Capítulo 2 2
A NOITE É UMA CRIANÇA
Narrado por Maju
Meu dia tinha sido uma verdadeira correria, mas, como finalmente era sexta-feira, eu estava decidida a esquecer os compromissos e aproveitar a noite com minhas meninas.
Depois de uma semana inteira entre faculdade, trabalhos e responsabilidades, eu merecia algumas horas de diversão. Afinal, ninguém era de ferro, né?
Saí da faculdade por volta das três da tarde, praticamente enxergando um prato de comida na minha frente. Minha barriga estava fazendo tanto barulho que, se alguém chegasse perto, provavelmente pensaria que eu tinha levado um pequeno animal comigo.
— Meu Deus, eu vou desmaiar de fome! — reclamei, colocando a mão sobre o estômago.
Não pensei duas vezes antes de parar em uma lanchonete. Pedi um hambúrguer, batata frita e um refrigerante. Enquanto esperava, aproveitei para responder algumas mensagens e conferir as novidades nas redes sociais.
Quando meu pedido chegou, ataquei a comida sem a menor cerimônia.
Eu podia ser vaidosa, gostar de me arrumar e passar um tempão escolhendo roupa, mas, quando a fome batia, minha prioridade era outra.
Primeiro a comida. Depois o resto.
Terminei o lanche satisfeita e segui para o shopping. Precisava trocar um biquíni que minha mãe havia me dado. O presente era lindo, mas parecia ter sido comprado para uma boneca.
Minha mãe tinha umas ideias maravilhosas, mas, às vezes, errava feio no tamanho.
E não era por maldade. Ela simplesmente comprava as coisas no entusiasmo, imaginando que tudo ficaria perfeito.
Minha mãe era uma figura!
Descolada, divertida e dona de uma personalidade que não cabia dentro de casa. Humilde de verdade, ela já havia morado em algumas comunidades e adorava uma movimentação, uma festa e uma boa fofoca. Se acontecesse alguma coisa interessante em qualquer lugar, era bem capaz de ela ficar sabendo antes de todo mundo.
Depois que se casou com meu pai, foi morar em uma região mais tranquila, onde construiu uma vida confortável ao lado dele.
Meu pai tinha uma condição financeira muito boa e era um homem trabalhador. Infelizmente, perdemos ele no ano passado, depois de uma luta difícil contra o câncer.
Até hoje, havia dias em que eu sentia uma saudade tão grande que precisava parar tudo por alguns minutos.
Ele fazia falta em cada detalhe.
Depois da morte dele, minha mãe assumiu os negócios da família e passou a cuidar de tudo com a mesma determinação que sempre teve. Não foi fácil, mas ela era uma mulher forte e nunca deixou que a tristeza a impedisse de seguir em frente.
Nós tínhamos uma fábrica de chocolates, e eu simplesmente amava aquele lugar.
O cheiro de chocolate tomava conta de tudo, e eu precisava fazer um esforço enorme para não sair experimentando cada coisa que encontrava pelo caminho.
Na verdade, nem sempre fazia esforço.
Eu comia mesmo!
Minha mãe vivia dizendo que, se dependesse de mim, a fábrica iria à falência por falta de estoque.
Absurdo! Uma calúnia sem tamanho.
Eu apenas valorizava o produto da família.
Depois de resolver a troca do biquíni, dei mais uma voltinha pelo shopping e comprei algumas coisinhas. Quando percebi, já estava ficando tarde, e eu ainda precisava voltar para casa e me arrumar.
Cheguei, comi alguma coisa e fui direto separar a roupa que usaria naquela noite.
As meninas tinham combinado de nos encontrarmos em uma choperia no centro. A ideia era conversar, dançar um pouco e esquecer os problemas.
Escolhi um look que valorizava meu corpo, separei os acessórios e fui tomar banho.
Depois, coloquei uma música no quarto e comecei a me arrumar.
Eu gostava daquele momento. Escolher a maquiagem, arrumar o cabelo e me olhar no espelho fazia parte da diversão. Não precisava de uma ocasião especial para me sentir bonita, mas uma sexta-feira à noite era uma ótima desculpa para caprichar.
Enquanto passava o delineador, meu celular vibrou.
Olhei para a tela e vi uma mensagem de um número desconhecido.
Franzi a testa.
Quem era agora?
Abri a conversa e encontrei um áudio.
Apertei para ouvir.
A voz masculina saiu pelo alto-falante em um tom tão irritado que, por alguns segundos, pensei que o homem estivesse discutindo com alguém dentro do próprio telefone.
Ele falava de um tal de Marcin, cobrava informações e parecia estar prestes a perder a paciência de vez.
Fiquei quietinha até o áudio terminar.
Depois, arregalei os olhos.
— Gente, esse homem mandou isso para o número errado!
Eu não conhecia nenhum Marcin e muito menos sabia de quais informações ele estava falando.
Mesmo assim, não pude deixar de reparar na voz.
Minha nossa senhora!
Que voz era aquela?
Grave, firme e com aquele tom de quem estava acostumado a ser ouvido. O homem parecia carregar uma autoridade natural até quando estava irritado.
Senti um arrepio estranho e imediatamente balancei a cabeça.
— Maju, tenha vergonha! O homem está praticamente brigando com alguém e você prestando atenção na voz?
Pois é. Eu mesma precisei me dar uma bronca.
Mas a voz era bonita, fazer o quê?
Decidi responder porque, apesar de gostar de uma brincadeira, fui criada para tratar as pessoas com educação.
Gravei um áudio explicando que ele havia errado o número e enviei.
Imaginei que ele pediria desculpas e a conversa terminaria ali.
Só que o sujeito demorou uma eternidade para responder.
Enquanto isso, terminei minha maquiagem, ajeitei o cabelo e fui escolher os sapatos.
Quando voltei a olhar para o celular, havia uma mensagem.
EDUARDO: Foi mal aí. Qual é o seu nome?
Olhei para a tela e soltei uma risada.
O homem tinha me mandado um áudio daqueles, eu avisei que ele havia errado o número e agora ele queria saber meu nome?
Ah, não!
Eu podia até ser educada, mas também não era obrigada a facilitar a vida de desconhecidos.
EU: Gata.
A resposta dele veio logo depois.
EDUARDO: Oxe! Você me manda mensagem e quer saber meu nome?
Comecei a rir.
O homem estava tão cheio de marra que parecia não acreditar que alguém pudesse responder à altura.
EU: Ué, você que me mandou mensagem querendo saber meu nome. Eu, hein!
A conversa continuou, e descobri que ele se chamava Eduardo.
Não que isso fosse mudar alguma coisa na minha vida.
Eu não conhecia aquele homem, não sabia de onde tinha surgido e, pelo tom das mensagens, ele parecia ter acordado com a paciência em falta.
Ainda assim, era divertido provocá-lo.
Ele perguntava uma coisa, eu respondia outra. Ele tentava manter a pose, e eu fazia questão de bagunçar tudo.
Quando finalmente avisei que precisava sair, o bonito resolveu querer saber aonde eu ia.
Foi aí que percebi que a conversa estava ficando engraçada demais.
EDUARDO: Opa! Vai aonde?
Eu quase deixei o celular cair de tanto rir.
Olha a audácia!
O homem tinha acabado de me conhecer e já estava querendo saber dos meus passos.
EU: Se manca, bofe! Devo satisfação da minha vida a você?
Depois disso, deixei o celular de lado.
Não tinha tempo para ficar dando atenção a um desconhecido cheio de perguntas. Minhas amigas estavam me esperando, e eu não pretendia chegar atrasada por causa de uma conversa aleatória.
Terminei de me arrumar, tirei algumas fotos e escolhi a melhor para postar no status.
Fiquei satisfeita com o resultado.
Linda, cheirosa e pronta para causar inveja nas inimigas.
Peguei a bolsa, conferi se estava com a chave de casa e saí.
A noite era nossa!
Cheguei à choperia do centro e encontrei as meninas perto de uma das mesas. Elas estavam conversando animadamente, e uma delas já levantou a mão quando me viu.
— Até que enfim, criatura! Pensei que você fosse passar a noite inteira se maquiando!
— Inveja é uma coisa muito feia, viu? — respondi, dando um beijo nela. — Eu preciso manter o padrão de beleza desse grupo.
— Ah, pronto! Chegou a convencida!
— Convencida, não. Realista.
Todas começaram a rir.
Sentei com elas, pedi minha bebida e finalmente relaxei. A música estava boa, o ambiente animado e eu estava precisando exatamente daquilo.
Foi quando meu celular vibrou dentro da bolsa.
Peguei o aparelho sem imaginar que o desconhecido voltaria a aparecer.
Mas lá estava ele.
SURTADO RESPONDEU AO SEU STATUS.
Li a notificação e arregalei os olhos.
Surtado?
Eu tinha salvado o número daquele jeito sem nem perceber? Ou o próprio aplicativo estava debochando da minha cara?
Abri a mensagem.
SURTADO: Vai pra onde?
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.
Depois, soltei uma gargalhada.
— Não é possível!
Uma das meninas se inclinou na minha direção.
— O que foi, Maju?
— Nada, mulher. Só um maluco que apareceu no meu celular.
— Maluco bonito?
Olhei para ela, indignada.
— Eu nem sei quem é o homem!
— Mas respondeu?
— Ainda não.
Ela começou a rir, e eu voltei a olhar para a mensagem.
O tal Eduardo tinha visto meu status e, aparentemente, decidido que precisava saber aonde eu estava indo.
Que coisa!
Visualizei e não respondi.
Pronto. Problema resolvido.
Ou pelo menos era o que eu pensava.
Pouco depois, o celular vibrou novamente.
Dessa vez, era um áudio.
Coloquei o aparelho perto do ouvido e apertei para ouvir.
— Vai ficar negando voz?
Meu Deus!
O homem tinha uma voz que parecia ter sido feita especialmente para provocar confusão na cabeça de uma mulher.
Fechei os olhos por um instante.
Uii!
Aquela voz era um perigo, e eu nem sabia o rosto dele direito.
Mas não ia dar esse gostinho ao sujeito.
Gravei um áudio, tentando manter a maior naturalidade do mundo.
— A noite é uma criança, bofe!
Enviei e comecei a rir sozinha.
Pronto. Agora ele que lidasse com aquilo.
Guardei o celular na bolsa e voltei a prestar atenção nas meninas. Uma música animada começou a tocar, e logo estávamos todas cantando e rindo, sem nos preocuparmos com mais nada.
Eu queria aproveitar cada segundo.
Só que, de vez em quando, minha cabeça insistia em voltar àquela voz.
Era irritante.
O homem tinha sido todo cheio de marra desde a primeira mensagem, mas havia alguma coisa nele que despertava minha curiosidade.
Talvez fosse justamente o jeito como tentava parecer sério enquanto eu fazia questão de provocá-lo.
Ou talvez fosse apenas a voz.
Não, Maju. Não inventa história.
Eu nem sabia quem era Eduardo, e ele não sabia absolutamente nada sobre mim.
Além disso, eu não estava procurando um relacionamento. Queria estudar, cuidar das minhas coisas, aproveitar meus momentos de descanso e deixar a vida acontecer sem complicação.
Um desconhecido que me chamava para conversar e depois queria saber aonde eu ia não estava nos meus planos.
Muito menos um que eu havia conhecido por engano.
Peguei o celular para conferir as horas e vi que ele tinha respondido ao meu áudio.
SURTADO: Estou falando. Esse bofe é coisa séria.
Mordi o lábio para segurar a risada.
Logo em seguida, chegou outra mensagem.
SURTADO: Você gosta de provocar, né?
Dessa vez, nem pensei muito antes de responder.
EU: E você gosta de passar vergonha. Estamos quites.
Enviei, bloqueei a tela e voltei para a conversa com as meninas.
— Maju, você está sorrindo para esse celular há um tempão — uma delas comentou, estreitando os olhos. — Conta logo. Quem é o bonito?
— Bonito coisa nenhuma! É um surtado.
— Ah, então é bonito.
— Mulher, você está entendendo tudo errado!
Elas caíram na gargalhada, e eu acabei rindo também.
A verdade era que eu não sabia explicar por que aquela conversa estava me divertindo tanto.
Mas uma coisa eu podia garantir: se o homem achava que ia me impressionar com aquela voz e aquele jeito mandão, estava muito enganado.
Eu podia até admitir que a voz era maravilhosa.
Só não precisava contar isso a ele.
Ainda.
@MAJU
A noite é uma criança.
E eu pretendia aproveitar cada minuto dela.
Só não imaginava que, do outro lado daquela tela, havia um homem que já tinha começado a se perguntar quem eu era, onde estava e por que não conseguia parar de pensar em mim.
Mas isso era problema dele.
Pelo menos por enquanto.
Porque, se Eduardo era surtado, eu era dez vezes pior quando resolvia entrar em uma brincadeira.
E, pelo visto, aquela história estava apenas começando.
Continua...
