Capítulo 7 07
Quando estou livre de todos os compromissos, volto para o hotel. Espero encontrar a ruivinha nervosa ali, então vou direto para a suíte presidencial onde ela está. Bato na porta, mas ninguém me responde. Volto a bater, impaciente com a atitude adolescente.
— Cecília, abre essa porta!
Como não tenho resposta, pego meu celular e ligo para o motorista que ficou encarregado de levar a garota até a sororidade onde ela mora. Ele atende no primeiro toque.
— Sim, senhor?
— Onde ela está? Onde está Cecília? — pergunto, impaciente.
— Eu a deixei lá, senhor. Ela disse que ia precisar de tempo para organizar tudo, mas que depois me ligava.
— E quanto tempo faz isso?
— Al-Algumas horas, senhor — o idiota gagueja e eu praguejo. Desligo o telefone na sua cara e ando a passos largos até a saída do hotel.
Pirralha irritante.
O que era para ser uma coisa tranquila está se transformando em uma maldita dor de cabeça. Preciso que aquela garota entenda de uma vez que a vida do seu pai está nas minhas mãos. Infelizmente, ela foi a selecionada para resolver o prejuízo que ele me causou. Ou é isso ou o desgraçado vai morrer na cadeia. Custe o que custar.
Peço para o motorista que está comigo me levar de volta para onde Cecília mora e tento falar com ela pelo número que meus investigadores descobriram, mas a ligação nem chama.
— Garota filha da… — xingo e falo com o motorista: — Mais rápido.
Assim que o veículo para em frente ao lugar, eu subo as escadinhas que mostram as letras grandes do nome da sororidade. Toco a campainha e não demora para uma das garotas assanhadas de mais cedo aparecer na porta.
— Cecília está aí?
— Hum… Não. Acho que ela saiu com a Kelly. Tinha alguma festa e elas foram.
— Festa? — pergunto sem acreditar e ela acena. — Obrigado.
Desço as escadas rapidamente e tento ligar para ela mais uma vez. Como não atende, deixo um recado na sua caixa postal.
— Cecília, se você não estiver no hotel daqui a vinte minutos, vai se arrepender, garota. Não ache por um segundo que vou ter pena do seu paizinho, porque não vou.
Volto para o hotel e espero. Sei que o ratinho assustado com pose de gavião irá voltar cedo ou tarde.
**
Thomas
Cecília não voltou. Já são três horas da manhã e a garota pentelha sumiu. Seu celular continua indisponível. Já liguei para os seus pais perguntando por ela, ameaçando, mas os dois pareceram surpresos e preocupados, então descartei uma fuga dela a mando deles. Eu estou puto, porque odeio quando me desobedecem. Eu disse para ela estar aqui no hotel quando voltasse, e era para ela estar aqui. Simples.
Desisto de esperar.
Levanto da cama e coloco uma camisa antes de pegar a chave do carro. Desço pelo elevador e faço algumas ligações. Busco informações das festas nas redondezas e não é difícil encontrar o local da “grande festa” nas redes sociais. Coloco a localização no GPS e demora apenas dez minutos para chegar. Vejo um monte de pirralho em frente à casa de uma fraternidade com os copos vermelhos nas mãos e a algazarra rolando solta pelo meio da rua.
Amaldiçoo Cecília alto, querendo esmagar o seu pequeno pescocinho, e estaciono o veículo. Desço e desvio das pessoas bêbadas que entram na minha frente até chegar à porta da fraternidade. Penso em perguntar pela garota, mas não tenho paciência para lidar com adolescente, muito menos bêbados, então decido procurar eu mesmo. Olho para todos os lados e faço cara feia ao ver a zona que isso aqui está. De repente, paro quando vejo um cabelo ruivo destacado no meio de um círculo de bêbados.
— Cecília! Cecília! Cecília! — eles gritam, enquanto a garota vira uma garrafa de bebida na boca.
Passo as mãos pelos cabelos e me aproximo. Aperto o ossinho do nariz e penso em que porra eu me meti. Paro perto do grupinho, que se afasta e me encara com receio. Todos ficam em silêncio e a garota maluca parece ser a única a não notar que cheguei, pois segue virando a bebida.
— Cecília — uma garota fala baixinho, mas a ruiva não para.
Quebro completamente a distância e seguro a garrafa. Ela resmunga e solta um “ei” alto antes de se virar para mim.
— O que acha que está fazendo, Cecília?
— Ah, é você… — Bufa e joga os cabelos para trás.
Seu rosto agora está maquiado, o que a deixa mais com cara de mulher e menos de menina. Os lábios grandes e fartos estão preenchidos por um batom rosa demais, e é neles que foco enquanto um bico se forma ali.
— Vocês são todos uns irresponsáveis — falo e aponto o dedo para a galerinha ao redor, que se dispersa e se espalha. Só fica a garota que a chamou, uma morena dos olhos verdes e de cabelos longos.
— Você é amiga dela? — pergunto em inglês e solto um suspiro ao ver que a garota começou uma espécie de dança desengonçada.
— Sou. Eu não sei realmente o que aconteceu com ela — fala, segurando o riso. — Cecília nunca aceitou sair comigo até hoje. E o pior que foi ideia dela. Começou a beber e não parou mais. Acho que estava precisando extravasar.
— Garota maluca — resmungo e me apresso para segurar quando quase cai de cabeça no chão após tropeçar nas próprias pernas. — Eu vou a levar daqui.
— Ela não vai sair daqui com um desconhecido. Não vou deixar. — A amiga arqueia uma sobrancelha e tenta afastar Cecília de mim.
— Não sou um desconhecido. Sou Thomas de Albuquerque, amigo da família e futuro marido dela. Agora, com licença que não tenho paciência.
Ergo a garota bêbada nos braços sob protestos e a levo para fora dali. Praticamente grito para que as pessoas saiam da frente, enquanto Cecília se debate no meu colo e me xinga. Só a solto quando chegamos ao carro. Coloco a garota no chão para poder abrir a porta para a colocar no banco de trás.
— Você não devia ter… — Ela não termina a frase, pois seu corpo convulsiona e a pequena pentelha vomita na minha camisa.
Fecho os olhos, prendo a respiração e aperto as unhas na palma das mãos.
— Eu vou te… — falo, mas ela me interrompe novamente, sujando a minha camisa inteira.
— Acho que eu sujei você bem… aqui — fala rindo e empurra a unha no meu peito.
Me afasto dela e me livro da camisa. Deixo jogada ali no meio da rua mesmo. Abro a porta sem paciência e coloco Cecília ali, sem me preocupar em colocar o cinto de segurança nela. Estou puto e precisando socar alguma coisa para que a raiva não me faça desintegrar. Dirijo rapidamente até o hotel e nem estaciono. Tiro a garota do banco de trás e a levo no colo. Não ligo para os olhares dos funcionários que trabalham na recepção durante a madrugada, apenas sigo pelo elevador até seu quarto.
Abro a porta com dificuldade por ter Cecília no meu colo, mas finalmente consigo. Eu a deito na cama e penso em só a deixar ali mesmo. Estou quase fazendo isso quando lembro que o único erro dela foi ter nascido de um filho da puta de merda. Arrumo a garota na cama direito e a cubro com o edredom que está na cama. Tiro seu vestido curto e apertado por debaixo do tecido. Olho feio para a peça em estado de calamidade e tiro meu celular do bolso da calça. Disco para a recepção, que atende rapidamente.
— É o Thomas falando. Preciso que alguma funcionária venha para o quarto 905 agora.
— Sim, senhor Thomas. Vou providenciar alguém agora mesmo — responde a mulher do outro lado.
Em menos de cinco minutos, uma senhora aparece.
— Preciso que contate alguém para lavar essas roupas e que você fique de olho nela durante a noite. Pode deixar o seu trabalho de lado até a manhã, só cuide para que nada aconteça e que ela não morra afogada no próprio vômito.
— Sim, senhor. O senhor precisa de alguma coisa? — pergunta, olhando para minha calça suja graças a Cecília.
— Vou deixar essas roupas na porta do meu quarto. Peça que busquem também.
— Sim, senhor — confirma com a cabeça e se aproxima de Cecília.
Saio dali e vou direto para meu quarto. Meu celular vibra assim que o coloco em cima da mesinha de madeira no canto do lugar. Vejo o nome de César na tela e sorrio. O homem deve estar morto de preocupação pensando que a filhinha dele fugiu, que algo aconteceu e ele está do outro lado do mundo, sem saber notícias, sem poder fazer nada.
Eu podia mandar uma mensagem para o tranquilizar, mas que graça ia ter? Só desligo o aparelho e tiro as roupas. Faço como falei para a funcionária e volto para tomar um banho para limpar a meleca que aquela pentelha fez em mim.
Amanhã ela vai aprender, assim como seu paizinho, que não se brinca comigo. Que ninguém ousa me desobedecer.
**
Levanto cedo mesmo tendo dormido de madrugada pelo costume. Meu corpo já está treinado a acordar às sete e meia da manhã todos os dias, e não tem quem me faça ficar na cama até tarde.
Coloco uma roupa limpa depois de tomar um banho e escovar os dentes. Passo a mão pelos cabelos para pentear, coloco o relógio no pulso e calço os sapatos antes de ir até onde Cecília está dormindo. Bato na porta e demora alguns minutos até a funcionária abrir. Entro e vejo que a garota ainda está dormindo. Não sei o que ela estava pensando ao sair como uma louca bebendo todas as bebidas do mundo, mas não vou dar o gostinho de deixar a princesinha descansar depois de tudo.
— Pode deixar que cuido de tudo a partir daqui — falo para a senhora, que apenas acena e sai.
Me aproximo da cama e observo o rosto manchado de maquiagem da garota. Sacudo seus ombros de leve e ela resmunga, batendo na minha mão.
— Acorda, Cecília — falo e sacudo seu corpo de novo. — Acorda!
A garota acorda em um salto e arqueio a sobrancelha quando vejo que seus seios ficaram rapidamente expostos com o movimento.
— O que… — Apenas escuto sua voz rouca de sono. — O que aconteceu com a minha cabeça? Eu morri?
— Você está de ressaca — respondo e coloco as mãos no bolso da calça social. — Dá para se cobrir de novo com o edredom?
— Eu… — Espero a confusão dar lugar à realidade. — Por que eu estou sem roupa? O que você fez comigo, seu maluco?
Assim que ela se cobre, olho para seu rosto. Os cabelos ruivos estão bagunçados, grudados no rosto todo marcado de algo preto que escorre pela bochecha.
— Não fiz porra nenhuma. Não quero nada contigo nem sóbria, imagina bêbada, garota. Não sou um estuprador.
— Eu… Me desculpa — fala e passa a mão no cabelo. Seu rosto cora e quase fica da cor do seu cabelo. — Não me lembro de nada.
— Consequências da sua bebedeira desenfreada — murmuro sem paciência e travo o maxilar, puto da vida com ela. — Consequências de você ter desobedecido minhas ordens.
— Você não manda em mim — fala e me encara de baixo.
— Pensa assim, garota. Vou descer para tomar café da manhã. Você
tem dez minutos para se recompor, limpar essa sujeira do seu cabelo e descer até o restaurante. Não tente fazer mais nenhuma gracinha, Cecília. Não brinque comigo.
— Eu não vou descer.
— Você vai. Preciso te dizer as consequências para seu pai se você pensar em fugir ou tornar as coisas difíceis? — pergunto e ela abre e fecha a boca, chocada. — Imaginei que não. Dez minutos.
Olho as horas no relógio e ando em direção à porta.
— Você pode me trazer um remédio para dor de cabeça? — pergunta e eu arqueio a sobrancelha. — Por favor…
— Dez minutos. — É tudo o que respondo antes de bater a porta com mais força que o necessário, sabendo o quão doloroso isso deve ter sido para sua cabeça.
Encontro um funcionário no meio do caminho e peço que ele faça o que Cecília pediu. O homem acena e corre para cumprir minhas ordens enquanto eu desço em direção ao restaurante.
Espero mesmo que não tenha causado mais dor de cabeça para mim com esse plano que agora me parece completamente idiota. Não sei até quando consigo aturar aquela garota imatura, inconsequente e irresponsável sem surtar.
