18| Uma noite para lembrar

Mel ficou parada enquanto as ajudantes a vestiam, mas sua mente vagava. Eustace tinha uma expressão indecifrável depois das palavras de Mel naquela manhã e a mulher simplesmente saiu. Ela disse que Mel não precisava se preocupar com nada antes de sair. Mel comeu logo depois e foi instruída a descansar algumas horas antes de Eustace voltar para explicar o restante da programação do dia.

A antecipação e a excitação se enraizaram no coração de Mel como uma semente no momento em que Eustace mencionou que a cerimônia de casamento aconteceria no subsolo. Ela finalmente colocaria os pés lá. Mas algo dentro dela hesitava. O fato de que ela iria para o subsolo para a cerimônia—um lugar sagrado para os ursos metamorfos—significava que, no momento em que ela pisasse lá, o acordo já estaria feito. Não haveria volta.

Ela estava fazendo isso. Ela realmente estava fazendo isso...

Mel fechou os olhos e respirou fundo. Ela olhou para o espelho de pé e hesitou, sua respiração falhando. O vestido parecia completamente diferente das múltiplas camadas que ela tinha visto no suporte de roupas. Duas ajudantes envolveram outra camada fina ao redor de Mel, puxando suas mãos para dentro das mangas longas, antes de amarrar nas costas. Ela nunca tinha visto algo tão bonito. As camadas que foram vestidas uma sobre a outra se cruzavam na frente, descendo em intrincados entrelaçamentos que começavam no pescoço do vestido e se interligavam até a barra.

Seus pés estavam completamente cobertos, e suas mãos também... quase. Ela ainda podia ver seus dedos espiando pelas mangas longas em forma de asas. O entrelaçamento na frente de sua roupa era de uma cor cinza suave, e as camadas eram redemoinhos esfumaçados de marrom e cinza. Como o filme oleoso de um arco-íris na superfície da água.

"É lindo," Mel sussurrou, maravilhada, enquanto a ajudante amarrava o último laço nas costas.

As mulheres lhe deram um sorriso contente, algumas das ajudantes orgulhosas de seu trabalho.

"Eu disse que serviria," Eustace disse, entrando na câmara para olhar Mel. "Isso não é tudo. Por que não se dá uma volta?"

Mel hesitou. A roupa não era tão pesada quanto ela esperava, mas será que ela poderia se mover eficientemente com todas essas camadas? Se não fosse a vestimenta usual, Mel teria pensado que algo assim foi criado para impedir as noivas de fugirem. Mel deu um passo, e para sua surpresa, teve pouca ou nenhuma dificuldade em se mover. Mel se virou para o lado, seus olhos nunca deixando o espelho. Laços intrincados de múltiplas camadas do vestido foram amarrados juntos nas costas para formar uma grande rosa. O símbolo do clã grime brilhava como um emblema cinzento contra o fundo marrom da camada final, e os olhos de Mel se arregalaram de admiração.

"Isso... isso é..." Mel olhou para ele, sem palavras.

Os lábios de Eustace se abriram em um sorriso afetuoso e ela olhou silenciosamente para Mel por um tempo, satisfeita. "Você terá que permanecer de pé por um curto período," ela disse suavemente, segurando os dedos de Mel. "Assim que terminarmos seu rosto, estaremos prontas para a noite."

Mel contemplou perguntar a Eustace se poderia comer, já que tinha perdido o almoço, mas desistiu. Haveria um banquete durante a cerimônia. Ela comeria então.

Lori chegou logo e Mel ficou feliz em vê-la, apesar dos olhares estranhos de Annie. As ajudantes cuidaram da maquiagem de Mel, uma camada simples semelhante à de casa, exceto que seus lábios foram besuntados com mel. Foi um esforço tremendo para Mel não lamber os lábios. Seu cabelo foi preso em um grande coque na parte de trás da cabeça. Justo quando Mel pensou que o estilo era muito simples, ele foi adornado com peças de joias, com pequenas correntes em forma de argola torcidas no coque e penduradas nele. Algumas foram presas nas ondas suaves de seu cabelo. Em uma roupa diferente, Mel não podia acreditar que a bela mulher no espelho era ela.

Mel foi levada ao salão pelo qual tinha passado ao entrar na mansão. O primeiro e último lugar onde ela tinha visto Bjorn. Mel mexeu os dedos dos pés nos delicados sapatos que usava, sem conseguir vê-los sob as múltiplas dobras de seu vestido. Ela foi recebida por escoltas bem vestidas esperando por ela no salão. As escoltas usavam vestidos rendados de cor cinza, e uma delas abriu um guarda-chuva transparente de cinza, com um sorriso acolhedor no rosto enquanto se dirigia a Mel, "Estamos prontas, minha senhora."

"Minha senhora." Esta foi a primeira vez que a chamaram assim. Mel engoliu em seco e olhou para trás, para Annie, Eustace e Lori. Os olhos de Annie estavam marejados e Eustace deu a Mel um aceno encorajador.

Os joelhos de Mel ficaram fracos. Ela ficaria sozinha.

"Você nos verá novamente, em breve," Eustace disse e caminhou para frente, parando bem na frente de Mel. Ela olhou para baixo, o pequeno sorriso ainda em seus lábios. "Você ficará bem, Mel. Lembre-se das instruções que eu te dei."

Mel apertou os lábios e assentiu. Ela se endireitou e deu um passo em direção às escoltas sem olhar para trás. Se visse as lágrimas de Annie, ela também choraria. O guarda-chuva foi colocado sobre a cabeça de Mel e um véu foi puxado das pontas, escondendo seu rosto. As quatro escoltas ficaram em linha reta de ambos os lados dela e a quinta, com o guarda-chuva, estendeu a mão para o final do corredor, em direção a uma das paredes. Mel caminhou até lá e elas a seguiram. Pela primeira vez, ela notou um pequeno contorno de uma grande porta na parede. Não tinha maçaneta, mas quando a escolta bateu duas vezes, a entrada deslizou aberta.

Para sua surpresa, Mel podia ver através do véu fino. Estava um pouco escuro, mas a parede de terra ao redor era visível o suficiente, talvez até mais clara para os olhos extraordinários dos ursos metamorfos. Elas estavam em um grande túnel, com uma luz brilhante cintilando no final. O coração de Mel acelerou ao ouvir a música festiva vinda do final do túnel e suas pernas se moveram sozinhas.

As escoltas congelaram de surpresa com o movimento repentino de Mel e deram alguns passos rápidos para alcançá-la. A música ficava mais alta a cada passo que ela dava e ela saiu para um espaço amplo. Amplo era um eufemismo para o que ela estava vendo.

Monumentos de pedra monstruosos a cercavam, com degraus de pedra conectando um edifício ao outro em um labirinto sofisticado que tirou seu fôlego. Seus olhos se arregalaram com a paisagem. Grandes pontes também estavam conectadas a vários edifícios e caminhos laterais adornavam as paredes ao redor dela em níveis interconectados que iam até o fundo. Cristais brilhantes embutidos nas paredes, tetos e até sob os caminhos e pontes, brilhavam em uma mistura de azul e laranja.

Ela percebeu que estava em uma ponte larga e o que pensava ser o som alto de água corrente era, na verdade, aplausos vindos de todos os cantos da cidade. A música dos tambores e instrumentos de corda se intensificou, e o coração de Mel se encheu com a calorosa recepção.

Crianças e outros cidadãos se inclinavam contra os corrimões dos caminhos laterais, acenando para ela com sorrisos radiantes em seus rostos. E Mel ficou dentro do caos alegre, hipnotizada.

"Minha senhora."

Mel saiu de seu devaneio e olhou para a escolta que a havia chamado.

"Devemos nos mover em direção à cerimônia," ela disse.

Mel assentiu e elas passaram por algumas pontes, o tempo todo notando como não havia pessoas nos caminhos, como se todos tivessem liberado o caminho com antecedência para sua passagem. Elas entraram em outro túnel, desta vez de pedra. Eustace havia mencionado que havia muitas seções subterrâneas no grande assentamento. O que ela acabara de deixar era uma de mais de cem. Os aplausos ensurdecedores diminuíram atrás delas e elas caminharam por um tempo considerável. A escuridão parou quando encontraram pequenos cristais azuis emitindo um brilho suave do teto.

Mel notou um obstáculo à frente e ficou tensa quando estava perto o suficiente para distinguir o que era.

Os pelos de sua pele se arrepiaram enquanto a massa monstruosa tremia a cada respiração pesada, areia flutuando do chão onde seu focinho estava voltado. A alegria de entrar no subsolo a fez momentaneamente esquecer do urso que Eustace disse que estaria esperando por ela.

'Mas ela nunca disse que seria tão grande!' Mel gritou internamente.

O urso adormecido abriu um olho pequeno que brilhava azul, refletindo o brilho dos cristais. Um brilho azul ondulou em seu pelo enquanto ele se movia e se erguia, pairando sobre Mel e as escoltas.

A saliva em sua garganta secou.

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