01 | Mel

Uma figura sombria passou rapidamente pelo longo corredor do castelo, seguida por outras duas em rápida perseguição. Mel riu, seu cabelo escuro esvoaçando enquanto ela virava uma esquina, desviando de servos atônitos e olhando várias portas ao longo de cada parede para encontrar uma rota de fuga que a levasse a um eventual esconderijo.

"Jovem Senhora!" vieram os gritos exaustos atrás dela, mas ela os ignorou.

As escadas apareceram à vista e Mel desceu correndo, deixando um grande espaço entre ela e suas criadas. Mais servos se afastaram do caminho, nada surpresos com a atitude despreocupada de Mel. Suas criadas correndo atrás dela havia se tornado uma rotina da qual a jovem senhora do castelo gostava, e de que adiantaria ajudá-las quando a jovem era uma corredora extremamente rápida.

Mel encontrou uma porta e a empurrou, entrando em uma sala iluminada e fechando a porta atrás de si. Ela se virou e escutou atentamente com o ouvido encostado na porta, seu coração batendo forte no peito. Logo, os servos passaram correndo, seus passos de sandálias batendo contra o chão acarpetado do corredor.

Mel riu e se virou para encarar a ampla extensão da sala. A luz da manhã inundava pelas grandes janelas abertas, tocando as fileiras de estantes com livros organizados. Livros pertencentes ao seu irmão mais novo, Adam. Ela nunca se importou em aprender a ler. A maioria das mulheres em seu domínio não era esperada que soubessem, e ela achava muito chato seu irmão passar horas folheando várias páginas de inúmeros textos e palavras.

'O que havia de emocionante nisso, afinal?' ela pensou.

"Oh não, de novo não," veio o gemido exausto de Adam, e Mel pulou até o fim da sala, esgueirando-se pela última estante para encontrar Adam sentado junto à última janela, bem escondido pela estante que ela acabara de passar.

"Um bom dia para você também, irmão," ela o cumprimentou, caminhando descalça para envolver os braços ao redor do pescoço dele e dar-lhe um abraço apertado por trás.

Adam deu um tapinha no braço dela e ela o soltou, segurando as mãos no encosto da cadeira dele. "Você e seus livros," ela provocou.

"Você está causando um fardo desnecessário para suas criadas. Se você quer se exercitar tanto, por que não pede ao pai para lhe dar um treinador pessoal e você pode correr o quanto quiser."

Mel bufou e cruzou os braços sobre o peito. "Eu simplesmente não queria me vestir para o dia ainda. Queria ver o jardim. Elas não me deixariam, e você, mais do que ninguém, sabe que o pai diria que isso seria 'impróprio para uma dama'." Ela se afastou de Adam e encostou as costas na estante.

Adam deu de ombros na cadeira, sem tirar os olhos do livro. "Assim como é impróprio você correr pelos corredores do castelo e se envolver em uma perseguição louca. Não sei como ainda aguentamos você por tanto tempo."

Ela riu. "Não seja ridículo, irmão. Eu sei que todos vocês me amam."

Ele fez um som de desaprovação e balançou a cabeça. "Ainda me pergunto quando aquele seu marido vai chegar."

Mel sorriu maliciosamente. "Isso não pode acontecer."

Seu pai, o senhor da tribo Urn dentro do reino Sprite, devia a um senhor de alta patente do reino Orian e mencionava-se que era uma dívida tão pesada que nada poderia cobri-la. Quando toda esperança parecia perdida, os Orians então solicitaram que fosse paga em termos de um favor, e seu pai, sentindo-se muito culpado, decidiu oferecer sua pequena filha como futura noiva de um dos filhos deles para mostrar o quanto ele era grato.

Mas depois do acordo, os Orians nunca retornaram ou pediram por sua noiva, mesmo depois que Mel passou da idade madura de dezoito anos. Eles ainda mantinham boas relações com a nação vizinha, mas em relação a Mel, não haviam solicitado nada, e ela estava se aproximando dos vinte e dois anos.

Mel, a princípio, aguardava ansiosa pelo noivado. Mas sem notícias dos Orians, ela ficou incerta sobre a aliança. Com o tempo, decidiu abraçar a liberdade que suas colegas não tinham, já que a maioria de suas amigas já estava casada e cuidando de seus filhos. Nada parecia prendê-la.

"Estou livre para fazer o que eu quiser." Seu sorriso se alargou. Inicialmente, ela se sentia solitária, mas depois de ver o estresse e o esforço que era necessário para criar filhos e administrar suas próprias casas, Mel estava grata por não ter que enfrentar tudo isso por enquanto.

Adam olhou para ela, suas sobrancelhas escuras questionando. "Em outras palavras, você não vai se casar?"

"O quê?" Ela colocou as mãos nos quadris e olhou para ele. "Que tipo de pergunta é essa? Claro que vou. Pai vai me encontrar um marido muito em breve."

"E o seu 'marido'?" ele perguntou, ainda olhando para ela.

Mel passou a mão pelo cabelo, a outra mão ainda no quadril. "Até onde me interessa, ele não existe. Ou talvez ele tenha falecido. Se não, ele já teria vindo reclamar minha mão há muito tempo."

Adam se recostou na cadeira e colocou o livro que estava lendo na mesa ao lado. "Mel..."

"Não, não, Adam." Ela balançou a cabeça para ele, um sorriso divertido nos lábios enquanto balançava um dedo na cara dele. "Essa conversa está encerrada. Vou fugir para os jardins antes que me encontrem. Divirta-se com seus livros chatos," ela cantou, enfatizando a palavra 'chatos'.

Adam balançou a cabeça com uma leve carranca e abriu a boca para falar antes que Mel saísse correndo da sala. Era óbvio que ela iria para os jardins, quase todos os servos sabiam disso. Doía-lhe até certo ponto que sua irmã fosse mais avoada e nem tentasse pensar nas coisas. Mesmo que ela não tivesse interesse em política ou em aprender a administrar uma casa, era preocupante como ela via as coisas. Não havia nada de engraçado em sua situação e já era hora de ela saber disso.

Mel espiou o corredor pela porta e, percebendo que não havia ninguém por perto, saiu da biblioteca e subiu as escadas. Ela se escondeu atrás de colunas, estátuas e dentro de cantos do corredor para evitar a atenção dos servos que passavam antes de seguir para a ala isolada do castelo de seu pai.

Ela caminhou cautelosamente até a porta do escritório dele e colocou a palma da mão na maçaneta dourada, prestes a empurrar a porta quando ouviu vozes lá dentro. Então sorriu, divertida, e retirou a mão, decidindo escutar. Quem estava com seu pai e o que estavam discutindo lá dentro? Ela se inclinou para frente e encostou o ouvido na madeira da porta.

"... isso... não augura bem..."

"Não podemos adiar mais, Pai. Temos que enviá-la para lá."

Mel parou, sua bochecha colada na porta. Aquela era a voz de seu irmão mais velho. Seu tom estava mais alto do que as palavras sussurradas de seu pai. Uma sensação inquietante surgiu dentro dela. Sempre que a voz de seu irmão estava ligeiramente elevada, significava que havia algo errado.

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