Capítulo 1

Quanto mais eu choro, mais tesão a minha irmã sente.

Não é metáfora. É a mais pura realidade. Eu e a popstar Melody compartilhamos uma “ligação emocional” doentia — quanto mais eu sofro, mais ela brilha no palco.

Meu marido, Christian, descobriu esse segredo.

E então decidiu me trair e se enfiar na cama com a Melody.

Agora, toda vez que a Melody tem um grande show, Christian me tranca no porão, me entope à força de comprimidos para depressão e põe filmes de terror no volume máximo, 24 horas por dia, até eu ficar completamente destruída.

Meu desespero é alimentado direto na energia da Melody, fazendo ela se apresentar como se estivesse possuída.

Esta noite, eles estão transando para comemorar a vitória dela. Amanhã, o show significa me sugar até secar de novo.

Chega!

Se a minha dor é a droga sexual de vocês, eu vou cortar o fornecimento de vez.

Vou ao centro médico para me congelar por um ano inteiro.

Que vocês dois, seus desgraçados tarados, se comam até morrer!


Ponto de vista de Harper

— Vamos, amor, toma logo essa porra desse comprimido. A Melody precisa de você hoje à noite.

Christian se aproximou de mim com aquele comprimido azul, usando o seu sorriso gentil.

Eu me encolhi no canto do sofá, balançando a cabeça. — Christian, eu não aguento mais... Da última vez eu fiquei destruída por três dias inteiros.

— Qual é, não dificulta. — Ele sentou ao meu lado, com a voz mansa, persuasiva. — Você sabe o quanto hoje é importante pra Melody, né? O American Music Awards... ela vem se matando de trabalhar há um ano inteiro.

Nós dois sabíamos o que aquele comprimido realmente fazia — me jogava num desespero extremo e, quanto mais deprimida eu ficava, mais radiante a Melody se tornava. Essa ligação doentia tinha começado na infância. Ninguém sabia por quê, mas funcionava.

Agora a Melody era a cantora mais badalada dos Estados Unidos, juntando prêmios como se fossem balas.

— Por favor... não... — Eu recuei, desesperada. — Christian, tem que existir outro jeito. Talvez outra coisa pudesse ajudar a Melody...

Christian suspirou. — Olha, a gente já tentou de tudo, não tentou? Só você pode ajudar ela. Harper, você devia se sentir GRATA por a sua dor fazer dela uma estrela.

Grata? Eu ri, amarga. — Eu prefiro mil vezes não ser a porra da bateria de ninguém!

— Não fala isso. — A paciência dele foi acabando; ele agarrou meu tornozelo com força. — Toma o comprimido! Depois eu assisto ao show da Melody com você.

Eu gritei: — EU NÃO VOU! Toda vez que eu tomo essa merda, eu sinto que estou morrendo!

Ele puxou o celular. — Olha, a Melody até te mandou mensagem.

Melody: Mana, hoje à noite é TUDO pra mim. Você tem que estar do meu lado! Te amo!

— Viu o quanto ela se importa? — Christian insistiu, pressionando. — Ela até disse que vai te dar uma coisa legal se ganhar.

Eu zombei. — Para com essa palhaçada. Ela não tá nem aí se eu vivo ou morro. Ela manda essas mensagens pra você poder me torturar sem culpa!

— CHEGA! — O rosto de Christian escureceu. — Isso é sobre o nosso futuro, Harper. Nós somos um time—

— Time? — A raiva me acertou em cheio. — Quando foi que eu assinei pra entrar nessa porra de time?

A expressão de Christian virou gelo. — Meu Deus, Harper! Para de drama. Você vive do sucesso da Melody. Tá na hora de merecer o que ganha.

— EU NÃO mereço isso! Eu nunca quis nada disso!

— Mas você ACEITA, não aceita? — Christian se levantou. — Esta casa, essas roupas, cada mordida de comida... o dinheiro da Melody paga por TUDO! Então por que você acha que pode aproveitar os benefícios sem dar nada em troca?

— Então pega tudo de volta! Eu não quero NADA disso! — tentei correr, mas ele me jogou no chão.

— Você vai tomar a pílula ou não?

— NUNCA! Eu vou SAIR daqui! — lutei desesperadamente.

Christian agarrou meu maxilar, forçando minha boca a abrir. — Não me provoca, Harper!

A pílula amarga foi enfiada goela abaixo. Engasguei e tossi, mas não consegui cuspir.

— Aí está. — O sorriso dele voltou. — Agora vamos descer.

— NÃO! Eu não vou!

Ele me arrastou até o porão e me prendeu na cadeira com correias. As telas se acenderam com filmes de terror, os alto-falantes explodindo em gritos. Mesmo depois de incontáveis vezes, o pavor ainda me agarrava.

— Christian, por favor... — sussurrei, desesperada. — Eu sou sua ESPOSA! Você não me ama mais?

Ele apertou as tiras de couro em volta dos meus pulsos. — Amor não paga as contas, Harper. O sucesso da Melody paga.

Meu coração se despedaçou. — Então... então você escolheu ela em vez de mim?

— Eu escolhi o nosso futuro. — Christian ajustou as telas, frio. — Olha pra Melody: vinte e três anos e já no topo. Agora olha pra você... o que você tem além de reclamações?

A tela principal explodiu com a cobertura do tapete vermelho. Melody brilhava no vestido de grife, deslumbrando cada câmera.

A droga fez efeito no meu corpo. O desespero caiu sobre mim como uma onda.

— Perfeito. — Christian observou meu rosto se contorcer, com excitação nos olhos. — Olha como a Melody está incrível.

Conforme minha dor disparava, a Melody na tela ficou absolutamente radiante. Repórteres se acotovelavam ao redor dela:

— Eu estou superconfiante pra hoje à noite! Eu tenho a rede de apoio mais incrível do mundo!

O sorriso de Christian se alargou.

A cerimônia começou. Quando anunciaram Melody como Artista do Ano, senti minha alma sendo arrancada.

— Eu quero agradecer à pessoa mais importante da minha vida! — Melody se derreteu no palco. — C, obrigada por TUDO! Você é o meu mundo!

Christian deu um pulo. — Puta merda! Ela me agradeceu ao vivo na TV!

A dor me deixou sem palavras.

Uma hora depois, a porta do porão se escancarou. Melody entrou desfilando de salto alto, segurando aquele troféu dourado.

— Christian! — ela se jogou nele. — EU GANHEI, PORRA! Isso é tudo você, amor!

Christian a segurou num abraço esmagador. — Nosso plano deu certo que nem um SONHO!

Melody se virou para mim, o sorriso afiado como lâmina. — Awn, obrigada por ser uma boazinha bateria hoje à noite, mana. Sem a sua miséria, eu nunca teria brilhado tanto lá em cima.

Eu mal levantei a cabeça, a voz falhando. — Você é uma VADIA do caralho.

— Ah, por favor, não seja tão dramática. — Melody revirou os olhos. — Nós somos família, não somos?

Ela tirou o vestido caro e jogou na minha cara. — Enfim, não se preocupa: depois que eu gravar o programa da manhã amanhã, eu te compro um presentinho de agradecimento. Mas agora? Lava o meu vestido. E não ouse estragar.

Christian se virou para mim, ríspido. — Tá esperando o quê? Se mexe! Este lugar inteiro roda com o dinheiro da Melody!

— PORRA NENHUMA! Eu não sou a porra da sua empregada! — encarei os dois com ódio puro. — Eu quero o DIVÓRCIO!

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