15| Uma nova amizade
Eles sentaram em silêncio, a brisa suave acariciando suas peles e brincando com o cabelo de Mel. As tranças com contas de Lori eram pesadas demais para serem levantadas pelo vento leve, e por isso tilintavam, guiadas pelos leves movimentos da cabeça de Lori enquanto ela contemplava a paisagem à sua frente, um sorriso relaxado no rosto.
Mel olhava maravilhada. O sorriso era diferente dos inúmeros que Lori havia lhe dirigido mais cedo naquele dia. A mulher ao seu lado agora parecia estar em paz, e agora que Mel prestava mais atenção em sua acompanhante, Lori parecia ter uma certa beleza que Mel não havia visto em nenhuma outra mulher em Grime.
Ela tinha uma pele impecável com leves sardas na ponte do nariz afilado. Combinado com olhos cor de caramelo que combinavam com seu cabelo castanho, produzia uma combinação tão agradável que Mel não conseguia desviar o olhar. Pelo jeito de se vestir de Lori, a mulher parecia ser bem dotada também.
Mel olhou para seu próprio peito, quase plano em comparação ao de Lori. Ela nunca se importou com suas características, já que considerava ter "o suficiente". Mas isso poderia não importar agora que estava em uma terra diferente, com uma estrutura menor em comparação a essas pessoas. Não tinha ocorrido a ela antes que a conexão dos povos bestiais com seu animal espiritual influenciaria sua estrutura física.
'Alguma falta de atenção da minha parte, eu acho.'
Sua mente foi para Bjorn e seu coração deu um salto. Ela estava tão encantada com ele que não havia considerado os sentimentos dele na questão. Ela corou, envergonhada ao lembrar do momento em que ele a cumprimentou. Ela permaneceu quieta e olhou tão rudemente que Eustace teve que levá-la embora.
"Algum problema?" Lori perguntou.
Mel saiu de seus pensamentos e olhou para Lori. Ela mordeu os lábios e desviou o olhar antes de voltar a olhar para a mulher.
"Nada demais..." Mel esfregou a coxa. "Bem... Eu quero perguntar. Qual é o seu relacionamento com o chefe do clã?"
Lori olhou para Mel por um tempo, quando de repente suas sobrancelhas se ergueram como se estivesse começando a registrar a pergunta de Mel. "Bjorn?"
Mel parou, confusa com a reação de Lori. Para ela se referir ao chefe do clã pelo primeiro nome... Eustace não havia mencionado ter outro filho. Mas não custava perguntar, embora duvidasse que Lori tivesse qualquer relação com Bjorn. "Você é irmã dele?"
"Oh. Não, não, não." Lori balançou a cabeça com uma risada. "De jeito nenhum. Por favor, não se importe comigo. Eu só não estou acostumada a..." Um sorriso suave apareceu em seus lábios. "Eu não sei como dizer. Bjorn é um amigo de infância do meu marido e meu." Ela fez uma pausa e olhou para o céu. "Agora que você mencionou, não posso realmente dizer que o vejo como um líder de clã. Tudo o que penso é no animal teimoso com quem Dov e eu crescemos." Ela riu.
Uma onda de alívio tomou conta de Mel ao ouvir Lori mencionar um marido. A mulher era comprometida. Ela não precisava se preocupar com nada. Mel se repreendeu silenciosamente por pensar dessa maneira.
"Dov. Seu marido?" Mel perguntou.
Lori olhou de volta para Mel, radiante. "Sim! Ele não é tão extrovertido quanto eu—bem, nenhum dos dois é, mas me agrada saber o quanto Dov valoriza meu comportamento. Bjorn me chamou de sanguessuga em algumas ocasiões... Oh! Tenho certeza de que você gostaria de saber sobre Bjorn, você já conversou com ele?"
Um rubor envergonhado subiu às bochechas de Mel e ela desviou o olhar com um sorriso tímido. "Não. Não realmente."
"Awww. Não fique tão abatida com isso." Sua voz suavizou. "E eu aqui pensando que ele pelo menos seria gentil com você."
"Gentil?" Mel não achava que seu comportamento inadequado permitiria isso. Mas ela tinha um pensamento. "Ele não parecia ser uma pessoa gentil," ela sussurrou.
Como ela poderia ter esquecido? Bem nas escadas, ele usava algum tipo de carranca. Ele tinha sido apenas educado em seu cumprimento e Mel tinha caído por sua boa aparência como uma idiota.
O sorriso de Lori se alargou. "Oh, ele é. Você deveria vê-lo com seus homens e os outros ajudantes."
Mel se endireitou. "Eu notei os serv—ajudantes... Notei que não são muitos." Mel passou a mão pela coxa novamente. Era algo que a preocupava. Na mansão de seu pai, embora não fossem o clã mais rico, ainda tinham mais de cem servos trabalhando para seu pai. A casa de Bjorn tinha apenas alguns que saíram logo após trazerem suas coisas.
Lori coçou a nuca, seus lábios formando um sorriso envergonhado. "Alguns clãs em Orion... Aqui, não temos servos. Somos todos uma grande família, na verdade. Isso acontece em várias nações bestiais. Não na sua, imagino?"
Mel balançou a cabeça lentamente, desviando o olhar.
“Nossos ajudantes apenas auxiliam no cuidado da residência do chefe do clã. No entanto, há períodos em que a casa ficará apenas para você e Bjorn.” Lori lançou um olhar malicioso para Mel, e um calor repentino subiu às bochechas de Mel com a mensagem implícita nas palavras de Lori.
“Eu não sabia disso. Eu cresci com servos…” Mel abaixou o olhar, tentando mudar a discussão desse território desconhecido quando outro pensamento lhe ocorreu. “Se os ‘ajudantes’ não estarão disponíveis às vezes, quem cuidará da manutenção—”
“Oh. Desculpe, esqueci de mencionar. Eles virão e cuidarão da limpeza, mas em um horário fixo. Você mal os verá. E, claro, você terá que supervisionar o cronograma deles e o trabalho que fazem.”
Mel engoliu em seco. Em outras palavras, ela seria a nova senhora do clã. Suas palmas começaram a suar. Isso era algo que ela temia. Ela não se saiu bem em casa com essa tarefa específica. Da última vez que sua mãe deixou a mansão sob seus cuidados, uma das alas pegou fogo, levando Anton a cuidar da bagunça que ela havia feito.
Apesar de ser criticada por Harriett sobre aquele incidente, sua mãe ainda a deixou encarregada da mansão alguns anos depois. Nada de mais aconteceu então, mas parecia que os servos estavam mais no controle do que ela. Eles foram os que a ensinaram e organizaram as coisas sem sua ajuda. Embora isso deixasse um sentimento amargo dentro dela, ela se perguntava se seria o mesmo aqui.
Mel então balançou a cabeça, abandonando o pensamento. Ela estava carente de informações sobre o clã Grime, não podia se mostrar incompetente em gerenciar a casa de Bjorn.
“Desculpe. Eu deixei a conversa estranha, não foi?” Lori sussurrou, com um olhar distante enquanto encarava Mel.
“Não! De jeito nenhum.” Mel levantou a cabeça rapidamente. “Eu estava apenas perdida em pensamentos… Ser a esposa do líder do clã deve ser uma tarefa assustadora,” ela confessou.
“Eu continuo dizendo, Mel. Você logo fará parte da nossa família, e nós vamos te ajudar.” Lori se mexeu, aproximando-se de Mel. Ela segurou suas mãos com um toque quente, mãos ligeiramente maiores que as de Mel. “Eu realmente gostaria de ser sua amiga. Espero que você não se importe?”
Mel piscou, surpresa com a pergunta de Lori. “S—sim!” ela respondeu, então com a voz mais baixa, continuou, “Eu não me importo. Eu—” Os olhos de Mel se encheram de lágrimas e ela parou em estado de choque. “Eu—” ela gaguejou, incapaz de tirar as palavras da garganta enquanto os sentimentos reprimidos escapavam.
A maioria de suas amigas havia se mudado para as casas dos maridos e estavam ocupadas demais para visitá-la. Quando ela fazia visitas às casas delas, estavam focadas demais em qualquer criança que tivessem, e assim ela se resignou aos limites de sua casa. Não só estava angustiada por partir tão repentinamente, mas sua família também não pôde vir ao casamento. Agora, aqui estava ela, uma estranha em outra terra, ansiosa e com medo do que o futuro lhe reservava. Mas Lori havia estendido a mão para ela.
Ela não estaria sozinha.
Mel desabou e chorou suavemente, levando a mão para cobrir a boca. Seus ombros tremiam e um fluxo incompreensível de palavras escapava de seus lábios abafados. Mel estava simplesmente expressando o que sentia. Ela repetidamente pedia desculpas a Lori por seu comportamento vergonhoso. Se Harriett a visse agora, talvez recebesse uma bronca. Ela estava em público, mas felizmente, estavam na beira do assentamento do clã, com os donos da loja atrás delas como os únicos possíveis testemunhas.
Sem dizer mais nada, como se soubesse quando ficar em silêncio e quando falar, Lori puxou Mel para seus braços e confortou a jovem. Elas permaneceram assim por um tempo considerável. Mel havia parado de chorar, mas continuava aninhada no caloroso abraço de Lori, seu peito doendo com o alívio de suas emoções.
“Desculpe por me comportar assim,” Mel sussurrou, afastando-se gentilmente de Lori. Ela se encolheu e se mexeu, olhos frenéticos procurando algo para limpar o rosto. Ela teria usado as mangas do vestido para pelo menos enxugar as lágrimas, mas o muco escorrendo pelo nariz era outro problema angustiante.
‘Não… O que eu vou fazer agora?’
Mel se virou para Lori, prestes a pedir se ela poderia ajudá-la a solicitar alguns lenços da loja, quando Lori tirou o colete sem mangas de seu vestido, inclinou-se para frente e limpou o rosto de Mel com ele.
Mel ficou paralisada com a ação de Lori, atônita.
Por mais que quisesse parar o ato de gentileza de Lori, não conseguiu dizer uma palavra. A situação era embaraçosa, mas havia um toque de gratidão nos olhos de Mel.
