Capítulo 4 4
Narrado por Eduardo
Hoje fazia três meses que eu conversava com aquela abusada.
Três meses!
Quem diria que uma mensagem enviada para o número errado acabaria se transformando em conversas quase diárias? No começo, eu só queria descobrir quem era a dona daquela voz. Depois, comecei a esperar pelas mensagens. Quando percebi, já estava acostumado com as provocações, as respostas atravessadas e as gargalhadas que aquela garota arrancava de mim.
Maju era curiosa demais, meu Deus do céu!
A mulher queria saber de tudo. Onde eu estava, o que fazia, por que sumia, por que demorava para responder e por que nunca aparecia em lugar nenhum.
Quando eu tentava desconversar, ela inventava mil teorias.
E o pior era que, às vezes, acertava algumas delas.
Eu rachava o bico com aquela menina. Ela me gastava sem dó, me chamava de bofe e ainda fazia parecer que a pessoa errada naquela história era eu.
Mas, naquela segunda-feira, havia uma diferença.
Na quarta-feira seria meu julgamento.
Depois de seis meses atrás das grades, finalmente existia a possibilidade de sair dali. Meu advogado estava confiante, as coisas tinham sido encaminhadas e eu estava esperançoso de que tudo desse certo.
Não queria criar expectativas demais, mas era impossível não pensar na liberdade.
Eu queria voltar para casa, respirar sem aquelas paredes por perto e resolver pessoalmente tudo o que havia ficado pendente.
E tinha outra coisa.
Eu não queria continuar escondendo de Maju que estava preso.
Durante aqueles três meses, inventei desculpas quando ela perguntava por que eu nunca podia encontrá-la. Não menti sobre quem eu era de verdade, mas também não contei toda a história.
Só que aquilo precisava mudar.
Se eu saísse na quarta-feira, queria conversar com ela sem rodeios. Não ia enganar a garota nem criar uma expectativa baseada em meias verdades.
Se ela aceitasse continuar falando comigo depois de saber a situação, ótimo.
Se preferisse se afastar, eu respeitaria.
Pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo.
Peguei o celular e abri nossa conversa.
EU: Gata, está por onde, surtada?
A resposta veio pouco depois.
MAJU: Na praia, bofe.
Sorri sozinho.
EU: Vai parar com essa porcaria de me chamar de bofe, não?
MAJU: Surto é livre. Está tudo bem por aí?
EU: Estou de boa. Querendo bater um papo contigo.
MAJU: Ih, não tenho dinheiro para emprestar, não, viu? KKKKKK.
Passei a mão pelo rosto.
Aquela criatura não tinha jeito!
EU: Se manca, garota!
MAJU: Estou te zoando, surtado. Diga lá.
Fiquei alguns segundos olhando para a tela, pensando em como começar.
Não era uma conversa qualquer. Eu precisava contar uma coisa importante, e não queria que ela descobrisse por outra pessoa ou imaginasse que eu estava brincando com seus sentimentos.
EU: Quero te contar umas paradas.
A resposta veio quase imediatamente.
MAJU: Matou quem, hein?
Soltei uma gargalhada.
— Essa menina não existe!
Eu tentava criar um clima sério, e ela parecia empenhada em transformar tudo em piada.
EU: Para de graça, Maju. Estou falando sério.
MAJU: Agora fiquei curiosa. Desembucha, homem!
Fiquei olhando para o celular.
Poderia escrever tudo, mas sabia que acabaria apagando metade das frases. Então resolvi mandar um áudio.
Respirei fundo e apertei o botão.
— Maju, vou te contar uma parada e quero que você me escute até o final, beleza? Eu não te falei isso antes porque não sabia como você ia reagir, mas não quero ficar escondendo de você. Eu estou preso há seis meses. Fui detido durante um confronto e, desde então, estou aguardando meu julgamento. Ele vai acontecer na quarta-feira. Meu advogado acredita que tenho boas chances de sair, mas ainda preciso esperar a decisão. Eu sei que isso é uma surpresa e que você pode ficar chateada por eu não ter contado antes. Só não queria continuar conversando contigo sem você saber da verdade. Não estou te contando para conseguir alguma coisa, nem espero que você resolva nada para mim. Só acho que você merece saber com quem está falando.
Enviei o áudio e larguei o celular sobre a cama.
Pronto.
Estava feito.
Agora era esperar.
O problema foi que Maju começou a aparecer e desaparecer da conversa.
Primeiro, ficou digitando.
Depois, apareceu que estava gravando um áudio.
Nada.
Ficou on-line novamente, e eu comecei a imaginar mil possibilidades.
Talvez tivesse me bloqueado.
Talvez estivesse mostrando a conversa para as amigas.
Talvez estivesse procurando meu nome na internet.
Ou talvez simplesmente estivesse tentando entender tudo aquilo.
Fiquei quieto, sem mandar outra mensagem.
Eu sabia que essa reação era possível. Não tinha o direito de cobrar uma resposta imediata, muito menos de exigir que ela aceitasse a situação sem questionar.
Quando finalmente chegou um áudio, coloquei o celular perto do ouvido.
A voz dela saiu mais séria do que eu estava acostumado a ouvir.
— Eduardo, estou surpresa, claro. Muito surpresa, para ser sincera. Mas, por um lado, fico feliz que você tenha confiado em mim para contar. Só que isso não apaga a minha vontade de te dar umas porradas por ter escondido uma coisa dessas!
Fiquei parado.
Ela continuou:
— Se manca, bofe! Vai sair quando daí? E nem pense que eu vou te visitar, viu?
Apertei os lábios.
Era inacreditável.
Eu tinha acabado de contar uma das coisas mais delicadas da minha vida, e a mulher ainda encontrava espaço para me ameaçar de brincadeira.
Ou pelo menos eu esperava que fosse brincadeira.
Ouvi o áudio novamente.
E outra vez.
Não sabia se ria ou se ficava indignado.
Antes que eu respondesse, chegou outro áudio.
— Agora me diz uma coisa: quantos anos você tem? E me manda uma foto sua. Já que estamos nessa de contar verdades, quero ver a cara desse homem misterioso!
Ri e balancei a cabeça.
Era muito abusada.
Respondi minha idade e tirei uma fotografia. Não fiz pose nem tentei parecer mais bonito do que era. Mandei a imagem e esperei.
O que veio depois foi uma sequência de emojis.
Carinhas de velhinho.
Várias!
Olhei para a tela, ofendido.
— Ah, não! Essa garota está pedindo para arrumar confusão.
MAJU: Um coroa desses, cara! KKKKKKK.
EU: Larga de ser abusada, garota!
MAJU: Te manca, bofe. Qual é o seu morro? Vou lá curtir um baile!
Meu sorriso desapareceu na mesma hora.
Aquela menina estava de brincadeira comigo.
EU: Você não vai a lugar nenhum!
MAJU: Ué, por quê? Pelo que você disse, é casado? Porque eu já estou achando que você está levando chifre, hein!
Arregalei os olhos.
— Essa mulher perdeu a noção!
MAJU: Vou lá dançar com os crias. Quem sabe encontro um novinho que não fique me chamando de abusada.
Fiquei olhando para a mensagem, sem acreditar.
Ela estava me provocando de propósito. Só podia ser isso.
Eu sabia que Maju gostava de brincar, mas, depois de descobrir que eu estava preso, parecia ter decidido que agora tinha material suficiente para me infernizar pelo resto da vida.
E o pior?
Estava conseguindo.
Não respondi. Se continuasse aquela conversa, acabaria falando alguma coisa de cabeça quente.
Mas as palavras dela ficaram rondando minha mente.
Ela não ia a baile nenhum no meu morro para ficar dançando com os meus crias. Não enquanto eu estivesse preso e sem poder sequer aparecer por lá.
Não que eu tivesse o direito de decidir onde ela poderia ir. Eu sabia disso.
Maju era livre para fazer o que quisesse, e nós nem sequer tínhamos nos encontrado pessoalmente.
Só que imaginar aquela mulher chegando ao Alemão, toda bonita e debochada, chamando todo mundo de querido e me deixando para trás era suficiente para despertar um ciúme que eu não tinha autorização nenhuma para sentir.
Que situação ridícula!
Eu, Eduardo, que sempre tive problemas muito maiores para resolver, estava ali, dentro de uma cela, incomodado com a possibilidade de uma mulher que conheci por engano ir dançar.
Precisava recuperar o juízo.
Foi quando ela publicou outro status.
Abri a imagem.
Maju estava linda, com aquela expressão confiante e um sorriso que parecia anunciar que estava pronta para aprontar alguma coisa.
A legenda dizia:
@MAJU
Maloqueira.
Soltei um suspiro.
— Essa menina ainda vai me deixar maluco.
Não consegui evitar uma resposta.
EDUARDO: Minha patroa.
A resposta dela veio tão depressa que parecia estar esperando.
MAJU: Te manca, bofe! Está achando que eu tenho cara de ser a outra? Vai dormir, que já está na hora de coroa descansar.
Fiquei olhando para o celular, indignado.
EU: Maju!
Ela mandou um beijo em seguida.
MAJU: Beijooooo, bebê!
Joguei a cabeça para trás e ri.
Era impossível ficar sério com aquela garota.
Mas, quando a risada passou, fiquei olhando para a fotografia mais uma vez.
Eu estava começando a perceber que aqueles três meses tinham mudado alguma coisa em mim. Maju havia se tornado parte da minha rotina de um jeito que eu não esperava. Eu procurava suas mensagens, prestava atenção nos status e me pegava imaginando como seria ouvi-la pessoalmente.
Era cedo para dar nome ao que eu sentia.
Talvez fosse apenas curiosidade, carência ou a necessidade de ter alguma coisa boa para esperar enquanto permanecia preso.
Talvez fosse um pouco de tudo.
O que eu sabia era que não queria continuar escondendo a verdade dela.
Na quarta-feira, eu descobriria se finalmente teria uma chance de sair daquele lugar.
E, se tudo desse certo, talvez chegasse a hora de transformar aquelas conversas em um encontro de verdade.
Eu só precisava descobrir como faria isso sem levar mais uma sequência de desaforos.
Porque, pelo visto, conquistar Maju seria muito mais complicado do que eu havia imaginado.
E aquela abusada ainda nem tinha me visto pessoalmente.
Continua...
