Capítulo 5 5
Narrado por Maju
Se eu disser que não fiquei surpresa com o que Eduardo me contou, vou estar mentindo descaradamente.
Eu fiquei surpresa para caramba!
Como assim o homem com quem eu conversava havia três meses estava preso? E como assim eu não tinha percebido nada?
Tá, ele era misterioso, vivia desconversando quando eu perguntava sobre sua rotina e nunca parecia estar disponível para fazer qualquer coisa. Mas, sinceramente, eu achava que era apenas o jeito dele.
Agora tudo fazia sentido.
Ou quase tudo, porque ainda havia muitas coisas que eu não sabia sobre aquele homem.
Mesmo assim, continuei conversando com ele normalmente. Nunca fui de julgar alguém sem conhecer sua história, muito menos de tratar uma pessoa de maneira diferente por causa de sua situação.
Ele tinha me contado a verdade, e eu valorizava isso.
Só não significava que eu fosse parar de tirar onda com a cara dele.
Porque, vamos combinar, Eduardo facilitava demais a minha vida nesse sentido.
O homem perdia a linha rapidinho!
Era só eu chamá-lo de bofe, fazer uma brincadeira ou insinuar alguma coisa que ele já vinha com aquele jeito indignado que me fazia rir até a barriga doer.
E, depois de descobrir a idade dele, minha vontade de provocar só aumentou.
Um coroa daqueles, minha gente!
Olhei novamente para a fotografia que ele havia enviado e precisei me controlar para não sorrir feito uma boba.
Que homem bonito, pelo amor de Deus!
O rosto maduro, o olhar sério e aquela aparência de quem não tinha muita paciência para brincadeiras...
O problema era que eu adorava justamente essa última parte.
Eu conseguia imaginar a expressão dele quando lesse minhas mensagens, e aquilo me divertia mais do que deveria.
Só que eu não podia dar o braço a torcer.
De jeito nenhum!
Se aquele homem descobrisse que eu o achava bonito, nunca mais teria paz. Ia ficar convencido, cheio de marra e se achando o último chocolate da fábrica da minha família.
E olha que lá tinha chocolate de sobra!
Por isso, continuei agindo normalmente, como se a fotografia não tivesse provocado absolutamente nada em mim.
Ele que lutasse com a própria curiosidade.
Eu estava muito bem, obrigada.
Pelo menos era isso que eu tentava acreditar.
Naquela tarde, resolvi conversar com minha mãe.
Eu já havia comentado com ela sobre o homem misterioso com quem vinha trocando mensagens. Ela sabia que eu tinha conhecido alguém por engano e que, desde então, nossas conversas tinham virado uma espécie de diversão diária.
Só não tinha contado a parte mais importante.
Eduardo estava preso.
E eu conhecia minha mãe. Ela podia ser divertida, moderna e tranquila, mas continuava sendo minha mãe. Na cabeça dela, eu sempre seria a menina que precisava de proteção, mesmo depois de crescer.
Fui até a sala, onde ela estava conferindo alguns documentos da fábrica.
— Mãe, posso conversar com você?
Ela levantou os olhos imediatamente.
— Claro, minha filha. Aconteceu alguma coisa?
Sentei ao lado dela e comecei a mexer nos dedos.
— Então... lembra daquele homem de quem eu te falei?
Minha mãe largou os documentos.
— O bonito da ligação errada?
Arregalei os olhos.
— Mãe!
— Ué! Você não me contou que ele tinha uma voz bonita? Eu só estou acompanhando a história, menina.
Comecei a rir, mas logo voltei a ficar séria.
— É que descobri uma coisa sobre ele.
Contei tudo. Expliquei que Eduardo estava preso havia seis meses, que teria uma audiência no dia seguinte e que, apesar de termos conversado por tanto tempo, ele só havia me contado a verdade agora.
Minha mãe ouviu sem me interromper.
Eu, por outro lado, já estava me preparando mentalmente para o sermão.
Tinha certeza de que ela me perguntaria por que eu estava conversando com um homem que não conhecia direito, por que não havia investigado melhor a situação e se eu tinha perdido completamente o juízo.
Mas a primeira coisa que ela fez foi estender a mão.
— Me mostra a foto dele.
Fiquei olhando para ela.
— O quê?
— A foto, Maju! Você acha que eu vou formar uma opinião sem conhecer a cara do cidadão?
Entreguei o celular, ainda desconfiada.
Minha mãe observou a fotografia por alguns segundos. Depois arregalou os olhos e soltou:
— Poxa, minha filha! Eu te criei para isso? Que homem gato, pelo amor de Deus!
Fiquei de boca aberta.
— MÃE!
Ela começou a rir, devolvendo o celular.
— Ué, estou mentindo? O homem é bonito!
— Você não existe!
— E você está vermelha, menina!
Peguei uma almofada e escondi parte do rosto.
Eu esperava tudo, menos aquela reação.
Minha mãe tinha acabado de descobrir que eu conversava com um homem preso e sua primeira preocupação havia sido avaliar a beleza dele.
Era por isso que eu amava aquela mulher.
Ela era completamente imprevisível.
Depois de rir um pouco, minha mãe ficou mais séria e segurou minha mão.
— Agora vamos conversar direito.
Respirei fundo.
Lá vinha o sermão.
— Minha filha, você já é adulta e precisa aprender a tomar suas próprias decisões. Eu não vou escolher por você com quem deve conversar ou deixar de conversar. Mas quero que você preste atenção em algumas coisas.
Olhei para ela, ouvindo atentamente.
— Esse homem tem uma história que você ainda não conhece por completo. Ele pode ser uma pessoa maravilhosa em alguns aspectos e ter cometido erros em outros. Você precisa descobrir quem ele realmente é, sem se deixar levar apenas pela aparência ou pelo jeito como ele conversa com você.
Assenti devagar.
— Eu sei, mãe.
— E outra coisa: não confunda gostar de alguém com aceitar tudo dessa pessoa. Se ele te respeitar, te tratar bem e for sincero com você, ótimo. Mas nunca permita que alguém te humilhe, te diminua ou tente controlar sua vida. Eu não te criei para viver com medo de homem nenhum.
Apertei a mão dela.
— Não vou permitir.
Minha mãe sorriu.
— Eu sei que não. Você tem personalidade suficiente para dar trabalho a qualquer cidadão.
Soltei uma gargalhada.
— Está me chamando de difícil?
— Estou dizendo que você puxou a mim!
As duas começaram a rir.
Depois, ela continuou:
— Eu já vivi muita coisa, minha filha. Conheci pessoas boas, pessoas complicadas e homens que pareciam maravilhosos até mostrarem quem eram de verdade. A vida ensina bastante, mas você não precisa cometer todos os meus erros para aprender.
Ela fez uma pausa antes de completar:
— Esse homem já é maduro. Talvez vocês combinem, talvez não. Se fosse um rapaz mais novo, talvez você enfrentasse outras dificuldades. Mas a idade, sozinha, não garante nada. O que importa é o caráter, o respeito e a maneira como ele te trata.
Fiquei quieta por alguns segundos.
Minha mãe tinha um jeito especial de falar as coisas. Conseguia brincar, me fazer rir e, logo depois, dizer algo que ficava guardado dentro de mim.
— Seja qual for a sua decisão, eu vou estar com você — ela concluiu. — Só quero que você seja feliz e nunca esqueça o seu valor.
Meus olhos ficaram marejados.
Levantei e a abracei com força.
— Eu te amo, sabia?
— Eu também te amo, minha menina. Agora, se esse homem sair da prisão e vier aqui em casa, quero conhecer o cidadão pessoalmente.
Afastei-me para olhar para ela.
— Mãe, ele nem saiu ainda!
— E eu já estou me adiantando. Vai que dá certo?
Comecei a rir novamente.
Minha mãe era incrível.
Ela já havia curtido muitos bailes, conhecido muita gente e vivido experiências que eu só conhecia pelas histórias que contava durante o almoço. Sabia que a vida não era um conto de fadas e que nem todo homem bonito era um príncipe.
Mas também sabia que eu precisava viver minhas próprias experiências.
E, naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar era que gostaria de estar ao lado de Eduardo no dia seguinte.
Não sabia explicar o motivo.
Talvez eu quisesse demonstrar apoio. Talvez estivesse preocupada com o resultado da audiência. Ou talvez estivesse começando a me importar com ele de uma maneira que ainda não conseguia admitir.
Só de pensar nisso, senti um friozinho na barriga.
— Não, Maju. Para com isso! — murmurei para mim mesma.
Minha mãe ouviu.
— Está falando sozinha agora?
— Estou pensando alto!
— Sei. Pensando no coroa bonito, né?
— MÃE!
Ela caiu na gargalhada.
Eu precisava urgentemente sair daquela sala.
Mais tarde, peguei o celular e abri nossa conversa.
A audiência de Eduardo seria na quarta-feira, e eu estava curiosa para saber como ele estava se sentindo.
Por mais que eu brincasse, imaginava que não deveria ser fácil passar seis meses preso, esperando por uma decisão que poderia mudar completamente sua vida.
Fiquei olhando para o campo de mensagens durante alguns segundos.
Depois, criei coragem.
EU: Coroa surtado, boa sorte amanhã! Vai dar tudo certo.
A resposta chegou pouco depois.
EDUARDO: Obrigado, abusada.
Sorri.
Era estranho como uma mensagem tão simples podia me deixar aliviada.
Continuei olhando para a conversa e resolvi perguntar uma coisa que estava martelando na minha cabeça desde que ele havia contado a verdade.
EU: Sua mulher vai estar lá amanhã?
A resposta demorou um pouco.
EDUARDO: Ela nem está sabendo dessa parada.
Franzi a testa.
Como assim a mulher dele não sabia?
Antes que eu pudesse pensar muito, digitei:
EU: Como você não avisa? Vai ver os chifres de camarote, é?
Ele respondeu quase imediatamente.
EDUARDO: Já começou a me perturbar, né?
Mordi os lábios para segurar a risada.
Eu não conseguia evitar.
Mas, logo depois, respirei fundo e resolvi perguntar o que realmente queria saber.
EU: Queria ir ao seu julgamento... Será que posso?
Enviei a mensagem e fiquei encarando a tela.
Meu coração parecia ter acelerado sem motivo.
Eu estava mesmo considerando comparecer à audiência de um homem que nunca tinha visto pessoalmente.
Que loucura!
A resposta dele chegou alguns segundos depois.
EDUARDO: Lá não é lugar para tu. Mas daqui a pouco a gente se tromba.
Li a mensagem uma vez.
Depois, outra.
E senti meu sorriso desaparecer lentamente.
Não sabia o que esperava que ele dissesse. Talvez que ficasse feliz com a possibilidade de me ver. Talvez que me explicasse melhor por que eu não deveria ir.
Mas aquela resposta curta me deixou sem graça.
Fiquei olhando para o celular, sentindo uma pontinha de decepção que não queria admitir nem para mim mesma.
Eu só queria dar apoio.
Queria que ele soubesse que, apesar da surpresa, eu não havia desaparecido. Que continuava ali, conversando com ele, mesmo depois de descobrir uma parte tão importante da sua vida.
Mas talvez eu estivesse me precipitando.
Afinal, nunca tínhamos nos encontrado. Eu não sabia exatamente o que ele esperava de mim, e ele também não tinha obrigação de me incluir em um momento tão delicado.
Ainda assim, doeu um pouquinho.
EU: Tá bom.
Foi tudo o que consegui responder.
Depois, deixei o celular sobre a cama e me joguei nos travesseiros.
— Burra, Maju. Burra demais!
Eu nem sabia por que tinha perguntado aquilo.
Quer dizer, sabia.
Queria estar lá.
Queria olhar para ele e descobrir se aquela voz combinava mesmo com o homem da fotografia. Queria saber se ele ficaria feliz ao me ver ou se me mandaria embora com aquela cara séria que eu já conseguia imaginar perfeitamente.
Mas nada disso importava se ele não quisesse minha presença.
Virei de lado e abracei o travesseiro.
Eu não estava apaixonada.
Nem pensar.
Só estava curiosa, preocupada e um pouquinho chateada porque o cidadão havia cortado minha empolgação.
Era só isso.
Pelo menos, era o que eu repetia para mim mesma.
Peguei o celular mais uma vez, abri a fotografia dele e fiquei observando o rosto sério.
— Você ainda vai me dar trabalho, Eduardo.
Apaguei a tela e fechei os olhos.
No dia seguinte, ele enfrentaria uma das decisões mais importantes daqueles últimos meses.
E eu torcia para que tudo desse certo.
Mesmo que ele não soubesse.
Mesmo que eu não estivesse lá.
Porque, por mais que continuasse chamando aquele homem de coroa surtado, a verdade era que eu já não conseguia tratar aquela história como uma simples brincadeira.
E isso era justamente o que mais me assustava.
Continua...
