma prisão. O silêncio voltou, pesado. Só então, quando não havia mais ninguém para ver, o tremor tomou conta do corpo dela de verdade. Os olhos encheram de lágrimas que ela se recusou a deixar cair.

Medo.

Raiva.

E a terrível certeza de que o jogo que ela achava que estava jogando… tinha acabado de mudar de dono.

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