Capítulo 3 3
Narrado por Eduardo
Aquela garota tinha me dado a maior cortada e me deixado falando sozinho.
Fiquei olhando para a tela do celular, tentando entender como uma mulher que eu nem conhecia conseguia ser tão atrevida. A criatura tinha resposta para tudo! E o pior era que parecia se divertir com a minha indignação.
— Não é possível uma coisa dessas — resmunguei, jogando o celular sobre a cama.
Eu estava acostumado a conversar com pessoas que mediam as palavras antes de falar comigo. Algumas faziam isso por respeito, outras por medo, e havia aquelas que simplesmente queriam alguma coisa.
Mas Maju?
Maju parecia não estar nem aí.
Ela me chamava de bofe, me mandava me colocar no meu lugar e encerrava a conversa quando bem entendia. Como se eu fosse um qualquer que tinha aparecido no celular dela para atrapalhar sua noite.
E, para completar, ainda tinha aquela voz.
Rapaz, que voz!
Eu precisava parar de pensar naquela mulher antes que começasse a passar vergonha sozinho dentro daquela cela.
Peguei o celular novamente e chamei um dos meus contatos de confiança. Pedi que verificasse a quem pertencia o número, sem fazer qualquer tipo de abordagem. Eu queria saber quem era a dona daquela voz que tinha aparecido na minha vida por acidente.
Talvez minha curiosidade fosse maior porque nunca ninguém havia falado comigo daquela maneira logo no primeiro contato.
A garota chegou sem pedir licença, bagunçou minha paciência e foi embora como se não tivesse feito absolutamente nada.
Confesso que gostei.
Mas não ia render. Não podia render.
Eu estava preso, tinha responsabilidades demais e não precisava arrumar mais uma preocupação para ocupar minha cabeça.
Era o que eu dizia a mim mesmo, pelo menos.
Enquanto esperava as informações, voltei ao trabalho. Ainda precisava terminar de conferir a lista que meu sub havia enviado, e aquilo estava longe de ser divertido.
As cobranças se acumulavam, as respostas demoravam e, quanto mais eu olhava para os números, mais vontade tinha de estar do lado de fora resolvendo tudo pessoalmente.
Passei boa parte da noite ocupado.
De vez em quando, pegava o celular para conferir as mensagens, mas não havia nada novo de Maju.
Até que ela resolveu aparecer novamente.
A garota tinha publicado mais dois status com uma amiga. As duas estavam bonitas, sorridentes e aparentemente aproveitando a noite sem preocupação nenhuma.
Fiquei olhando para as fotografias por alguns segundos.
— Bonitas, hein...
Balancei a cabeça e fechei a tela.
Não respondi a nenhuma publicação. Não queria parecer um sujeito desesperado por atenção, ainda mais porque eu não estava desesperado coisa nenhuma.
Só estava curioso.
Era diferente.
Pelo menos na minha cabeça, era.
Continuei resolvendo as pendências até terminar tudo. Quando finalmente olhei as horas, já era madrugada, e eu estava cansado como se tivesse passado o dia inteiro carregando pedra.
Deitei, passei a mão pelo rosto e soltei um suspiro.
Eu precisava dormir.
Só que, antes de conseguir fechar os olhos, o celular vibrou.
Olhei automaticamente para a tela.
Era ela outra vez.
Maju havia publicado um novo status.
Abri a fotografia.
A desgraçada era bonita demais!
Fiquei alguns segundos observando aquela imagem, tentando entender como uma mulher podia parecer tão tranquila e, ao mesmo tempo, provocar tanta curiosidade em alguém que mal sabia seu sobrenome.
O sorriso dela era bonito, e havia alguma coisa espontânea naquela foto que me fez olhar por mais tempo do que deveria.
— Você está ficando maluco, Eduardo — falei para mim mesmo.
Mas, em vez de fechar a publicação, resolvi responder.
EDUARDO: Boa noite, abusada.
Esperei um pouco.
A resposta chegou.
MAJU: Boa noite.
Sorri de canto.
Pelo menos ela não tinha me mandado embora logo de cara.
EDUARDO: Se divertiu muito?
MAJU: Muito! E você, o que faz de bom?
Olhei para as paredes da minha cela.
Depois para a cama.
Depois para o teto.
O que eu fazia de bom?
Uma pergunta simples, mas a resposta verdadeira não era exatamente o tipo de coisa que eu pretendia contar para uma desconhecida.
EDUARDO: Deitado, só.
MAJU: Todo misterioso você, né?
Soltei uma risada baixa.
Misterioso era uma maneira muito gentil de descrever a situação.
EDUARDO: Impressão sua.
MAJU: Sei...
EDUARDO: Está duvidando de mim?
MAJU: Eu? Imagina! Você parece ser um livro aberto.
Passei a língua pelos lábios, tentando segurar o sorriso.
Aquela garota não perdia uma oportunidade.
EDUARDO: Você não presta, né?
MAJU: Presto sim. Sou um amor de pessoa.
EDUARDO: Percebi. Uma delicadeza sem tamanho.
MAJU: Obrigada pelo reconhecimento, bofe.
Fechei os olhos por um instante.
Lá vinha ela com aquela história de bofe outra vez!
EDUARDO: Maju, pelo amor de Deus, arruma outro apelido para mim.
MAJU: Mas eu gostei desse.
EDUARDO: E eu não gostei.
MAJU: Que pena. Vou continuar usando.
Eu ri sozinho, sem conseguir evitar.
A conversa seguiu por mais um bom tempo. Falamos sobre coisas banais, trocamos algumas provocações e, de vez em quando, ela fazia uma pergunta que me deixava na dúvida sobre o quanto deveria responder.
Maju queria saber se eu trabalhava muito, se gostava de sair e por que parecia estar sempre acordado.
Eu respondia sem entregar detalhes demais.
Não era apenas questão de segredo. Eu sabia que, se ela descobrisse quem eu realmente era, provavelmente me bloquearia sem pensar duas vezes.
Talvez fosse melhor manter as coisas daquele jeito por enquanto.
Ela era uma desconhecida divertida que tinha aparecido no meu celular por engano. Não precisava saber nada além do que eu estivesse disposto a contar.
E eu também não precisava me envolver.
Só conversar um pouco.
Era isso.
Quando finalmente encerramos a conversa, percebi que estava sorrindo havia vários minutos.
Aquilo era novidade.
Fazia tempo que uma conversa tão simples não me distraía dos problemas que eu carregava. Por algumas horas, consegui esquecer as paredes da cela, a demora dos dias e a sensação sufocante de estar preso.
Maju não sabia que estava me ajudando a esquecer tudo aquilo.
E eu não pretendia contar.
Naquela noite, dormi pensando na voz dela e no jeito debochado com que respondia às minhas mensagens.
No dia seguinte, acordei com o alarme do celular tocando.
Abri os olhos devagar e encarei o teto.
— Mais um dia nesse lugar...
Levantei, lavei o rosto e comecei a conferir as mensagens. Havia algumas informações do meu pessoal, além de assuntos que precisavam ser resolvidos. Respondi ao que era urgente e passei as orientações necessárias.
A rotina não esperava por ninguém.
Nem mesmo por mim.
Quando terminei, entrei nas redes sociais por alguns minutos.
E lá estava ela.
Maju tinha publicado outro status.
@MAJU
De hoje já está pago.
A fotografia mostrava a garota com uma expressão satisfeita, como se tivesse decidido que aquele novo dia começaria do jeito que ela queria.
Fiquei olhando para a imagem e balancei a cabeça.
Bonita, novinha e, pelo pouco que eu já tinha descoberto, parecia ser uma mulher tranquila, que estudava e corria atrás das próprias coisas.
Eu gostava disso.
Não tinha paciência para gente que vivia esperando que os outros resolvessem tudo. Maju transmitia a impressão de que sabia cuidar da própria vida.
E isso me chamou a atenção.
Pouco depois, ela publicou outro status.
@MAJU
Partiu, faculdade!
Olhei para a tela.
Depois para o relógio.
A garota já estava começando o dia, enquanto eu continuava preso naquele lugar, contando as horas para poder sair.
Não vou mentir: bateu uma pontinha de inveja.
Ela podia estudar, encontrar as amigas, passear e fazer os próprios planos. Eu precisava organizar minha vida através de um celular e esperar o momento em que finalmente conseguiria voltar para a rua.
Talvez fosse por isso que eu gostasse tanto de acompanhar aquelas pequenas partes do dia dela.
Maju estava vivendo.
E eu, de alguma forma, conseguia esquecer um pouco a minha situação quando conversava com ela.
Mas não me contive.
Abri a conversa e mandei uma mensagem.
EDUARDO: Gata, boa aula, abusada.
Assim que enviei, fiquei esperando a resposta.
Ela visualizou.
Alguns segundos depois, apareceu a mensagem.
MAJU: Se manca, bofe. Obrigada.
Fiquei encarando a tela.
Depois soltei uma risada desacreditada.
— Essa menina ainda vai acabar comigo!
Era impressionante.
Eu tentava ser simpático, desejava uma boa aula e recebia uma resposta dessas.
Qualquer outra pessoa teria agradecido normalmente. Maju precisava colocar uma provocação no meio, como se fosse incapaz de conversar sem me tirar do sério.
E eu, feito um idiota, continuava achando graça.
Dessa vez, resolvi não responder.
Não porque estivesse ofendido, mas porque precisava me lembrar de que tinha mais o que fazer além de ficar trocando mensagens com uma mulher que mal conhecia.
Bloqueei a tela e voltei aos meus assuntos.
Ainda assim, a frase dela continuou ecoando na minha cabeça.
Se manca, bofe.
— Abusada demais, essa garota.
Passei a manhã ocupado, mas, de vez em quando, meus olhos procuravam o celular quase automaticamente. Eu queria saber se ela publicaria alguma coisa nova, se mandaria outra mensagem ou se simplesmente desapareceria durante o resto do dia.
Não fazia sentido.
Eu não conhecia aquela mulher. Não sabia nem se ela estava solteira. Não tinha ideia de quais eram seus planos ou o que esperava da vida.
E, mesmo assim, estava começando a me importar com pequenas coisas sobre ela.
Aquilo precisava ser controlado.
Eu não podia me dar ao luxo de perder o foco por causa de uma desconhecida, por mais bonita que fosse e por mais que sua voz tivesse ficado gravada na minha cabeça.
Meu celular vibrou novamente.
Peguei depressa.
Era uma mensagem do meu contato, com as informações que eu havia solicitado sobre o número de Maju.
Abri a conversa e comecei a ler.
Dessa vez, meu sorriso desapareceu aos poucos.
Não porque tivesse encontrado alguma coisa ruim, mas porque, finalmente, eu teria algumas respostas sobre a mulher que vinha ocupando meus pensamentos.
E, pela primeira vez desde aquela ligação por engano, percebi que talvez estivesse chegando a hora de descobrir quem era Maju de verdade.
Só precisava tomar cuidado.
Porque, se ela já conseguia bagunçar minha cabeça sem saber quem eu era, eu nem queria imaginar o que aconteceria quando nossos mundos finalmente se cruzassem.
Continua...
❤️
