16| Uma manhã caótica
As lágrimas de Mel no dia anterior tiveram um efeito estranho sobre ela. Ela acordou na manhã seguinte com uma sensação esquisita. Seu coração, antes pesado, agora estava leve, como se tivesse expelido toda a energia negativa junto com suas lágrimas do dia anterior. A calma com que acordou a envolveu como densas ondas de uma névoa quente.
Ela se levantou da cama, a sensação de relaxamento dando lugar a uma firme resolução. Ela não era apenas uma mulher lamentável. Ela era uma nobre de Sprite, e se tinha que corrigir um erro cometido por seu pai, precisava fazê-lo com dignidade. Mel olhou para o vazio com sentimentos mistos. Ela não conseguia odiar seu pai. Nem sabia como se sentir. Mas uma coisa ela sabia: Bjorn também não teria pedido por isso, mas ele deve ter seguido em frente, quisesse ou não. O mínimo que ela podia fazer era retribuir essa dedicação.
Eustace, Annie, Lori e até os outros ajudantes notaram a sutil mudança em Mel. Em meio ao conhecimento que Eustace transmitia a Mel sobre o clã Grime e a ajuda contínua de Lori, a confiança de Mel começou a diminuir a cada dia que o casamento se aproximava. Ela ainda não tinha ido ao subsolo, mas como ainda não estava unida a Bjorn, ou a uma família do clã Grime, a cidade subterrânea era proibida para ela. A cerimônia estava originalmente marcada para o final da semana, mas Mel queria um pouco mais de tempo para se acostumar com o clã e aprender mais sobre ele. Pelo menos para compensar a preparação que não tinha feito adequadamente em Urn. Eustace relutantemente permitiu. Agora que Mel estava a dois dias do casamento, ela estava sentada com Eustace, revisando os detalhes finais do vestido tradicional preparado. O vestido cerimonial de Eustace era grande e pesado demais para ser modificado para o tamanho de Mel, então um novo foi preparado.
Ela notou que as roupas femininas usuais do clã Grime eram simples, com vestidos bem bordados, a maioria com a bainha desgastada. Um colete sem mangas podia ser adicionado às roupas, junto com joias simples ou luxuosas. Esses eram acessórios aos quais até as pessoas simples tinham acesso. Os homens raramente usavam túnicas, diferente de como era em Urn. Suas roupas eram bastante simples; "calças" de pele ou algodão com camisas ou "ponchos". Mel achou as palavras estranhas, mas qualquer coisa seria em uma parte diferente do mundo.
A roupa cerimonial preparada para Mel parecia uma bagunça de roupas pesadas jogadas uma sobre a outra. Só de olhar para a vestimenta, as chamas da angústia dentro dela se acendiam. Ela seria simplesmente esmagada sob todo aquele peso em pé. E ela teria que andar com aquilo?
Quando Mel questionou sobre o ajuste e se alguma modificação poderia ser feita, os alfaiates simplesmente riram e Eustace garantiu a Mel que eles eram muito eficientes em seu trabalho.
Seja lá o que isso significasse.
Mel desabou na cama na noite anterior ao casamento, seus músculos doendo de exaustão. Quando seu corpo fraco atingiu a cama, as últimas de suas preocupações a atingiram, rompendo os portões que ela mantinha trancados. Uma lágrima escapou do canto de seu olho. Sua família não estaria lá para vê-la no dia seguinte, e ela não tinha visto Bjorn nem uma vez desde o dia em que chegou.
"Minha senhora," Annie sussurrou, gentilmente tirando as sandálias dos pés de Mel. "Os ajudantes prepararam o jantar—"
"Não estou com fome, Annie," Mel sussurrou de volta. Seu estômago roncou no final da frase.
Annie continuou após o silêncio constrangedor, persistente, "Minha senhora—"
"Annie, por favor," Mel implorou, deitada inerte na cama acolhedora. "Estou cansada. Não tenho nem forças para colocar algo na boca."
"Não importa. Eu vou alimentar—"
"Quero ficar sozinha," Mel gemeu na cama, sua voz abafada, mas distinta o suficiente para ser ouvida claramente enquanto ela enfatizava cada palavra.
Annie ficou parada, quieta. O silêncio se estendeu por um longo período e um suspiro preocupado saiu de Annie. "Vou me retirar," ela disse em um sussurro tímido. "Boa noite, minha senhora."
Mel ouviu os passos de sua criada e sua subsequente saída. Ela fechou os olhos, sentindo-se exausta e um pouco culpada por ter se comportado daquela maneira com Annie. Suas pálpebras pesadas caíram e o sono tomou conta de sua mente cansada.
A manhã seguinte foi uma das cenas mais caóticas que Mel já tinha testemunhado em toda a sua vida.
Disseram a Mel que a cerimônia de casamento aconteceria no final da tarde, mas ninguém a avisou que haveria uma preparação séria tão cedo pela manhã. Ela acordou com um barulho de conversas e abriu os olhos para as luzes cegantes dos cristais no teto. A névoa do sono foi dissipada de seus olhos ao ver a multidão correndo de um lado para o outro em seu quarto.
A cena a deixou em silêncio, chocada, e ela foi arrastada da cama, despida de suas roupas e levada às pressas para a câmara de banho, semelhante à de sua casa. Desta vez, a banheira de cerâmica era uma bacia de madeira grossa, e água morna foi despejada sobre ela, seguida de uma esfregação minuciosa de seu corpo.
Apavorada, ela chamou por Annie, apenas para ser acalmada pelos ajudantes, que a informaram que Annie estava ocupada com outros preparativos para a cerimônia.
"Mas—é só—de manhã—" ela cuspiu mais água enquanto mais era despejada sobre sua cabeça.
Será que ela tinha feito algo errado para merecer isso? Nem mesmo os servos de sua casa eram tão rudes com ela.
"Pa—parem com isso!" ela gritou, debatendo-se na água e espirrando-a nos rostos dos ajudantes.
Os ajudantes pararam abruptamente, choque e um leve toque de medo em suas expressões de olhos arregalados. Mel franziu a testa, sua pele dormente das mãos insensíveis deles. "Sejam mais gentis comigo! Vocês parecem esquecer que eu não tenho uma constituição tão forte para vocês me tratarem tão rudemente. Além disso, sou acordada, arrastada da cama e, de repente, levada para a banheira sem nem uma explicação de..." Mel ofegou, sem fôlego. Seu coração batia acelerado em seu peito, pulsando erraticamente devido à sua respiração rápida.
Eles abaixaram a cabeça, profundo arrependimento estampado em seus rostos. "Sinceramente pedimos desculpas. Não tenho desculpa para nosso comportamento precipitado," uma delas implorou, ainda com a cabeça abaixada. "Nós—"
"Tudo bem," Mel resmungou, afundando de volta na piscina morna.
Os ajudantes se endireitaram e lançaram olhares cautelosos entre si antes de continuar a lavar Mel. Seus toques eram firmes, mas um pouco mais gentis, de modo que o banho parecia mais uma massagem do que um banho reconfortante.
Como Mel logo descobriria, isso era apenas o começo.
A presença de Annie, mais tarde, foi reconfortante e a criada lhe deu uma breve explicação sobre os longos preparativos que durariam o dia todo. Mel pensou em como os servos a prepararam antes de embarcar no navio Orion e um sentimento de pavor a preencheu. Todo o processo estava longe de terminar.
Ainda nua, ela foi direcionada para outra câmara, vazia, exceto por uma longa mesa de madeira e outros bancos elevados contendo tigelas de pedras pretas. Ela foi deitada na mesa e seus músculos rígidos relaxaram em poucos segundos com o estranho procedimento. Seu alarme inicial diminuiu enquanto os ajudantes amassavam sua carne e massageavam cada canto de seu corpo. Do pescoço às solas dos pés, dois pares de mãos puxavam, pressionavam e transformavam seu corpo em uma massa líquida.
Nem mesmo sua mente estava livre da sensação desconcertante. Era uma bagunça. Uma bagunça agradável.
Os movimentos pararam e Mel permaneceu ali, atordoada. A realidade voltou com um piscar de olhos quando as pedras quentes foram colocadas em suas costas e o calor penetrou nos poros de sua pele. Mel fechou os olhos e sua consciência oscilou, indo e voltando em intervalos curtos.
"...senhora... minha... minha senhora!"
Mel estremeceu, abrindo os olhos de repente.
Ela se mexeu, preguiçosa demais para virar o pescoço ou levantar as mãos. "Por que pararam?" ela perguntou fracamente, piscando enquanto o rosto de Annie pairava diante do seu.
Sem responder, Annie sorriu e ajudou Mel a se sentar, suas pernas pendendo sobre o lado da mesa estreita.
"Falta o seu rosto. Queremos que você se deite de costas," Annie disse simplesmente. Sua testa franzida com uma expressão preocupada e a criada desviou o olhar, mas Mel não prestou muita atenção nisso.
"Tudo bem." Mel deixou Annie ajudá-la a se deitar de costas e a jovem notou que havia menos ajudantes na câmara. Havia quatro na sala, exceto Annie.
Uma das ajudantes do clã Grime espalhou um xarope de cheiro doce nas palmas das mãos e, no momento em que pressionou a substância fria no rosto de Mel, ela instintivamente se encolheu com o contato e fechou os olhos. Suas sobrancelhas de repente se franziram quando um líquido estranho foi derramado em sua virilha.
"O que vocês estão fazendo?" Mel levantou a mão para segurar o pulso da ajudante que massageava seu rosto.
A voz de Annie saiu fraca, "Perdoe-nos, minha senhora."
"Annie?" Mel abriu os olhos a tempo de ver uma ajudante arrancar a cera solidificada de sua pele, junto com seus pelos pubianos.
Mel soltou um grito de gelar o sangue.
