Capítulo 5 MAriana
O Confronto Familiar e a Tensão na Areia
Mariana
Eu nunca, em toda a minha vida, imaginei que o homem que me colocou no mundo, meu próprio pai, teria a coragem fria e calculista de me tratar como mercadoria e me vender. Uma traição dessas rasgava a alma, e eu sabia que nunca seria capaz de perdoar uma baixeza desse tamanho.
Assim que o relógio marcou o horário do jantar, desci as escadas com passos firmes, respirando fundo para conter a fúria que ameaçava transbordar. Ronaldo, meu pai, e minha mãe, Luiza, já estavam sentados à mesa aguardando. Puxei a cadeira em silêncio, sentei-me de frente para eles e comecei a me servir, mantendo o maxilar travado.
— Filha, preste atenção — começou meu pai, limpando a boca com o guardanapo de pano. — Amanhã à noite, o seu noivo virá aqui em casa para te conhecer pessoalmente, oficializar o noivado e trazer a família dele para jantarmos.
Fitei-o com um olhar carregado de gelo e incredulidade.
— Será que a minha opinião vale alguma coisa nesta casa, papai? Porque desde o segundo exato em que o senhor anunciou essa barbaridade do casamento forçado, não me deu a mínima chance de abrir a boca para dizer o que eu penso.
Ronaldo suspirou impaciente, cruzando os braços sobre a mesa.
— Entenda de uma vez por todas que isso é para o seu próprio bem, Mariana. Com um homem desse porte, você terá uma vida de rainha, regada a luxo e conforto. Aqui nesta casa, eu só consegui pagar a sua faculdade com muito suor para que você pudesse ter uma profissão, mas ralei duro a vida inteira para isso.
Minhas mãos tremeram de raiva e joguei o garfo sobre o prato com força, fazendo um estalido seco.
— Eu nunca pedi nada disso para o senhor! Nunca fiz questão de ostentação ou de uma vida de futilidades; sempre fomos felizes e unidos do nosso jeito simples. Mas aí, bastou esse seu chefe mimado anunciar que estava à procura de uma esposa de fachada, e o senhor não pensou duas vezes: correu para lá e me vendeu como se eu fosse um objeto qualquer em uma vitrine.
O rosto de meu pai ficou vermelho de fúria e ele bateu com a mão na mesa.
— Cala a boca, Mariana! Não ouse falar desse jeito comigo! E quer saber? Antes ele do que qualquer vagabundo pé-de-chinelo por aí que não ia te oferecer absolutamente nada de produtivo nessa vida. Ele é bilionário, porra! Vai te dar uma estrutura que nós jamais poderíamos proporcionar.
— Eu não quero esse dinheiro! Eu não vou me casar! — gritei, levantando levemente da cadeira. — Não vou aceitar ser obrigada a me deitar com um nojento arrogante que acha que pode comprar uma mulher com um talão de cheques. Isso é repugnante!
Minha mãe interveio, com os olhos marejados de aflição.
— Por favor, filha, abaixa a voz e não comece uma guerra perdida! Escute o seu pai. Se no fim das contas o casamento realmente não der certo, você pede o divórcio e pronto, resolve a vida.
Soltei uma risada amarga e incrédula.
— Vocês armaram essa cilada e me jogaram nela sem o meu consentimento, então não venham me culpar depois se eu acabar assassinando o meu querido maridinho de tanta raiva e estresse que vou fazer ele passar!
— Chega de ameaças ridículas, menina! — rosnou meu pai, perdendo a paciência de vez. — Amanhã, esteja pronta e vestida adequadamente nesse horário, e nem ouse me obrigar a ir até o seu quarto te arrastar à força.
Não aguentei ficar um segundo a mais naquele antro de hipocrisia. Saí da mesa correndo, subi os degraus correndo em direção ao meu quarto, tranquei a porta, joguei-me de bruços na cama e deixei as lágrimas de puro ódio escaparem.
Mas o choro durou pouco. A vulnerabilidade logo se transformou em sede de vingança. Eu não ia me abalar a ponto de me curvar. Pelo contrário: eu faria da rotina daquele homem um inferno absoluto. Se ele quis comprar uma mulher achando que levava uma boneca dócil, que me aguarde.
Horas mais tarde, enquanto eu encarava o teto no escuro, a porta se abriu lentamente e minha mãe entrou com passos silenciosos, sentando-se na beirada do colchão.
— Filha... você sabe muito bem que, se dependesse exclusivamente de mim, jamais permitiria que você casasse desse jeito — sussurrou ela, cabisbaixa. — Mas você conhece o seu pai, eu não tenho força para contrariar as vontades dele.
Virei-me de lado, encarando-a com indignação.
— Por que, mãe? Por que a senhora sempre abaixa a cabeça e faz exatamente tudo o que ele quer? A senhora também tem direito a voz e voto nesta casa!
Luiza deu um sorriso triste e nostálgico.
— Ah, meu amor... Na minha idade e com a minha história, eu queria ter a metade da sua coragem. Mas eu sei que você, sim, vai ser uma rocha inabalável nesse casamento.
— Pulso de ferro, mãe! Eu vou infernizar a vida desse homem até ele pedir piedade ou me mandar de volta. Ele não quis comprar uma mulher no grito? Pois vai ter o troco à altura.
Ela soltou uma risada fraca e nervosa.
— Ai, meu Deus... Vou sentir saudades de você aqui em casa.
— Em breve estarei de volta, mamãe! Grave o que estou te dizendo: ele não vai me aguentar por muito tempo. Vai me devolver com pedido de socorro e tudo, a senhora vai ver só.
Luiza balançou a cabeça reprovando, ajeitando o cobertor sobre mim.
— Vai dormir, filha! Você está falando muita besteira da boca pra fora.
Ela se levantou, deu um beijo na minha testa e saiu do quarto. Fechei os olhos, mas a minha mente continuava a mil por hora, maquinando cada detalhe da tempestade que desabaria no dia seguinte.
