Capítulo 1 O Dia em Que o Amor se Tornou uma Maldição

Contrato Amaldiçoado

O Dia em Que o Amor se Tornou uma Maldição

Narrado pela Bruxa

Londres, 1901

Eu me lembro do vestido antes de me lembrar da dor. Engraçado, não é?

Mais de cem anos se passaram, e sim, eu ainda estou por aqui, de um jeito que vocês não entenderiam e que eu não pretendo explicar.

Mesmo assim, a primeira coisa que me vem à cabeça é a renda do punho esquerdo. Apertada demais. Feita à mão pela minha avó, que Deus a tenha, onde quer que ela esteja.

Uma vida inteira reduzida a um detalhe de costura. A memória é assim, sempre escolhe o pior momento para ser caprichosa.

Eu tinha trinta e quatro anos.

Naquele tempo, ter trinta e quatro anos e continuar solteira era quase um escândalo.

As vizinhas me olhavam como quem olha para um bolo que passou do ponto: “Coitado, mas ainda dá para aproveitar”. Chamavam-me de bela, o que naquela época queria dizer pálida, magra e obediente.

Eu era as três coisas sem esforço nenhum, porque foi assim que me criaram.

Aprendi a andar de costas retas, a falar baixo e a concordar com a cabeça antes mesmo de entender a pergunta. Era um talento e tanto, pena que não pagava as contas.

Ia me casar com Edmund Beaumont, segundo filho de uma família que tinha dinheiro de sobra para comprar a bondade dos outros e nenhuma vontade de produzir a sua própria. Eu sabia disso, sabia, e mesmo assim escolhi acreditar que ele era diferente. Achei que o olhar dele, quando pousava em mim, dizia alguma coisa além de “é conveniente”. Vejam só como uma mulher esperta consegue ser burra quando quer muito uma coisa.

Vocês já sentiram o silêncio de uma igreja cheia? Não é um silêncio de paz, é um silêncio que espera.

Duzentas pessoas sentadas, de luvas e chapéus, todas fingindo não olhar para o relógio. Alguém tossiu lá no fundo, e o som ecoou como se a igreja inteira tivesse levado um susto. Meu pai estava ao meu lado, com o braço cada vez mais duro sob o meu, como um galho seco.

Ele não dizia nada, mas eu sentia que ele fazia as contas de quanto aquele casamento custaria se desse errado. Meu pai sempre foi um homem de números.

As flores eram lírios brancos. Eu mesma tinha escolhido, porque achava que davam sorte. Naquele calor de tantos corpos esperando, os coitados foram murchando um por um, de cabeça baixa, e eu tive a impressão ridícula de que eles estavam com vergonha por mim.

Quinze minutos de atraso, depois vinte. Alguém disse, num sussurro que a igreja inteira ouviu, que noivo atrasado era “costume da juventude”.

Trinta minutos. Uma senhora na terceira fila começou a abanar o rosto com o programa da cerimônia, que eu tinha mandado imprimir em papel caro. Eu me lembro de pensar, com uma calma que até hoje me assusta, que ela ia amassar o papel e que aquilo tinha custado seis xelins.

Ele não veio, não mandou recado, não mandou desculpa.

Um primo dele, vermelho feito um tomate e sem coragem de olhar para mim, atravessou a igreja até o altar quarenta minutos depois da hora marcada e disse, bem baixinho, que Edmund tinha embarcado num trem de manhã. Que ele tinha conhecido uma mulher em Bath, que sentia muito.

Sentia muito.

Duas palavras.

Eu tinha passado onze meses escolhendo tecido, flores e talheres, e o homem com quem eu ia dividir a vida resumiu tudo em duas palavras, entregues por um primo que parecia querer ser engolido pelo chão.

Eu queria poder contar a vocês que gritei, que chorei ali mesmo, diante de todos, que me joguei no mármore e implorei para que aquilo não fosse verdade.

Teria sido bonito, e teria feito mais sentido, mas não. Eu fiquei parada, perfeitamente parada, como uma boneca de porcelana a que ninguém lembrou de dar corda. E foi nesse silêncio, não o da igreja, mas o meu, o de dentro, que alguma coisa se partiu. Eu nem sabia que aquilo podia quebrar.

Eu ouvi as pessoas atrás de mim, o murmúrio começando baixo e crescendo, como água fervendo numa panela tampada. “Coitada.” “Eu avisei.” “Também, com essa idade...” Uma delas, e nunca esqueci a voz, disse: “Pelo menos o vestido é bonito”. Eu quase agradeci.

Meu pai tirou o braço do meu com muito cuidado, como se eu fosse quebrar, e foi atrás do primo. Fiquei sozinha no meio do corredor, com duzentas pessoas me olhando e o véu na cabeça pesando como se fosse de chumbo.

Agora preciso que vocês entendam uma coisa sobre mim antes de eu continuar. Minha família tinha um dom. Chamávamos de dom porque “maldição” era uma palavra feia demais para dizer à mesa do jantar, entre a sopa e o assado.

Minha avó tinha, minha mãe fingia que não tinha, mas tinha, e eu, infelizmente para os Beaumont, tinha mais do que as duas juntas.

Na infância, eu fazia as velas acenderem quando ficava com raiva. Meu pai achava que era corrente de ar, minha mãe fechava as janelas e rezava. Minha avó só ria e dizia: “Cuidado com o que você deseja quando está com o coração quente, menina. O mundo escuta mais do que a gente pensa”.

Eu nunca dei atenção, mas hoje eu daria tudo para ter dado.

Não fui para casa naquela noite, fui para o jardim dos fundos, onde ainda estava montada a festa que ninguém ia comemorar, mesas, taças, um arco de flores que já não significava nada. Havia um bolo de cinco andares intacto sobre uma toalha branca, com dois bonequinhos de açúcar no alto, de mãos dadas. Eu olhei para aqueles dois por muito tempo. O boneco, pelo menos, tinha tido a decência de ficar.

Sentei na grama com o vestido de noiva sujo de terra até os joelhos e deixei a raiva subir por dentro de mim, devagar, como fogo subindo por um pavio.

Eu não quis fazer o que fiz. Isso também precisa ficar claro. Não houve plano, nem ritual bonito com velas e cânticos como nas histórias que vocês contam por aí. Houve só uma mulher ajoelhada na lama, com o coração em pedaços, dizendo em voz alta o que sentia, sem pensar em consequência nenhuma, e descobrindo, tarde demais, que palavras ditas daquele jeito, com aquela dor, têm peso.

Eu disse que nenhuma das duas famílias teria descanso. Que os Beaumont e os meus, os Montgomery, ficariam amarrados um ao outro para sempre. Não pela escolha fácil que Edmund tinha feito naquela manhã, fugindo, mas pela obrigação. Disse que cada geração seguinte teria que pagar o que ele não pagou, casando entre as duas famílias, unindo o que ele rasgou. E que quem ousasse fugir da obrigação, como ele fugiu de mim, encontraria a morte ao fazer trinta e cinco anos.

A idade que eu completaria naquele mesmo ano, a idade em que uma mulher, segundo todos ao meu redor, já devia estar casada havia muito tempo, com filhos, com a vida inteira decidida por outra pessoa.

A terra estremeceu. Só um pouco, como um gato que muda de posição no sono. As velas do arco, que ninguém tinha acendido, acenderam todas de uma vez, e eu entendi, ajoelhada ali, que a minha avó não estava brincando.

Vocês podem chamar isso de loucura, podem chamar de superstição de uma mulher desesperada. Eu mesma, durante muitos anos depois daquela noite, tentei me convencer de que tinha sido só um desabafo, palavras jogadas ao vento por uma noiva humilhada. Mas o vento, daquela vez, escutou, e aqui vai a parte que ninguém nunca me perguntou, porque ninguém nunca soube fazer a pergunta certa, eu não queria isso. Eu não queria correntes. Queria só que alguém, um dia, sentisse por outra pessoa o que eu quase senti por Edmund, antes de descobrir que aquilo não era amor. Era treino, era cortesia ensaiada. Era tudo que me ensinaram a aceitar como suficiente.

Então deixo aqui, para quem um dia precisar ouvir, e alguém vai precisar, eu sei disso com a mesma certeza com que soube, naquela noite, que minhas palavras tinham virado mais do que palavras, o único jeito de desatar o nó que amarrei com tanta raiva e tanta dor.

A maldição só vai se quebrar no dia em que um casal, dessas duas famílias que eu amarrei, escolher um ao outro sem que nenhum contrato, nenhuma tradição e nenhum medo de morrer obrigue os dois a isso. De livre e espontânea vontade.

Sem altar cheio de gente esperando, sem promessa feita quando ainda eram crianças demais para escolher qualquer coisa.

Até lá, eu vou estar observando. Geração após geração, esperando o dia em que alguém, finalmente, escolha o amor de verdade, e não o medo de morrer sem ele.

E eu preciso confessar, ficar observando tanto tempo é um tédio que vocês nem imaginam. Já vi gente se casar por dinheiro, por pena, por pressão da sogra e uma vez, juro, por causa de uma aposta num jantar. Nada de amor. Eu só espero, sinceramente, que dessa vez não demore mais cem anos.

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