Capítulo 3
Ponto de vista de Harper
“NÃO! NÃO!”, gritei em histeria, me debatendo contra a cadeira, desesperada para escapar.
Cobras! A coisa de que eu mais tinha medo neste mundo!
Elas deslizaram na minha direção, línguas tremeluzindo, fazendo aquele sibilar de gelar os ossos. Senti escamas frias subindo pelos meus tornozelos.
“AAAAAAAH!”
Esse terror começou na infância. Quando eu tinha sete anos, Melody colocou uma cobra de propósito na minha cama e me viu chorar em desespero enquanto ela batia palmas e ria com pura alegria. Naquela época, eu não entendia por que ela me torturava daquele jeito. Depois eu descobri — quanto mais eu sofria, mais excitada ela ficava.
Christian apareceu à porta do porão, me observando com uma expressão vazia.
“Christian! POR FAVOR!”, soluçei. “Tira essas coisas de cima de mim! Eu vou morrer!”
Os olhos dele suavizaram por uma fração de segundo, mas o rosto voltou a ficar frio.
“Harper, essas cobras não são venenosas.” A voz dele era monótona. “Algumas mordidas não vão te matar, porra. Hoje é o último ensaio geral da Melody — não dá pra estragar isso.”
“NÃO! Christian!”, eu gritei. “Você não pode fazer isso comigo!”
“O que foi com estar com medo, hein?” Christian se virou para ir embora. “Você fez isso consigo mesma.”
A porta do porão bateu com força, e eu perdi completamente a cabeça.
As cobras cobriam meu corpo inteiro — algumas se enrolaram nos meus braços, outras se enfiavam entre as minhas pernas. Senti presas afiadas perfurando minha pele, um líquido quente escorrendo pelas feridas.
Medo, dor, desespero — toda emoção negativa explodiu de uma vez. Gritei até minhas cordas vocais rasgarem, até a consciência se apagar, até eu finalmente desmaiar.
Não sei quanto tempo passou antes de Christian me sacudir com brutalidade para eu acordar.
“Levanta!” Ele nem olhou para mim. “O ensaio da Melody acabou.”
Abri os olhos e vi meu corpo coberto de marcas de mordida, com sangue seco formando crostas vermelho-escuras. A TV exibiu as imagens do ensaio da Melody — ela estava arrebentando, impecável, com o público enlouquecendo por ela.
Christian nem tentou me ajudar a levantar.
Cambaleei atrás dele até a sala.
“Eu não vou voltar pra casa hoje.” Christian tirou o casaco sem olhar para trás. “Tenho que manter a Melody feliz antes do show de amanhã. Fica nessa porra de lugar e nem pense em fugir. Eu volto antes de o show começar.”
Manter ela feliz? Eu ri, amarga. Ele quis dizer comer ela até não aguentar mais, obviamente.
Ouvindo os passos dele em direção ao banheiro, eu soube que tinha que agir. Se eu não revidasse agora, da próxima vez talvez me matassem.
Rastejei até o paletó de Christian no sofá e pesquei do bolso um pequeno prendedor de gravata — um minúsculo dispositivo de vigilância que eu tinha comprado em segredo. Com as mãos tremendo, prendi aquilo na gola do paletó dele e comecei a transmitir ao vivo pelo celular.
Já que você gosta tanto de foder, deixa o mundo inteiro assistir.
Depois disso, arrastei meu corpo surrado até a janela.
Segundo andar. Não era tão alto, mas, no meu estado, seria brutal. Mas eu não tinha escolha — todas as saídas estavam trancadas.
Cerrei os dentes e pulei.
A dor explodiu por toda parte, mas eu estava respirando. Estar viva era tudo o que importava.
Três horas depois, do lado de fora do centro de pesquisa
Cambaleei em direção ao centro biomédico no centro da cidade, o sangue ainda não tinha secado por completo, e cada passo era pura agonia.
Bem na hora em que eu ia desabar, as portas de vidro se abriram de repente.
— Harper?!
Minha amiga Sarah saiu e quase teve um treco quando me viu.
— Sarah... — estendi as mãos, trêmula. — Me ajuda...
E então desabei nos braços dela.
Dentro do centro de pesquisa
— Harper, você tem absoluta certeza disso? — Sarah perguntou de novo. — Esse negócio de crio dura um ano inteiro. Você vai ficar completamente apagada — consciência zero. Depois que a gente começar, não tem volta.
— Tenho. — Minha voz estava morta de tão calma.
Eu conhecia a pesquisa da Sarah — aquela tecnologia de congelamento conseguia “travar” o estado emocional em que você estivesse no momento em que fosse congelada. Se eu entrasse em total desespero, aquele desespero duraria o ano inteiro.
E a Melody? Sorri com frieza. Ela aguentaria mesmo um ano inteiro chapada nas nuvens?
Quando eu estava prestes a me deitar na câmara criogênica, meu celular vibrou. Chamada de vídeo da Melody.
Atendi.
Na tela, Melody posava como uma puta num figurino de show quase inexistente, se exibindo no camarim.
— Maninha! — Ela sorriu como o diabo. — Olha isso! Roupa de amanhã! Gostosa pra caralho, né? O Christian vai passar aqui pra me “relaxar” já já — a gente vai trepar que nem coelho a noite toda!
Ela se contorceu ainda mais, provocativa:
— Sabe de uma coisa? Seu surto hoje à tarde me deixou TÃO ligada! Eu nunca me senti tão incrível! O show de amanhã vai ser simplesmente LENDÁRIO!
Eu a observei, e um sorriso lento foi surgindo no meu rosto:
— Melody, se diverte.
— O quê? — Ela parou, como se alguma coisa tivesse soado errado.
Eu não respondi. Só desliguei.
— Sarah, vamos fazer isso. — Eu me deitei na câmara criogênica, deixando a névoa gelada me envolver.
Enquanto tudo desbotava até o preto, eu só tive um pensamento:
Minha querida irmãzinha e meu marido canalha e infiel — aproveitem seu show pornô transmitido ao vivo.
