Capítulo 6 06
Thomas
Escuto com atenção enquanto Cecília conversa com seu querido pai pelo telefone. Vejo o segundo em que seu rosto se transforma de preocupação para puro desespero. Sento, espero e olho para o relógio com impaciência. Estou entediado.
— Como você pôde fazer isso, papai? — a garota sussurra em um fio de voz e as lágrimas escorrem pelo seu rosto pálido.
Espero.
Acompanho toda a raiva despejada de um jeito até meigo, até que Cecília desliga o telefone.
— Oh, querida, eu sinto muito. Sabe que sempre tive seu pai como um irmão. Estou tão decepcionado quanto você. — Abro um sorriso cínico, porque sei que vou usar a tristeza que vejo no seu rosto agora contra seu pai.
— Como você pôde? — ela explode enquanto limpa as lágrimas com raiva do rosto.
— Como eu… — Olho para ela com surpresa pela explosão. — Como eu pude? Como o seu pai pôde seria a pergunta certa, garota!
— Você se acha muito melhor do que ele, não é? Acha que pode simplesmente sair comprando as pessoas para pagar os erros das outras.
Solto uma risada sarcástica e sacudo a cabeça de descrença. Me aproximo dela, e a garota perde completamente a pose. Ela dá vários passos para trás, mas logo a porta atinge suas costas, sem saída. Seus olhos estão vermelhos do choro e seu rosto está corado, não sei dizer se de raiva ou de excitação. Percebi os sinais que seu corpo me deu assim que ela me viu. Notei que a garota ficou mexida com a minha presença, mas não quero nada com ela. Não faz meu tipo. Não gosto de ratinhas assustadas. Apesar de ter sido surpreendido pela mulher que se tornou, não me interessa. Como eu disse para ela: tudo não passa de negócios. Uma relação que vai me trazer muitos benefícios. O primeiro deles vai ser me vingar de César e o segundo é para acalmar a mídia e os investidores, que estão frequentemente me cobrando um casamento. Aí está. Mato dois problemas de uma vez. Resolvido. Nada que faço na minha vida é em vão. Minhas atitudes são muito bem pensadas e caem sempre para a mesma pergunta: o que eu vou ganhar com isso?
— Cecília… — digo e limpo a lágrima que escorre do seu rosto. — Você não vai querer me irritar, Cecília. Colabora comigo que eu vou ser o melhor dos maridos para você. O que acha, cristal?
Sorrio pelo deboche do apelido que seu pai usa e ela parece notar, porque sua expressão volta a se fechar e a ficar feroz.
— E você vai fazer o quê? Me vender para outra pessoa se eu não colaborar? — pergunta com frieza, e arqueio a sobrancelha. — Eu não sou a droga de uma mercadoria! Não sou uma moeda de troca, não sou um objeto que se usa para atingir seus objetivos. Eu sou um ser humano.
— Ah, você vai ser minha moedinha, querida. Não fique tão chateada. Não leve para o lado pessoal. Não é você, sou eu.
Solto uma risada pela cara de choque que a garota faz. Essa família me entretém como nenhuma outra faz. Ela continua na batalha contra as lágrimas que mancham seu rosto.
— Ok, já perdi a minha paciência com o seu chororô. Já está tudo resolvido? Tem alguma dúvida? Não? Tudo bem.
Me afasto e olho a hora no relógio. Percebo que perdi tempo demais nessa brincadeira. E meu tempo custa caro. Tenho algumas reuniões aqui em Nova Iorque, para tentar resolver uma parte do problema que meu querido sócio me meteu.
— Arrume as suas coisas que nós vamos voltar para o Brasil daqui uns dias. Assim que chegarmos, nós vamos espalhar para a imprensa a nossa união — digo, olhando de volta para ela. — “Thomas de Albuquerque, o solteiro mais gostoso e cobiçado do Brasil, finalmente encontra uma sortuda”. Vai ser uma boa manchete, não acha?
— Você é louco! Eu não posso simplesmente ir embora daqui. Eu…
— Você…?
— Faltam seis meses para terminar os meus estudos. Batalhei muito por isso aqui e ninguém vai me tirar essa chance — fala. Empina o queixo, mas encolhe o corpo assim que volto a me aproximar.
— O que você cursa?
— Contabilidade — murmura com um fio de voz e abaixa o rosto.
Solto uma risada sarcástica. Mas é claro que ela ia seguir o caminho do papai.
— Ah, verdade, começou para trabalhar na empresa, não foi? Seu paizinho me contou. Uma pena. Mas me diga… Estava planejando golpes como o papai?
A garota ergue a mão para acertar meu rosto, mas eu prevejo a ação e seguro sua mão no lugar.
— Eu achei que você fosse meiga e delicada, garota. Mas você só está me irritando.
— Estamos falando do meu futuro — fala e sacode a cabeça, decepcionada. Eu não poderia me importar menos com a sua revolta. Só me deixa mais motivado para concretizar meus planos, porque se ela sofre, César sofre o dobro. — Como você tem coragem? Pelo que meu pai conta, você me viu nascer e crescer. Você estava sempre na minha casa, com a minha família e…
Sua voz embarga e ela não consegue falar. Solto sua mão e a garota parece desabar. Suas mãos vão para os braços e deslizam pela pele freneticamente, como se estivesse com frio.
— Não quero ouvir seu discurso, garota. E isso aqui — aponto para sua mão — nunca mais vai se repetir. Não ouse levantar a mão para mim, entendido?
Ela não responde e eu ergo seu rosto para o meu.
— Entendido, cristal?
Cecília puxa o rosto com força, se afasta de mim o máximo que pode e vai para a cama. Ela se senta e puxa as pernas. Apoia o queixo nos joelhos e chora. Eu vou até a porta e a abro, pronto para sair dali.
— Ok, vou te deixar aí no seu drama juvenil. O motorista vai te levar de volta para você buscar o resto das suas coisas. Seja rápida. E esteja aqui quando eu voltar. Temos um contrato para assinar.
— E a minha faculdade? — pergunta e eu volto pela porta já aberta.
— Existem faculdades no Brasil, querida. Você pode cursar uma delas. E não é como se você fosse precisar mais dela, afinal, você nunca vai poder pisar naquela empresa.
Pisco para ela, saio dali apressado e olho para o relógio. Quase me atrasei. Odeio atrasos. No caminho para a reunião, tiro o celular do bolso do paletó e disco o número de César.
— Meu amigo, quanto tempo! — digo e ouço a sequência de xingamentos vindo do outro lado. — Que isso, César? Eu sabia que não estava com saudade, mas precisa ofender meus sentimentos assim? E a nossa amizade, como fica?
— Vá se foder, Thomas! Você é um miserável de merda.
— Você se esqueceu de me falar que a Cecília se transformou numa bela mulher, César. Sua princesinha cresceu rápido. Quanto orgulho… Uma pena ela não poder mais exercer a profissão como você, não acha? Ela parece inteligente e esforçada — zombo, pisando na proteção e no cuidado que sei que sempre teve com a filha. — Vou cuidar direitinho dela, sogro. Não se preocupe.
Desligo na sua cara e volto a guardar no paletó. O motorista estaciona em frente ao restaurante onde marquei a reunião e desço do veículo.
Hoje uma parte da confusão vai ser resolvida, porque não aceito perder mais nada do meu império. Assim como não aceito que ninguém que mexe comigo saia impune
