Capítulo 3 Mariana

Mariana

O vento úmido da costa batia contra o meu rosto, mas o arrepio que eu sentia na pele não vinha da brisa do mar, e sim da fumaça de ódio que queimava dentro do meu peito. Continuei estancada ali na areia por mais alguns minutos, remoendo cada pensamento amargo, até que percebi a inutilidade de ficar postergando o inevitável. Eu precisava voltar para casa, embora a simples ideia de atravessar aquela porta me causasse náuseas. Voltar para o cativeiro disfarçado de lar, onde a única coisa que eu respirava era a imposição de um futuro que eu repudiava com todas as fibras do meu ser, estava me matando por dentro.

Enquanto caminhava de volta, deixei escapar um pensamento sombrio e irônico: e se o tal noivo fosse um velho decrépito, cheio de manias e com a saúde por um fio? Se fosse o caso, eu faria questão de infernizar a rotina dele até que o infeliz sofresse um infarto fulminante e me deixasse viúva em tempo recorde. Dei uma risada abafada e sarcástica de mim mesma, balançando a cabeça diante de uma ideia tão absurda.

Logo em seguida, a imagem daquele incidente na praia invadiu minha mente. O homem arrogante, dono de um corpo escultural e de uma prepotência insuportável, tinha cruzado o meu caminho e tentado dar uma de engraçadinho para cima de mim. Eu o havia cortado na hora, sem pensar duas vezes, mantendo a minha marra intacta.

Acelerei os passos, atravessei a rua e subi os degraus até a minha casa, que ficava a poucos metros da orla. Assim que entrei, atravessei o corredor correndo para fugir de qualquer olhar inquisidor, enfiei-me debaixo do chuveiro para lavar a maresia e me joguei na cama. Com o celular em punho, passei a preencher formulários e disparar currículos para escritórios de advocacia da região, buscando desesperadamente uma brecha de fuga, qualquer coisa que me desse independência financeira e profissional antes que o laço daquela armadilha me sufocasse.

As batidas secas na porta do quarto interromperam meu foco. Mandei entrar sem tirar os olhos da tela do celular, e vi minha mãe, Luiza, atravessar o batente com uma expressão de cautela nos olhos.

— Oi, filha! Que horas você chegou? Por que não me avisou que tinha voltado? — perguntou ela, tateando o ar com um tom de preocupação maternal que naquele momento só me irritava mais.

— Não queria incomodar a senhora, mãe — respondi com a voz seca, voltando a digitar no aparelho. — Vim direto tomar um banho e agora estou tentando achar um trabalho em algum escritório por aqui. Preciso ocupar a minha cabeça e garantir o meu próprio sustento.

Luiza deu dois passos para frente, suspirando fundo antes de soltar a frase que sempre me revirava o estômago:

— Filha, você sabe muito bem que não vai precisar disso. Seu futuro marido é um homem bilionário, ele vai te dar tudo o que você quiser e muito mais.

Joguei o celular sobre o colchão, perdendo a paciência de vez.

— Chega, mãe! Dá um basta nisso! Eu não vou ficar sentada em uma mansão à espera do meu suposto marido vir me inspecionar como se eu fosse um móvel caro. Eu não sou esse tipo de mulher que se vende por conforto!

Minha mãe se aproximou da cama, sentando-se na ponta com um olhar genuinamente sofrido.

— Eu te entendo perfeitamente, meu amor. E saiba que, se dependesse exclusivamente de mim, você jamais casaria nessas circunstâncias absurdas, mas seu pai está cego pela ambição e simplesmente se recusa a me ouvir.

Agarrei as mãos dela, sentindo o desespero pulsar nas minhas têmporas.

— Mamãe, pelo amor de Deus, me ajuda! O papai está me empurrando para cima de um velho barrigudo e rançoso. Eu não quero isso! Eu quero me casar com alguém que eu escolha, por quem eu me apaixone de verdade, e não porque meu pai decidiu assinar um contrato e me leiloar. Ele me vendeu, mãe! É isso que aconteceu!

Luiza recuou ligeiramente, assustada, arregalando os olhos.

— Por favor, filha, abaixa o tom e não repita uma barbaridade dessas. Sabe muito bem que seu pai não pode nem ouvir essa palavra dentro de casa.

— É mentira, mamãe? É mentira?! Então me prova o contrário! — exigi, com a voz embargada de lágrimas de pura revolta. — O papai só pensou na própria conta bancária e nas vantagens dele, cagando e andando para o que eu sinto. Ele não quer nem saber como eu estou lidando com essa violência de um casamento forçado. Eu não queria essa vida para mim! Eu queria me casar apaixonada, e não odiando com todas as forças um cara que eu nem sequer conheço. Isso é uma injustiça criminosa.

Ela abaixou a cabeça, engolindo em seco.

— Meu amor, eu sei de tudo isso, e sinto uma dor imensa no peito por não ter poder para mudar essa situação. Eu nem sei quem é o chefão do seu pai direito, só sei o que me contaram... E a pior parte é que amanhã mesmo ele virá aqui em casa para te conhecer pessoalmente e oficializar de vez o noivado de vocês.

O sangue sumiu do meu rosto. O ar pareceu sumir do quarto.

— O quê? Amanhã?! — gritei, sentindo o meu mundo desabar de vez. — Não, mamãe, ainda não! Isso é muito rápido, eu não estou pronta! Eu preciso ganhar tempo, dar um jeito de fazer o papai desistir dessa loucura de me entregar para esse monstro. Me ajuda a pensar em alguma coisa, por favor!

Luiza balançou a cabeça negativamente, com os olhos marejados.

— Não posso fazer mais nada, filha. Você conhece o seu pai, quando ele põe uma ideia fixa na cabeça, nada o faz recuar.

Encarei o teto por um segundo, sentindo toda a vulnerabilidade se transformar em uma raiva fria e calculista. Se o meu destino já estava traçado por eles, eu faria questão de transformar o percurso em um verdadeiro campo minado.

— Quer saber? Eu posso até ser obrigada a assinar esse maldito contrato de casamento, mas vou fazer da vida desse infeliz um inferno na Terra — decreteu cada palavra com um ódio calculado. — Eu não vou facilitar em absolutamente nada para ele, muito menos vou assumir qualquer papel de esposa exemplar. Eu não vou! Que ele procure outra na rua para fingir de boneca de porcelana. Eu nunca serei a mulher dele de verdade. Esse CEO vai se arrepender profundamente até o último fio de cabelo por ter tido a audácia de comprar uma mulher.

Minha mãe levou as mãos à boca, apavorada com a minha audácia.

— Filha, pelo amor de Deus, não faça nenhuma besteira impensada! Ele é o chefe supremo do seu pai, o dono de tudo. Se você abrir a boca para desaforar ou fizer qualquer gracinha, quem vai perder o emprego e ser arruinado é o seu pai. Esse homem é o CEO das empresas mais famosas e poderosas daqui, ele tem poder para destruir a nossa família inteira em um piscar de olhos. Pense bem antes de agir, por favor! Não seja uma menina inconsequente e mimada.

Abri um sorriso frio, sem o menor pingo de medo.

— Não vou fazer nada de errado, mamãe. Só vou dar a ele exatamente o que ele merece. Ele que me aguarde! Comprou uma mulher achando que ia levar um doce de côco, mas vai é devolver correndo, porque eu vou fazer ele passar tanta raiva que a cabeça dele vai dar um nó.

Luiza suspirou fundo, tentando apelar para o lado racional e romântico da história, numa tentativa inútil de me acalmar.

— Pense pelo lado prático, filha... Quem sabe esse CEO não é um homem bonito, charmoso? Vai que você acaba se apaixonando por ele de verdade e consegue dominar tudo nas suas mãos?

Dei uma gargalhada seca, incrédula com a sugestão dela.

— Eu quero que se dane se ele é bonito ou não, mamãe! Eu jamais, em hipótese alguma, serei capaz de amar ou respeitar um homem que acha que pode entrar numa loja e comprar uma esposa como se fosse um carro na concessionária. Para mim, ele não passa de um lixo.

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