Capítulo 2 02
Estou cego pela fúria, mas paro minutos depois quando me lembro de que, se ele morrer agora, vai fácil demais. Não vai ter o sofrimento que merece.
Sinto meus dedos fodidos e doloridos. Aperto a mão e vejo a vermelhidão do sangue do seu nariz ali.
Não me importo se ele está com o rosto fodido, não me importo se está pedindo ajuda através de gemidos. Não me importo com mais nada, só com o fato de que esse homem quase destruiu uma empresa de anos, um império. O meu império. A rede de hotéis de luxo não era nada quando meu avô a criou quando ainda era novo. Não era muito mais quando meu pai a assumiu muitos anos depois, mas se transformou na maior rede de hotéis do Brasil e alcançou diversos países do mundo quando eu assumi. Tenho orgulho de tudo o que construí e absolutamente ninguém vai me tirar isso.
Tiro um lencinho de dentro do paletó do terno e limpo meus dedos.
— Nós vamos ter uma conversa séria agora. Consegue me ouvir?
— Seu filho da…
— Não, César. O filho da puta aqui é só você.
Me ajoelho em frente ao seu corpo ainda estirado no chão e o encaro. Patético.
— Passei todos esses dias tentando pensar em uma maneira de te presentear pelo que você me fez — falo, ouvindo seus gemidos de dor. — Shh, quietinho porque ainda não acabei de falar.
— Eu vou…
— Pensei em pegar a sua mulher. Uma troca, sabe? — interrompo e ele tenta me atingir com um chute. — Aquilo que mais importa para mim por aquilo que mais importa para você. Ou melhor, por quem mais importa para você.
— Não vai… — diz com uma careta de dor. Seus olhos já começam a ficar inchados pelos socos que dei e eu sorrio.
— Mas aí eu pensei… Você ama a sua mulher, tanto que quase faliu a minha empresa por ela. — Aperto o maxilar de raiva. Quero partir para cima dele de novo. Bater nele até ele se acabar, mas preciso terminar o que planejei. Vou até o fim com isso. — Mas quem você ama mais no mundo não é a sua mulher, nem a sua mãe. Quem você mais ama no mundo é Cecília, sua queridinha filha. Aliás, como ela está?
— Você não vai tocar na minha filha, seu desgraçado!
— Será que não vou, César? — falo. Sorrio para ele e dou um soco no seu braço como costumávamos fazer. — Sua princesinha doce, meiga, seu anjinho. Como você a chama mesmo? Seu cristal…
Me levanto e o deixo tentar lutar para se levantar, mas a dor o impede. Gosto de vê-lo ali, rastejando como um verme. Vou até o armário de bebidas e tiro uma garrafa de conhaque. Encho um copo e viro a bebida quente de uma vez. Repito o gesto e volto a me sentar na cadeira, esticando o pescoço para vê-lo.
— Por que ainda está aí no chão, cara? Senta aqui para eu te ver melhor… — falo. Ele xinga, resmunga, tenta se mover, mas a dor o vence. Volto a me levantar, vou até ele e o levanto de uma vez.
Praticamente o arrasto em direção ao sofá de couro preto no canto do escritório e o jogo ali. Me sento ao seu lado no outro assento e apoio a lateral do pé sobre um joelho.
— Como ela está, hein, César? — pergunto, mas não o deixo responder, porque tudo o que eu quero é deixá-lo irado. Não existe nada que ele não faça por sua preciosa filha, para a proteger. — Quando ela volta dos Estados Unidos? Lembro de como ela era um anjinho. Vai ser bom ter uma pessoa doce e recatada assim do meu lado.
— Do seu lado? — diz e passa a manga do paletó no nariz que está escorrendo sangue. — Que porra você está falando, Thomas? Não mexe com a minha família!
— Ah, César… Você mexeu com a minha vida, por que eu não vou mexer com a sua?
— Ela… É diferente, cara. Aqui é só dinheiro. Eu te devolvo tudo! Consegui multiplicar com investimentos e você sabe como minha família é rica. Eles podem me…
— Ah, você devolve? Simples assim? — pergunto e sacudo a cabeça. — Escuta bem, as coisas não vão ser fáceis para você daqui para frente. Não basta me devolver tudo o que me roubou, você vai ter que sentir o que eu senti quando quase perdi tudo.
— Você está louco.
— Você não viu nada, César. Não viu nada. — Estico o braço e pego o contrato meticulosamente planejado com meu advogado. — Vamos deixar de falar de família. Vamos para o que mais gosto: negócios. Aqui está o que você vai precisar fazer. Vou ser bondoso e ler enquanto você está impossibilitado.
Ele se remexe no sofá e me encara com raiva, mas não ligo e leio o que está escrito no papel.
— Cecília Magalhães será obrigada a se casar com Thomas de Albuquerque e realizar todos os seus desejos — falo e paro só para apreciar a expressão de surpresa e revolta em seu rosto. — Não é o máximo, César? De tudo o que a gente foi na vida, amigos, irmãos, parceiros de negócios, eu vou ser seu genro. A vida é irônica demais, não acha?
— Casar? Você está louco? A minha Cecília é uma menina! Ela só tem dezenove anos, Thomas. Não faz uma besteira.
— Besteira, eu? Não se preocupe. Jamais ia fazer alguma coisa para te machucar, amigo!
Ele me olha cético e eu explodo em uma risada pela sua expressão. Se tem algo que me dá mais prazer além de pisotear quem se mete no meu caminho é brincar com a presa como se fosse um filhotinho. Amo ver a ira, a esperança e o desespero se misturarem enquanto faço o que eu quero.
— Você acreditou, não foi? Ai, César, parece que não me conhece.
— O que você quer? Faço tudo, mas não mexe com a minha filha.
— É exatamente por isso que eu a quero — falo e jogo o contrato de lado. — E eu vou ter, porque eu tenho tudo o que quero, César. Você devia ter pensado nisso antes. Agora vai embora daqui. Vou te procurar daqui uns dias. Não tente fugir com sua filha, porque acho todo mundo nem que seja no inferno. E aí vai ser pior.
— Você vai se arrepender.
Me levanto e não respondo. Volto para a minha cadeira e começo a trabalhar para recuperar o prejuízo. Vou ter que me desdobrar para não perder os hotéis que demoraram anos para serem reconhecidos e renomados, mas não desisto do que quero.
César se levanta com dificuldade e anda até a porta devagar, tocando a costela.
— Até mais, sogro! — provoco com um sorriso, que se fecha assim
que ele destranca a porta e sai dali.
O primeiro passo já dei, agora falta o resto.
