Capítulo 2
Ponto de vista de Harper
Divórcio? Aham, tá bom. Como se isso fosse acontecer.
Depois que me recusei a lavar o vestido da Melody, o Christian surtou e me trancou no porão por um dia inteiro — sem comida, sem água. À meia-noite, eu estava tão fraca que quase desmaiei, antes de ele finalmente me deixar sair.
Cambaleei escada acima, desesperada por alguma coisa pra comer na cozinha. Assim que cheguei à sala, ouvi sons de foda vindo do quarto.
Eu congelei.
— Ai, meu Deus... Christian... MAIS FORTE...
Era a voz da Melody. Ela estava gemendo.
Meu coração parecia que alguém estava esmagando. Eu sabia que eles estavam transando, mas ouvir aquilo me deu náusea.
— Você gosta disso, bebê? Você é tão melhor do que a Harper... — Christian arfou.
Melody suspirou, sem fôlego: — Mmm... ela é uma perdedora... vive chorando... você foi inteligente em me escolher...
— Isso mesmo... olha pra você, tão gostosa, tão viva... a Harper só fica lá, deitada, como um cadáver.
— Christian... amor... — a voz da Melody ficou doce como mel. — Eu tenho aquele show enorme daqui a três dias... Na noite antes da apresentação, eu te quero comigo a noite toda... com aqueles comprimidos... a gente podia foder até o amanhecer...
— Que comprimidos?
— Os que me deixam toda excitada... você sabe... o oposto do que a Harper toma... — Melody deu uma risadinha. — Eu quero sentir o barato mais intenso...
A voz do Christian ficou mais áspera: — Porra, sim, bebê... eu vou te fazer se sentir INCRÍVEL...
Aí vieram sons ainda mais intensos, a cama rangendo enlouquecida.
Eu me encostei na parede, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Então a minha dor não era só o “impulso de energia” da Melody no palco — era a droga de sexo deles também.
Depois de uma eternidade, os sons finalmente pararam. Eu os ouvi conversando.
— Christian — a voz da Melody estava suave, mas eu peguei cada palavra —, a gente simplesmente NÃO PODE deixar a Harper se divorciar ou fugir.
— Por quê? A gente já tem dinheiro pra caramba.
— Nem de longe o suficiente. — A risada da Melody foi gelada. — No ano que vem eu vou fazer uma turnê mundial — pelo menos vinte shows. Vou precisar da miséria dela em cada apresentação. Quando a gente juntar dinheiro o bastante, eu posso me casar com você de verdade.
— Vinte shows? Isso pode matar ela... a Harper talvez não aguente...
— Se ela morrer, morreu. E daí. — Melody não tava nem aí. — Desespero não mata ela. Ela só vai ficar completamente surtada. Ela já tá na metade do caminho mesmo, né?
— Mas ela é minha esposa... — Christian hesitou.
A voz da Melody ficou sedutora: — Você não quer ficar comigo pra sempre? Vem aqui, deixa eu te fazer se sentir bem de novo...
Outra rodada de foda começou.
Eu cobri a boca pra não fazer barulho. Esses desgraçados não davam a mínima se eu quebrasse de vez — só se importavam em espremer cada gota de valor que conseguiam de mim.
Na manhã seguinte, as telas de TV exibiam a transmissão do ensaio do show de Melody. Ela estava arrasando no palco, se preparando para aquele espetáculo gigantesco dali a três dias.
Christian se aproximou com um americano gelado. Eu sabia que estava batizado com aquela droga maldita.
— Anda, bebe. A Melody precisa disso para o ensaio. — Ele sorriu ao me estender o copo.
Virei o rosto.
— Eu ia pegar leve com você, mas você insiste em ser um pé no saco. — Christian suspirou. — Então vamos fazer isso do jeito difícil.
Ele avançou para me forçar a beber.
Com toda a força que tinha, bati no copo, espalhando café para todo lado.
— NEM FODENDO! Eu não vou beber essa PORCARIA!
O rosto de Christian se contorceu de crueldade.
— Sua VADIA do caralho!
Ele se virou para pegar aquelas correias de couro, pronto para me amarrar de novo.
Eu estava preparada. Tirei uma pequena faca do bolso e a apontei para ele.
— Não se atreva a chegar perto de mim! Eu vou sair da PORRA deste lugar!
— Você ficou maluca? Larga essa faca!
— Eu fiquei maluca? FORAM VOCÊS, SEUS FILHOS DA PUTA, que me deixaram assim! — recuei em direção à porta, com a faca erguida. — Chega desse pesadelo!
Vi assassinato nos olhos de Christian.
Continuei recuando em direção à porta, mas, quando estava quase alcançando-a, ele agarrou um vaso e o quebrou na minha cabeça.
Tudo ficou preto. Desabei no chão.
Quando acordei, estava de volta àquela cadeira no porão, com os pulsos bem amarrados. Christian estava ali, de braços cruzados, me encarando friamente.
— Christian... — chamei, fraca. — Por favor... nós já nos amamos... lembra do nosso casamento? Você prometeu que sempre me protegeria...
Christian pareceu hesitar por um segundo.
— Harper... eu...
Mas então o celular dele tocou.
— Christian! Tem alguma coisa ERRADA! — Melody gritou do outro lado da linha. — Eu quase me fodi no ensaio! A Harper está calma demais? Você precisa acabar mais com ela!
Christian olhou para mim, sem nenhum vestígio de hesitação.
— Eu sei o que fazer.
Ele desligou e enfiou aquelas pílulas azuis goela abaixo em mim. Mas, estranhamente, dessa vez eu não senti o desespero de sempre — só uma calma morta. Talvez, depois de tantas doses, aquela merda já não estivesse mais fazendo efeito.
Quando Christian percebeu que eu não estava reagindo, começou a arrastar adereços de terror para o porão. Mas eu não sentia nada. Não importava o quão assustadores fossem os filmes, nem quantas ameaças ele fizesse, eu estava completamente entorpecida.
— Por que você não chora? Por que não está com MEDO? — Christian surtou.
Ele chegou até a me socar, mas eu apenas olhava para ele com olhos mortos.
Eu não sentia mais nada.
— MERDA! — Christian praguejou, mas de repente os olhos dele se iluminaram com pura maldade. — Espera... eu me lembrei do que você tem MEDO de verdade...
Ele saiu do porão. Depois de um tempo, ouvi sons estranhos, como se alguma coisa estivesse se arrastando pelo chão.
Então eu os vi.
De todos os cantos do porão, cobras começaram a sair, deslizando devagar.
Meu sangue gelou.
COBRAS!
