Capítulo 4

"Case comigo."

O quê?

Os olhos de Fabiola se arregalaram de novo. Aquele dia estava parecendo uma montanha-russa. Pensou que seria vendida para algum chefão da máfia, usada como moeda de troca nos negócios dele.

Mas jamais imaginou que ele pediria uma coisa daquelas.

Casamento?

Com ela?

Ele estava falando sério?

Fabiola só queria dar um jeito de fazer aquelas mulheres entenderem que não tinha nada com ele. Queria que parassem de perseguir ela. E Lorenzo queria que ela virasse esposa dele.

De repente, soltou uma gargalhada.

Só podia ser brincadeira. E, de qualquer forma, por que escolheria justamente ela?

"Você é podre de rico... Pode escolher qualquer mulher para essa piada. Por que eu?"

"Acho que porque você é atrevida o bastante. Sua determinação em me enfrentar, mesmo depois de tudo, me convenceu de que não desiste fácil. E, como deu para perceber, qualquer mulher que se envolve comigo acaba sendo atacada por outras. A maioria não aguenta. Mas você, resistente como uma barata, é a candidata perfeita para ocupar o posto de minha esposa."

Barata?

Fabiola ficou em silêncio. Aquele homem estava elogiando ou xingando?

Embora fosse verdade que faria qualquer coisa para sobreviver, casamento, para ela, era algo reservado a pessoas que se amavam. Não um tipo de negócio.

Já tinha imaginado incontáveis vezes que, em algum lugar, existia um príncipe capaz de enxergar, por trás da aparência maltrapilha dela, a pureza de seu coração. E, nesse momento, todo o sofrimento seria compensado.

Mas a realidade...

Talvez percebendo a hesitação dela, Lorenzo mudou de expressão de repente.

"Não quer sua pulseira de volta?"

Fabiola olhou para ele.

Claro que queria. Daria qualquer coisa para recuperar aquela pulseira.

"Case comigo, e a pulseira é sua."

Que desgraçado.

Fabiola cerrou os dentes e xingou por dentro.

"Tem certeza de que quer casar comigo? Já vou avisando: talvez eu seja um problema para você." Ela estava acostumada a esconder seu complexo de inferioridade por trás de uma atitude de blefe. Mesmo que Lorenzo tivesse deixado claro que só queria usar ela como escudo, ela ainda sentia que não era suficientemente boa para um homem como ele.

Sem falar que só tinha poucos dias de vida.

Embora sempre tivesse gostado de tirar pequenas vantagens, transformar um homem tão bonito em viúvo tão jovem não era algo que faria...

"Sim ou não? Responda. Esqueça o resto." Lorenzo franziu a testa, impaciente.

"E se eu morrer em um mês?" Fabiola decidiu dizer a verdade.

O quarto ficou em silêncio por alguns instantes.

Pois é. Que homem aceitaria se casar com uma mulher à beira da morte? Até casais que passaram a vida inteira juntos às vezes se afastavam quando um dos dois adoecia. Imagine aquele homem, que só queria usar ela como escudo.

"Bom, vou embora." Fabiola entendeu o significado daquele silêncio. Esfregou o nariz e se preparou para pegar a pulseira e sair.

Mas, assim que se virou, ouviu a voz dele.

"Melhor ainda."

Fabiola arregalou os olhos.

O que ele estava tramando?

Lorenzo continuou:

"Posso dizer ao público que você foi a mulher que mais amei na vida. Por isso, não pretendo me casar de novo. Resolvo o problema de uma vez por todas."

Fabiola logo entendeu a intenção dele.

Quase teve vontade de soltar um: "Aí sim, meu parceiro!"

Não esperava que, no fim da vida, ainda fosse acabar fazendo um favor a alguém.

Todas as preocupações desapareceram. Então decidiu aceitar a condição dele. Como se tivesse lembrado de algo, levantou a cabeça.

"Mas tenho outra condição, além de recuperar minha pulseira."

Ao ouvir aquilo, Lorenzo olhou para ela e assentiu, indicando que continuasse.

"Dinheiro. Preciso de dinheiro", anunciou.

Fabiola sabia que estava se aproveitando da situação. Sabia que parecia uma interesseira querendo se casar com alguém rico. Mas não se importava com o que os outros pensassem. Precisava de um tratamento melhor.

Tinha desistido do tratamento contra o câncer desde que chegou a Barcelona.

Decidira usar todo o dinheiro que restava para procurar os pais.

Agora que tinha a chance de conseguir tudo o que sempre quis, usaria o dinheiro dele para começar o tratamento e tentar viver mais tempo, pelo menos até encontrar a família.

"Quanto quer?" perguntou ele.

Ela mordeu o lábio inferior.

"Cerca de um milhão", disse, hesitante.

Com aquilo, poderia pagar um tratamento melhor e contratar mais detetives particulares para acelerar a busca pelos pais.

Esperava que Lorenzo tentasse negociar, forçando uma redução no valor. Mas ele apenas se virou e pegou um talão de cheques.

Fabiola ficou de boca aberta ao ver ele preenchendo um cheque.

Lorenzo colocou o cheque na mão dela, junto com a pulseira.

"Quando vamos providenciar a certidão de casamento?"

Ela ainda estava atônita por ter conseguido tanto dinheiro assim, tão fácil, num piscar de olhos.

"Quando você quiser, imagino." Ao recobrar os sentidos, tratou logo de agradar.

"Vamos resolver isso hoje. Depois, farei uma coletiva de imprensa para anunciar nosso relacionamento. Só precisa fingir ser minha esposa em público."

"Certo", respondeu, enquanto colocava a pulseira.

Já que não podia mudar o futuro, aceitar e encarar as coisas de frente era a regra que carregava desde os tempos em que vivia na favela.

Foi esse lema que sustentou Fabiola em muitos momentos difíceis.


Sentada ao lado de Lorenzo no Cartório, Fabiola começou a hesitar de novo.

Casamento era sagrado.

Na verdade, quando Lorenzo disse para esquecer o resto, ela se sentiu tocada e quase chorou. Foi a primeira vez que alguém foi gentil assim. Estava acostumada a depender apenas de si mesma.

Embora o bom senso gritasse que aquilo não passava de um acordo.

Tudo bem.

Fabiola apertou os dentes.

Agora ela tinha o dinheiro. Mas isso não significava que ela fosse curada. Se o seu futuro fosse tão incerto, por que se preocupar tanto?

No instante em que estava prestes a assinar o nome, o celular em sua mão tocou.

Ela encarou o identificador de chamadas.

Era o médico de Madri.

"Com licença, preciso atender", disse a Lorenzo.

"Seja rápida", respondeu ele, impaciente.

Fabiola assentiu e caminhou até um canto para atender.

"Alô..."

"Ah, Sra. Brosnan... Graças a Deus finalmente consegui completar a ligação. Estou tentando falar com a senhora há dias."

Ela engoliu em seco, imaginando qual seria o problema.

"A senhora não tem tumor cerebral... Foi um diagnóstico errado. Sentimos muito, Sra. Brosnan."

Fabiola se beliscou devagar para confirmar que não estava sonhando.

Olhou para o cheque de um milhão de dólares que tinha na mão e riu sem alegria.

Meu Deus. Aquilo parecia um golpe premeditado. Nem os roteiristas de Hollywood conseguiriam inventar uma história dessas.

"Sra. Brosnan? Sra. Brosnan? Está me ouvindo?"

"Você... está... está falando sério?"

"Sentimos muito pela dor e pela angústia que causamos com esse diagnóstico errado. Sentimos muito mesmo", desculpou-se o médico, cheio de arrependimento.

Sem esperar mais nenhuma explicação, Fabiola desligou.

Estava prestes a voltar e continuar a assinatura, mas parou.

Não tinha câncer. Então aquele casamento não era mais necessário. Sem falar que já tinha recuperado a pulseira.

Mandaria o cheque de volta para o Grupo Prestige anonimamente assim que se estabilizasse. Não aceitaria o dinheiro.

Embora precisasse de dinheiro para encontrar os pais, agora que estava saudável, podia ganhar com as próprias mãos.

Pensando nisso, não hesitou mais.

Ela se virou e saiu do Cartório.

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