Capítulo 2 O PRÍNCIPE LYCAN

ISABELLA

Luz e escuridão.

Os lycans eram a força superior, o auge da evolução.

Mas estavam passando por uma mudança, uma fase perigosa em que a violência do lado animal deles se tornava instável e brutal.

No nosso reino de lobisomens, existiam apenas cinco famílias lycan nobres e, claro, aquelas que estavam no topo da cadeia alimentar: a família real.

Eles eram a escuridão que precisava da luz das Seraphinas.

Nós não éramos a única alcateia abençoada pela Deusa.

Havia outras Seraphinas, mas meu pai fez questão de abrir caminho à força até o topo: a família real.

Ele tinha preparado a Savannah a vida inteira para isso.

As Seraphinas acalmavam aquelas feras com o próprio perfume, o toque do corpo e a aura tranquila que envolvia os lycans como uma droga.

Mas, se a luz não conseguisse dominar a escuridão… ela morria.

E os lycans da família real eram os mais sedentos de sangue e selvagens de todos, disparado os mais difíceis de domar.

Pela primeira vez, eu não ia obedecer ordens.

Eu tinha meus próprios objetivos.

Quebrar a maldita restrição que ele tinha colocado em mim, ficar mais forte na Academia… e fugir.

E eu faria o que fosse preciso pra conseguir.

Mesmo fingindo, se fosse necessário, e aguentando aquele príncipe insuportável.


Sentada no carro, eu via a paisagem passar borrada pela janela.

Hoje era o dia em que eu ia embora, e meu querido pai nem me deu uma segunda olhada antes de me mandar como carne de canhão.

Elliot teve a cara de pau de me observar por entre as árvores enquanto o carro se afastava.

Covarde.

“Sabe de uma coisa? Para de desperdiçar lágrima com esse idiota”, minha loba resmungou. “O pau dele nem era tão grande assim. Quando esfriava, encolhia até virar um amendoim… e aquelas mexidas de quadril…”

Thera estalou a língua.

“Mais sem graça que água sem gás”, ela completou, revirando os olhos com todo o drama. “Você devia ter denunciado ele pro Alfa.”

Um sorriso de canto escapou dos meus lábios.

Thera era a melhor coisa que já tinha me acontecido.

Eu sabia que ela só estava cobrindo a nossa decepção com sarcasmo.

“Você realmente acha que meu pai sacrificaria o precioso Beta dele por mim?” suspirei, amarga.

“Ele provavelmente ia me chamar de puta e dizer que eu seduzi o coitadinho. Agora eu até desconfio que ele sabia da verdade e mandou o Elliot me espancar só pra continuar me torturando.”

Essa ideia, que não era totalmente absurda, passou pela minha cabeça.

“Esquece a alcateia e se comporta na Academia. A gente precisa ficar abaixo do radar”, eu a alertei, encarando meu reflexo no vidro.

Eu estava com roupa casual: tênis confortáveis, jeans, uma camiseta branca e uma jaqueta jeans.

Meu cabelo loiro estava preso em uma trança alta, e eu só tinha passado o mínimo de maquiagem pra não parecer tão fantasma.

Meus olhos cinzentos, porém, estavam cheios de planos e cálculos silenciosos.

“É bom que esse príncipe lycan não seja um babaca convencido”, Thera bufou, inquieta.

Nós duas estávamos tensas por causa de tudo o que nos esperava.

Eu não respondi. Meu olhar voltou para a paisagem lá fora.

O motorista do meu pai pegou as estradas que contornavam os territórios das alcateias.

A Alcateia da Montanha Prateada ficava enfiada numa região remota e acidentada, o que nos dava um ar de mistério e tornava ainda mais fácil manter minha identidade falsa.

Viajamos por horas sem parar, até finalmente entrarmos numa floresta tomada pela neblina e pelas sombras.

A luz do sol mal conseguia atravessar a atmosfera pesada.

Meu coração disparou quando os enormes portões de ferro surgiram no fim da estrada, como um par de mandíbulas imperiais.

O carro foi diminuindo até parar.

— Senhorita Savannah, daqui eu não posso passar — avisou o motorista, respeitoso.

— Tudo bem — respondi seca, exatamente como minha irmã teria feito.

Saí do carro, e ele se apressou para pegar minha mala.

Fechei os dedos com força em volta da alça e segui em frente sem olhar para trás, indo direto para o meu novo tormento.

Os faróis se apagaram, o barulho do motor foi engolido pela neblina e, de repente, só restou o silêncio, denso e sinistro.

— Pra uma Academia de elite cheia de gente rica, você pensaria que eles podiam bancar umas luzes a mais — resmungou Thera. — Isso aqui parece a entrada do submundo.

— Thera, para de falar sozinha e examina a área — mandei, enquanto meus olhos corriam entre os troncos escuros.

As rodinhas da minha mala não paravam de chacoalhar sobre o caminho de pedra.

Quando cheguei mais perto do portão imenso, um som fez Thera ficar atenta na hora.

— Eu ouvi alguém pedindo socorro. Juro que ouvi um grito! — ela disse, imediatamente em alerta.

— Onde? — perguntei, sem nem pensar.

— Ali!

Corri naquela direção, me enfiando mais fundo em território desconhecido.

Eu realmente precisava largar esse hábito de enfiar o nariz onde não era chamada…

E, ainda assim, lá estava eu, encarando uma garota pendurada de uma árvore ao longe.

— Socorro! Socorro! — ela esperneava, a segundos de cair.

O capuz do moletom dela estava mal e mal enganchado em um dos galhos, a única coisa que a mantinha no alto.

— Segura firme, isso não vai aguentar! — gritei, disparando na mesma hora em que ouvi o estalo.

Larguei a mala e me atirei para a frente, agarrando a garota e derrubando nós duas na grama.

Ela tinha prestes a despencar direto em cima de um monte de pedras pontiagudas.

— Ai! — ela gemeu quando batemos no chão. Pra ser sincera, quem levou a pior fui eu.

Ela era pequena, de cabelos escuros e olhos verdes de chamar atenção.

Me apoiei e me ergui um pouco enquanto ela rolava para o lado, saindo de cima de mim.

Uma dor latejou no meu tornozelo direito, arrancando um chiado dos meus lábios.

— Você tá bem? — perguntei, olhando rápido para ela.

— S-sim… — gaguejou, com as bochechas num vermelho vivo, o olhar grudado no chão de tanta vergonha.

— Ótimo… — tentei me levantar, mas, no momento em que apoiei o peso no pé, o ar sumiu dos meus pulmões.

— Você se machucou? Oh, Deusa, a culpa é toda minha! Vamos pra enfermaria…

— Tá tudo bem, é só uma torção — tranquilizei, porque ela estava prestes a entrar em pânico total e quem estava sentindo dor era eu.

Depois de muito insistir, consegui convencer a garota de que eu não precisava ir para a enfermaria, voltei mancando até minha mala largada e já ia embora.

— Espera, eu nem te agradeci! — ela chamou, correndo atrás de mim.

— Eu sou a Kiara, uma ômega da Alcateia Tulipa Azul — disse, estendendo a mão pequena.

— Savannah Olivan — respondi, apertando a mão dela. Não acrescentei mais nada. Era a última pessoa do mundo que queria chamar atenção.

Voltamos a caminhar em direção à entrada.

— Muito obrigada por ter me ajudado… Eu, ahn, tive um pequeno acidente de primeiro dia. Sabe, aquele “boas-vindas” pros novatos — ela murmurou, enfiando o rosto, com as orelhas praticamente brilhando de vermelhas.

Eu só rezava para que ninguém tivesse planejado esse tipo de “iniciação” pra mim.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, sinos tocaram ao longe, seus repiques vibrando por toda a floresta.

— Não é possível, já estão chamando a gente. Anda, anda!

Ela começou a me empurrar pra frente, aflita, e finalmente passamos pelos portões de ferro enormes, que se abriram como se fosse magia.

Por entre a neblina, as torres distantes e os prédios sólidos e intimidadores começaram a ganhar forma.

Essa Academia atraía os mais ousados entre os ousados, aqueles que queriam testar seus limites, ganhar poder e aumentar o status da própria matilha.

Você podia morrer aqui… e ninguém nem ia questionar.

Então eu não conseguia deixar de me perguntar o que uma garota frágil como a Kiara estava fazendo num lugar desses.

Ela parecia saber muita coisa sobre como a Academia funcionava. Será que essa era mesmo a primeira vez dela aqui?

Um milhão de perguntas zuniam na minha cabeça, mas, quando vi a multidão reunida numa praça impressionante mais à frente, a ansiedade abafou a minha curiosidade.

Minha mão apertou com força a alça da mala.

Do nada, o som de um motor de carro rugiu atrás de nós.

Ele vinha tão rápido que mal tivemos tempo de nos atirar de cabeça pros arbustos na beira da estrada.

— Qual é o problema daquele idiota?! — rosnhei, com o tornozelo latejando ainda mais.

— Shhh… não fala assim de um Lycan — sussurrou Kiara, pegando na minha mão e me ajudando a levantar, antes de me guiar para um lugar mais discreto entre os recém-chegados.

— Fica longe deles. Eles são perigosos e poderosos demais.

Os olhos dela, grandes e inquietos como os de um esquilo, dispararam para o outro lado da praça enorme.

Segui o olhar dela, além da fonte que se erguia no centro.

Um homem alto desceu do carro de luxo, todo de cabelo preto e olhos cinzentos penetrantes.

Roupas sob medida, sapatos caros, postura arrogante.

Ele se aproximou de um grupo menor que, mesmo assim, se destacava no meio de todo mundo.

Duas mulheres, uma loira e uma ruiva, ambas voluptuosas, seguras e transbordando autoconfiança.

Cinco caras as cercavam, todos altos e musculosos. Alguns fumavam com preguiça, como se fossem donos do lugar.

Um loiro riu alto, claramente o mais relaxado do grupo.

O ar mudou, ficando mais denso quando feromônios dominantes e perigosos se espalharam pela praça.

Lycans e fêmeas Alfas.

A elite do nosso reino. Os melhores genes que a nossa espécie podia oferecer.

Qual deles era o Príncipe Aurelius?

Meu peito apertou ao imaginar ser o bichinho de estimação daquele homem.

A bolinha de estresse pessoal dele, pra ele apertar entre as garras sempre que tivesse vontade de matar alguma coisa.

Minha respiração acelerou, e um suor frio escorreu pela minha coluna.

“Calma, Isa. Vai com calma. A gente consegue. Tudo que a gente precisa fazer é o que sabe fazer de melhor…”

— Fingir — completei pela minha loba.

Era isso que eu mais odiava. Meu único talento de verdade na vida era fingir ser alguém que eu não era.

Um burburinho percorreu a multidão em ondas, me arrancando do quase ataque de pânico.

O prédio de pedra escura de um lado da praça abriu suas portas de madeira enormes com um rangido.

Uma mulher minúscula, de óculos e cabelos grisalhos, saiu marchando de salto alto, uma pasta nas mãos.

Ela parou no alto da escadaria.

— Sejam bem-vindos, todos os novos candidatos a alunos da Academia HighMoon! — começou.

— Como vocês já devem saber, existe um processo de seleção inicial, e quem não passar… — Ela deixou a frase morrer no ar, os olhos suavizados por uma falsa simpatia.

— Tem prova? Que que é isso, competição de dança? — Thera entrou na conversa, aproveitando pra deixar meus nervos ainda mais em frangalhos.

Meu pai tinha “esquecido” convenientemente de mencionar essa parte.

E o pior veio em seguida.

— As Seraphinas vão passar por um exame especial na frente dos Lycans. Por favor, juntem-se aqui ao meu lado conforme eu chamar seus nomes.

Ela começou a ler a lista nas mãos.

Para meu total choque, percebi que eu não era a única candidata a se tornar Seraphina do príncipe Aurelius.

Tinha uma fila de verdade. Uma seleção inteira.

Aquelas duas Alfas metidas a orgulhosas também estavam ligadas a ele.

— Savannah Olivan, Seraphina designada ao príncipe Aurelius…

Será que meu pai sabia que Savannah não era a única opção que o Rei Lycan tinha?

— Savannah Olivan!

Então… existe a chance de eu não ser escolhida?

Vão me dispensar ou me empurrar pra outro Lycan?

— Savannah. — O cotovelo da Kiara me acertou, me arrancando da espiral mental. — Estão te chamando…

O sussurro dela apertou um botão dentro de mim.

— TÔ AQUI! — eu berrei alto demais, ainda por cima levantando a mão, igual uma aluna empolgada demais.

Todas as cabeças viraram na minha direção.

Adeus, plano de passar despercebida.

Puxando minha malinha atrás de mim, subi os degraus toda desengonçada, sentindo as risadinhas e os sorrisos de deboche lá de baixo.

Era humilhante, e era só o começo.

— Você precisa acordar um pouco, senhorita Olivan — a mulher ralhou baixo, depois fez um gesto para eu me juntar às outras garotas, felizmente só um grupinho.

Eu nem precisava ver o rosto delas pra sentir o desprezo escorrendo de cada uma.

— Sai da frente. Nem ouse me atrapalhar — veio uma ordem baixa, atrás de mim.

A Alfa loira, peituda, nem se deu ao trabalho de abaixar muito a voz.

Ela era outra candidata ao príncipe Aurelius.

Eu me afastei com a maior dignidade que consegui juntar, mas não adiantava onde eu ficasse, parecia que eu não pertencia a lugar nenhum.

Por sorte, o discurso de boas-vindas continuou, e logo ninguém tava mais prestando atenção em mim.

Pelo menos até a mulher pedir pra esperarmos um momento e sumir lá pra dentro.

Nem cinco minutos depois, o ronco poderoso de uma moto ecoou pela estrada de entrada.

O farol forte cortava a neblina e, claro, era uma moto preta impressionante, com um ronco agressivo e lindo.

Mas o verdadeiro problema era o piloto.

As pessoas se abriram pela praça, abrindo caminho, porque ele não tinha cara de que ia diminuir a velocidade.

Era uma parede sólida de masculinidade, usando calça cargo preta, coturno militar, camiseta escura sem mangas e um capacete preto escondendo o rosto.

Os braços musculosos e tatuados, bronzeados de sol e poderosos, flexionaram quando ele apertou o guidão.

O poder atingiu todo mundo como um tapa.

Meu coração começou a disparar, e o peso bruto da patente dele despencou sobre mim sem dó… um Lycan da família real.

Ele parou ao pé da escadaria e tirou o capacete.

Cada movimento era preciso, frio, dominante.

A praça inteira emudeceu, exceto pela voz na minha cabeça.

“Ah, puta merda… quem é esse orgasmo ambulante?”

Thera farejou o ar, empolgada, focando no nosso próximo algoz.

Eu não tinha a menor dúvida… Aquele era o príncipe Lycan, Aurelius Blackridge.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo