Capítulo 1 1
Uma ligação por engano. Uma obsessão inesperada. Dois destinos prestes a colidir.
Ele só queria respostas. Ela não fazia ideia de que uma simples ligação seria capaz de virar sua vida de cabeça para baixo.
Acostumado a comandar, impor respeito e manter tudo sob controle, ele nunca imaginou que um áudio enviado no meio de uma cobrança de informações acabaria despertando seu interesse por uma mulher que sequer conhecia. Bastou ouvir sua voz para que a curiosidade se transformasse em desejo, e o desejo, em uma vontade insistente de descobrir quem estava do outro lado da linha.
O problema? Ela não era o tipo de mulher que se impressionava facilmente. Dona de uma personalidade marcante, língua afiada e um jeito que misturava charme e teimosia, estava longe de imaginar que havia despertado a atenção de um homem acostumado a conseguir tudo o que queria.
O que começou com números trocados e conversas inesperadas logo se transformou em uma sequência de provocações, confusões, ciúmes e encontros capazes de testar a paciência dos dois. Quanto mais ele tentava se aproximar, mais ela parecia determinada a não facilitar as coisas.
Mas existe uma diferença entre querer alguém e estar disposto a conquistar seu coração.
Entre mundos opostos, segredos escondidos e sentimentos que nenhum dos dois planejou sentir, essa ligação promete muito mais do que simples conversas. Afinal, o que acontece quando um homem que acredita controlar tudo encontra justamente a mulher capaz de bagunçar sua vida inteira?
Será que os opostos realmente se atraem? Ou essa chamada cruzada terminará em um grande desastre?
Prepare-se para rir, suspirar, se apaixonar e perder o fôlego a cada reviravolta. Porque, nesta história, desligar o telefone pode ser fácil… difícil mesmo será desligar o coração.
— O NÚMERO ERRADO
Narrado por Eduardo
Minha caminhada nunca foi fácil. A vida não me deu muita escolha, e tudo o que conquistei até hoje foi na base da coragem, da inteligência e de algumas decisões que, olhando agora, talvez não tenham sido as melhores.
Mas fazer o quê? Ninguém chega onde eu cheguei sem carregar algumas histórias nas costas.
Estou no comando do Alemão há mais de quinze anos, e essa é a primeira vez que conheço o outro lado das grades. Já estou preso há seis meses, contando os dias para colocar o pé na rua e respirar aquele ar de liberdade novamente.
Se tem uma coisa que aprendi aqui dentro é que o tempo não passa. Ele se arrasta, debocha da sua cara e ainda parece fazer questão de lembrar que você não tem para onde correr.
É uma maravilha, só que ao contrário.
Pelo menos, não estou misturado com todo mundo. Tenho faculdade, sei conversar e nunca fui de dar motivo para me tratarem como alguém sem educação. Por isso, consegui ficar em uma cela separada.
O que os responsáveis por me manter aqui não sabem é que o homem que pegaram durante aquele confronto não era apenas mais um sujeito armado.
Era o chefe.
Deram sorte naquele dia. Ou talvez eu tenha dado mole, porque estava resolvendo uma situação pessoal e acabei no lugar errado, na hora errada. Acontece.
O importante é que, mesmo atrás das grades, continuo acompanhando o que acontece lá fora. Tenho meus contatos, recebo informações e sei que meus homens não estão deixando a situação desandar.
Meu sub está cuidando de muita coisa, mas isso não significa que eu possa simplesmente cruzar os braços.
Hoje, por exemplo, já comecei o dia de cabeça quente.
E o motivo tinha nome, sobrenome e uma lista enorme de informações que ainda precisava conferir.
Meu sub havia me enviado uma relação de pessoas que deveriam explicações. Tinha gente que estava demorando para prestar contas, outros que haviam desaparecido e alguns que, pelo visto, achavam que eu tinha esquecido como as coisas funcionavam.
Peguei o celular e comecei a conferir os números.
— Vamos ver quem está merecendo perder o sossego hoje — resmunguei, passando o dedo pela tela.
Eu ainda não tinha chegado nem à metade da lista e já estava perdendo a paciência.
Foi quando encontrei um contato que me chamou a atenção.
Marcin.
O sujeito estava sumido havia um bom tempo. O curioso era que o dinheiro continuava entrando na conta dele todos os meses, mas as informações que eu precisava simplesmente não chegavam.
Aquilo não estava certo.
Abri a conversa, apertei o botão de gravar e mandei um áudio.
— Cole, Marcin! Está recebendo para ficar escondido, é? Está sumido, mas eu vou acabar te encontrando. Quero saber onde você se meteu e cadê as informações que deveria ter me passado. Não estou aqui para brincar, não!
Enviei e fiquei esperando.
Um minuto.
Dois minutos.
Cinco minutos.
Nada.
A mensagem foi visualizada, apareceu aquele maldito aviso de que a pessoa estava digitando e, logo depois, sumiu.
Voltou a aparecer.
Sumiu novamente.
— Ah, não! Está querendo testar minha paciência logo hoje?
Fiquei olhando para a tela como se, por força do pensamento, pudesse obrigar o sujeito a responder.
Quando estava prestes a mandar outro áudio, finalmente recebi uma mensagem de voz.
Apertei para ouvir.
— Oi! Acho que você mandou esse áudio para o número errado. Não conheço nenhum Marcin.
Fiquei parado.
Ouvi de novo.
E mais uma vez.
Não, eu não tinha entendido errado. Era uma mulher.
Uma mulher com uma voz tão doce que parecia estar falando comigo sentada em uma varanda, tomando café e olhando o movimento da rua. Calma, tranquila, sem demonstrar o menor sinal de medo depois de receber um áudio daquele.
Como assim?
Qualquer pessoa com um mínimo de juízo teria perguntado quem eu era ou, no mínimo, ficado desconfiada.
Ela não.
A criatura simplesmente avisou que eu havia errado o número.
Soltei uma risada desacreditada.
— Não é possível uma coisa dessas.
Conferi o contato e percebi que realmente tinha cometido um erro. Um número trocado, provavelmente. Acontece até com quem presta atenção.
Liguei para meu sub e expliquei a situação. Pedi que verificasse o contato correto e confirmasse se o número de Marcin havia mudado.
Ele disse que iria conferir.
Desliguei, mas, antes de fechar a conversa, voltei ao perfil da desconhecida.
E foi aí que a situação começou a ficar interessante.
A foto dela apareceu na tela.
Rapaz...
Que mulher bonita!
Não era apenas bonita. Tinha alguma coisa no olhar que prendia a atenção. Mesmo sendo uma foto simples, sem aquela produção exagerada que muita gente fazia questão de mostrar nas redes sociais, ela chamava a atenção.
Fiquei olhando por alguns segundos.
Depois balancei a cabeça.
— Eduardo, você está preso, homem. Crie vergonha!
Mas, em vez de apagar o contato, salvei o número.
Vai entender.
Talvez fosse curiosidade. Talvez eu só quisesse descobrir se aquela voz combinava mesmo com o rosto da fotografia.
Ou talvez eu estivesse entediado demais naquela cela.
Resolvi mandar uma mensagem.
EU: Foi mal aí. Qual é o seu nome?
A resposta chegou pouco depois.
DESCONHECIDA: Gata.
Eu franzi a testa.
Gata?
Olhei para a tela, esperando que aparecesse outra mensagem explicando aquilo.
Nada.
Digitei novamente.
EU: Oxe! Você me manda mensagem dizendo que errei o número e agora quer saber quem é você?
A resposta veio tão depressa que quase achei que ela estivesse esperando por mim.
GATA: Ué, você que me mandou mensagem querendo saber meu nome. Eu, hein!
Soltei uma risada pelo nariz.
A mulher era abusada.
EU: Está de brincadeira comigo, garota? Estou falando na maior educação.
GATA: E eu estou respondendo na maior educação, bofe.
Bofe?
Olhei para o celular, incrédulo.
— Bofe é a sua tia!
Digitei, apaguei e escrevi de novo. Eu precisava manter a postura, mesmo que ninguém estivesse ali para assistir àquela conversa.
EU: Que história é essa de bofe? Está tirando uma com a minha cara?
GATA: Calma, bofe. Não precisa se alterar. Vai fazer mal para a pele.
Fiquei olhando para a mensagem.
Depois comecei a rir.
Não uma risadinha discreta, não. Ri de verdade, a ponto de o homem que estava passando pelo corredor olhar para dentro da minha cela para conferir se estava tudo bem.
Fiz um sinal com a mão, dizendo que estava tudo certo.
Não estava, não.
Eu tinha acabado de encontrar uma desconhecida que me chamava de bofe e ainda me dava conselhos sobre cuidados com a pele.
Era o fim da picada.
EU: Você sempre fala assim com quem não conhece?
GATA: Só com quem aparece do nada querendo saber meu nome.
EU: Você poderia simplesmente responder sem fazer graça.
GATA: E você poderia simplesmente aceitar que errou o número.
Aquela resposta me fez apertar os lábios para segurar outra risada.
A mulher não facilitava nem um pouco.
E o pior era que eu estava gostando daquilo.
Fazia tempo que eu não conversava com alguém sem que a pessoa estivesse tentando me agradar, pedir alguma coisa ou medir cada palavra com medo de me contrariar.
Aquela desconhecida não parecia preocupada em causar uma boa impressão.
Na verdade, parecia determinada a me tirar do sério.
E estava conseguindo.
EU: Está bom, engraçadinha. Agora me responde uma coisa.
GATA: Lá vem.
EU: Qual é o seu nome de verdade?
GATA: Direitos iguais, surtado. Primeiro você me diz o seu.
Surtado.
Respirei fundo e encarei o teto.
— Eu vou acabar perdendo a cabeça com essa mulher...
Mesmo assim, meus dedos já estavam digitando.
EU: Eduardo.
A resposta demorou alguns segundos.
MAJU: Então, Eduardo, pode me chamar de Maju.
Maju.
Finalmente um nome.
Fiquei repetindo mentalmente, tentando entender por que uma informação tão simples tinha me deixado satisfeito.
EU: Prazer, Maju.
MAJU: O prazer é todo seu, bofe.
Fechei os olhos.
Aquela mulher tinha um talento especial para estragar qualquer tentativa de conversa séria.
EU: Você não vai parar de me chamar assim, né?
MAJU: Agora que sei que você não gosta, é que não vou mesmo.
EU: Você é sempre tão implicante?
MAJU: Só quando merece.
Antes que eu pudesse responder, outra mensagem apareceu.
MAJU: Mas agora vou sair. Tenho coisas para fazer. Beijo!
Fiquei encarando a tela.
EU: Opa! Vai aonde?
A mensagem foi visualizada.
E nada.
Mandei outra.
EU: Estou falando com você, garota.
Dessa vez, a resposta veio quase imediatamente.
MAJU: Se manca, bofe! Devo satisfação da minha vida a você?
E pronto.
A conversa terminou ali.
Fiquei olhando para o celular com uma expressão que, se alguém visse, provavelmente perguntaria se eu tinha acabado de receber uma notícia muito ruim.
A garota simplesmente foi embora.
Sem despedida decente, sem explicar nada, sem sequer perguntar se eu queria continuar conversando.
Quem ela pensava que era?
Eu estava acostumado a ter respostas, a saber onde as pessoas estavam e a não ficar esperando por ninguém. Mas aquela mulher tinha encerrado a conversa como se eu fosse um conhecido inconveniente que apareceu no momento errado.
E eu nem sabia o sobrenome dela.
Passei a mão pelo rosto, soltando um suspiro.
— Abusada...
Olhei novamente para a fotografia.
Maju.
O nome combinava com ela. Pelo menos, com a impressão que eu tinha formado em poucos minutos.
A verdade era que eu não fazia a menor ideia de quem aquela mulher era, onde morava, com o que trabalhava ou se tinha alguém na vida.
Só sabia que tinha uma voz bonita, uma resposta para tudo e uma coragem que beirava a falta de juízo.
Se ela soubesse com quem estava falando, será que continuaria me chamando de bofe?
A pergunta me fez sorrir.
Provavelmente, sim.
E, por algum motivo que eu ainda não conseguia explicar, essa possibilidade me divertia mais do que deveria.
O celular vibrou novamente.
Peguei depressa, achando que fosse ela.
Mas era meu sub.
SUB: Chefe, conferi o número. Você realmente mandou para o contato errado. Já encontrei o número atualizado do Marcin. Vou te passar.
Li a mensagem e respondi apenas que estava certo.
O assunto deveria ter terminado ali.
Eu tinha uma lista para conferir, informações para cobrar e problemas suficientes para ocupar minha cabeça durante os próximos meses.
Não precisava de uma desconhecida atravessando meus pensamentos.
Muito menos de uma que me chamava de bofe.
Bloqueei a tela e deixei o celular de lado.
Tentei voltar ao trabalho, mas não consegui.
Cinco minutos depois, peguei o aparelho novamente.
Abri a conversa.
A última mensagem dela continuava lá.
Se manca, bofe!
Ri sozinho.
— Você ainda vai me pagar por essa, Maju.
Não que eu estivesse realmente irritado. Era justamente o contrário, e isso me incomodava.
Eu queria ouvir aquela voz de novo.
Queria saber se ela era tão atrevida pessoalmente quanto parecia por mensagem.
Queria descobrir o que aquela mulher tinha feito para me deixar curioso em tão pouco tempo.
E, principalmente, queria entender por que eu estava pensando tanto em alguém que conheci por causa de um erro.
Eu não acreditava em destino. A vida tinha me ensinado a desconfiar de coincidências e a nunca entregar o controle das coisas nas mãos de outra pessoa.
Ainda assim, não apaguei o contato.
Salvei a fotografia na memória, guardei o celular e tentei me concentrar.
Não adiantou.
Porque, naquele dia, sem perceber, eu tinha acabado de encontrar a primeira pessoa em muito tempo que não estava nem aí para quem eu era.
E isso mexeu comigo de um jeito que nenhuma ameaça, nenhum confronto e nenhum problema dentro ou fora daquelas grades tinha conseguido fazer.
O mais engraçado?
Maju não fazia ideia de quem eu era.
E eu ainda não sabia se queria continuar assim por mais algum tempo ou descobrir logo o que aconteceria quando ela finalmente soubesse.
Só tinha uma certeza.
Aquela ligação tinha sido feita para o número errado.
Mas, pela primeira vez em seis meses, eu estava ansioso para que alguma coisa acontecesse no dia seguinte.
E a culpa era toda daquela garota abusada.
Continua...
