Capítulo 4 Daniel

Daniel

Depois do esbarrão desagradável com aquela loira marrenta na faixa de areia, decidi dar meia-volta e retornar para a minha mansão. Minha cabeça estava cheia de preocupações corporativas, mas a imagem daquela garota cuspindo fogo continuava gravada na minha memória. Ao atravessar a porta de casa, joguei as chaves no aparador de mogno e tirei o celular do bolso do cordão de treino. Assim que a tela acendeu, deparou-se com uma verdadeira enxurrada de notificações: eram dezenas de chamadas perdidas e mensagens acumuladas da Carla. Aquela mulher já estava começando a ultrapassar os limites do tolerável e a me encher o saco de um jeito irritante. Ela parecia esquecer que o nosso acordo era puramente físico, baseado em sexo sem compromisso, e já começava a agir como se fosse dona da minha vida.

Que mulher grudenta e sem noção! Eu precisava cortar aquilo pela raiz o mais rápido possível; meu nome não podia de jeito nenhum ficar na boca dos fofoqueiros do escritório ou da alta sociedade. Afinal, eu estava prestes a oficializar um casamento de conveniência, e pegar a própria secretária nos bastidores da empresa ia pegar mal para caralho. Para evitar qualquer estresse desnecessário, simplesmente desliguei o celular, joguei-o sobre a mesinha de centro e rumei direto para o banheiro para lavar a alma debaixo de um chuveiro quente.

Assim que terminei, sequei-me com pressa, vesti uma calça de alfaiataria impecável combinada com uma camisa social de grife e peguei a chave do carro. Eu precisava passar na casa dos meus pais. Era fundamental acertar os detalhes para que eles me acompanhassem no dia seguinte até a residência do meu funcionário, onde eu finalmente conheceria a tal noiva que havia comprado. No fundo, a curiosidade e o receio andavam de mãos dadas: eu só esperava que a garota fosse minimamente apresentável, já que gastei uma fortuna considerável para garantir aquele contrato de casamento. Não podia me dar ao luxo de descobrir na última hora que ela era uma decepção visual. Além disso, rezava mentalmente para que ela não fosse uma patricinha mimada e insuportável, porque minha paciência para caprichos infantis era exatamente zero. Se ela viesse com frescuras, eu faria questão de dobrá-la e dominá-la do meu próprio jeito bruto.

Para falar a verdade, se dependesse exclusivamente da minha vontade, eu continuaria solteiro curtindo a minha vida de ostentação e liberdade sem dar satisfação a ninguém. Mas a expansão monumental dos meus negócios exigia uma fachada familiar sólida, e os meus pais infernizavam o meu juízo diariamente cobrando netos e juízo. Como eu era o único filho e herdeiro da família, acabei cedendo à pressão para acalmar os velhos.

Assim que cheguei à residência deles, entrei usando a minha própria chave de casa e chamei pelos meus pais. Em questão de segundos, ambos apareceram na sala com um sorriso enorme no rosto e vieram me abraçar calorosamente.

— Achei que você não viria mais nos visitar hoje, meu filho — murmurou Joana, minha mãe, acariciando meu braço com carinho.

— Perdão pela ausência, mãe. A semana na holding foi um verdadeiro caos de reuniões e contratos — respondi, tentando soar o mais natural possível.

Mauro, meu pai, cruzou os braços com uma expressão analítica.

— Ocorre alguma coisa grave na diretoria, filho? Algo em que eu possa ser útil para aliviar sua carga?

— Não se preocupe, pai, está tudo sob controle. Tive apenas alguns contratempos técnicos com a frota de aviões, mas a equipe de engenharia já está resolvendo — disfarcei prontamente.

Minha mãe logo tratou de me puxar pelo pulso.

— Venha, senta aqui no sofá, vou mandar prepararem algo forte para você comer. Olhe só para o seu rosto, você está muito magro, trabalhando demais!

— Não precisa de nada disso, mãe, agradeço muito, mas já jantei na rua — recusei educadamente, sentando-me na poltrona. — O real motivo da minha vinda aqui hoje é ver se vocês podem me fazer o favor de me acompanhar amanhã à noite até a casa da minha noiva para oficializarmos as coisas.

Meu pai arregalou os levemente os olhos, surpreso.

— Puxa vida, eu nem sabia que você estava envolvido com alguém sério a ponto de casar.

Joana, por outro vez, deu de ombros, radiante de felicidade.

— E o que importa isso agora, Mauro? O importante é que nosso filho finalmente tomou jeito, vai casar e logo teremos um netinho correndo pela casa para alegrar nossa velhice! Afinal de contas, você virá morar com ela aqui na nossa mansão, não é, Daniel?

Balancei a cabeça negativamente de imediato.

— Mãe, por enquanto vou continuar morando no meu apartamento particular. Com o tempo, quando as coisas se ajeitarem, a gente resolve essa questão de endereço.

Mauro me encarou com desconfiança, percebendo minhas entrelinhas.

— Pelo tom da sua voz e pela pressa, esse casamento definitivamente não estava nos seus planos originais, filho. Só espero que você seja um homem sensato e saiba tratar a moça com respeito para fazê-la feliz.

Minha mãe nos olhou de relance, franzindo o cenho.

— Você não está se casando apenas porque passamos a vida inteira pedindo, né, Daniel? Tem certeza de que é isso que você quer?

— Claro que sim, mãe! Fique completamente tranquila, vocês vão amar a minha futura esposa — menti com uma convicção fria, querendo encerrar logo aquele interrogatório. — Amanhã bem cedinho passo aqui para buscar vocês dois. Agora preciso ir, estou exausto por causa do fuso e do trabalho.

Despedi-me com um abraço firme no meu pai e um beijo carinhoso no rosto da minha mãe. Por dentro, eu sabia perfeitamente que, se eles descobrissem a verdade — que eu literalmente comprei a minha noiva de um funcionário ganancioso —, jamais aceitariam tamanha barbaridade. Mas eu não tinha nenhuma alternativa viável; ou eu seguia por esse caminho arranjado, ou seria forçado a apresentar uma das vadias com quem eu me relacionava casualmente para fingir de mulher perfeita perante a sociedade. O plano era simples: assim que eu conseguisse expandir agressivamente os meus negócios globalmente e ela me desse um herdeiro legítimo para calar a boca dos meus pais, eu inventaria uma desculpa qualquer, pediria o divórcio e seguiria a minha vida. Lógico que eu não seria desumano; ela receberia uma compensação financeira milionária e estaria com a vida ganha após cumprir o seu papel de me dar um filho. Não queria ser injusto com a minha futura esposa, apenas pragmático.

Retornei para a minha mansão, joguei-me na cama e apaguei instantaneamente devido ao cansaço acumulado.

No dia seguinte, levantei-me cedo, fiz minhas higienes pessoais, tomei um banho revigorante e vesti minhas roupas de corrida para cumprir minha rotina matinal na praia. Enquanto corria pela orla com passagens firmes e ritmadas, meus olhos bateram em uma figura conhecida sentada na areia, observando o movimento apático ao redor. Era exatamente a mesma loira marrenta com quem eu havia trombado no dia anterior.

Um impulso magnético me puxou para aquela direção. Mudei a rota, caminhei pela areia fofa e fui direto sentar-me ao lado dela sem pedir licença.

Assim que percebeu minha presença invasiva, ela virou o rosto com uma expressão de pura repulsa.

— Você de novo por aqui?! Por acaso está me seguindo, seu maníaco?

Soltei um sorriso irônico, mantendo o tom de voz calmo e provocador.

— Calma, gatinha, relaxa essa marra toda. Eu só vi você sentada aqui sozinha e quis aproveitar para vir me desculpar formalmente pelo ocorrido de ontem.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo