Capítulo 2 A Paz antes da Tempestade

A Paz antes da Tempestade

Narrado por Emma Beaumont

Segunda-feira, sete e vinte da manhã, e eu já estava com o café numa mão e o celular na outra, respondendo três e-mails ao mesmo tempo enquanto o metrô sacolejava em direção a Canary Wharf.

Uma mulher ao meu lado me olhou com pena, eu sorri para ela com a boca cheia de pão com manteiga. Ninguém nunca disse que carreira era bonita.

Eu tinha uma vida assim, cronometrada, previsível, minha. Isso é o que ninguém entende quando olha para o meu currículo e vê “Diretora de Marketing”, aos trinta e três anos.

Acham que foi sorte, acham que foi sobrenome, ou rede de contatos. Ninguém vê o despertador das seis da manhã, o café passado antes de qualquer outra coisa, os relatórios revisados no domingo à noite enquanto o mundo inteiro assistia a uma série.

Eu construí isso, cada pedacinho, com as unhas, se fosse preciso.

Chequei o horário antes de entrar no prédio. Sete e cinquenta e cinco.

Na Whitmore & Ashworth Group, chegar antes das oito era praticamente esporte olímpico. Cumprimentei a Denise na recepção, que já tinha o meu café separado do jeito certo, sem açúcar, com um pingo de leite de aveia.

— Bom dia, minha estrela — disse ela, me entregando o copo com as duas mãos, como se fosse um bebê. — O Trevor já chegou. Está no corredor, com cara de quem teve uma ideia.

— Ai, não.

— Ai, sim.

Denise é um anjo disfarçado de recepcionista. Se um dia a empresa pegar fogo, eu quero estar ao lado dela, porque ela vai saber exatamente qual saída usar e ainda vai levar o meu café.

Fui direto para a minha sala, no décimo oitavo andar, com uma vista do Tâmisa que, confesso, ainda me impressiona depois de quatro anos.

Larguei a bolsa na cadeira, abri o computador e respirei fundo.

Tínhamos uma campanha grande para lançar, uma linha nova de produtos financeiros para jovens investidores. Eu tinha passado a semana anterior brigando com o departamento de design por causa de uma paleta de cores que, na minha opinião, gritava “banco careta dos anos noventa” em vez de “moderno e confiável”.

Eu ganhei a discussão, claro, quase sempre ganho.

Era esse o tipo de vitória que eu sabia comemorar sozinha. Um café mais forte, dez minutos olhando pela janela e uma mensagem de voz boba para o Ollie, contando os detalhes que ninguém mais no escritório acharia tão engraçados quanto ele acharia.

— Você não vai acreditar no que o Trevor do design tentou me vender como “inovador” — falei no áudio, andando de um lado para o outro da sala. — Um azul que parece saído direto de um formulário de imposto de renda. Eu disse não, educadamente, na segunda vez.

Ollie respondeu em segundos, porque ele nunca larga o celular: “Educadamente é uma palavra forte para descrever você, meu amor, mas vou fingir que acredito. Quer que eu mande um bolo para o Trevor como pedido de desculpas?”

“Mande uma calculadora. Ele precisa de ajuda com as cores.”

“Você é perversa. Eu amo.”

Eu ri sozinha na minha sala, de porta fechada, e por um instante, só um, tão curto que quase não percebi, tive aquela sensação boa e satisfeita de estar exatamente onde eu queria estar na vida.

Trinta e três anos, uma carreira construída tijolo por tijolo. Um apartamento pequeno, mas só meu, com uma plantinha na janela que ainda não tinha morrido, o que para mim era uma conquista enorme. Amigos que me faziam rir até doer a barriga, e nenhuma obrigação com ninguém além de mim mesma.

Devia ter imaginado que aquele tipo de paz nunca dura muito.

O telefone tocou às onze e quarenta e cinco, e o nome no visor foi suficiente para o meu estômago dar uma volta completa, de um jeito específico, treinado ao longo de anos.

Era a minha mãe.

Pensei em deixar tocar, pensei também em me jogar pela janela, mas a vista era bonita demais para estragar com uma cena dessas.

Então atendi.

— Emma, querida — disse ela, com aquela voz de quem vai falar do tempo mas na verdade vai falar da sua vida inteira. — Como está o trabalho?

— Ocupado. Bem, o de sempre. — Eu já sabia que aquilo não era sobre trabalho. — O que foi, mãe?

— Por que você sempre acha que é alguma coisa?

— Porque a senhora nunca liga às onze e quarenta e cinco de uma segunda-feira só para perguntar do meu trabalho.

Houve uma pausa do outro lado. Uma pausa calculada, do tipo que Margaret Beaumont usa como arma há décadas. Eu a imaginei sentada na poltrona da sala de estar, com o chá a meio caminho da boca, escolhendo as palavras como quem escolhe armas para um duelo.

— Falei com a Eleanor hoje de manhã.

E ali estava, dessa vez o meu estômago não deu uma volta. Despencou.

— Mãe.

— Emma, você sabia que isso ia acontecer, sempre soube. Não é surpresa nenhuma.

— Saber que ia acontecer um dia e ter que lidar com isso agora, nesta segunda-feira, são duas coisas completamente diferentes. — Eu me levantei da cadeira, porque de repente ficar sentada parecia impossível. Fui até a janela e olhei o rio lá embaixo, tentando encontrar naquela vista a mesma paz de vinte minutos atrás. Não encontrei.

— As datas estão sendo marcadas — continuou minha mãe, no tom prático que ela reserva para as coisas mais importantes da vida, como se estivesse me contando sobre uma reforma na cozinha. — O contrato entre as famílias precisa ser cumprido antes de o Sebastian fazer trinta e cinco anos. Você sabe disso. E ele já concordou em voltar de Paris.

Eu quase ri, do jeito que a gente ri quando a situação é absurda demais para qualquer outra reação.

— Ele concordou? Ah mas que generoso da parte dele.

— Emma.

— Eu tenho uma reunião ao meio-dia, mãe.

— Você sempre tem uma reunião. — Havia um cansaço na voz dela agora, algo que raramente eu ouvia por trás da fachada impecável de Margaret Beaumont. — Eu sei que você não queria isso, eu também não queria, quando tinha a sua idade. Mas algumas coisas são maiores do que a gente.

Aquilo me pegou de surpresa. Minha mãe nunca tinha dito aquilo. Nunca, em trinta e três anos, ela tinha admitido que também havia sido uma noiva por obrigação, que também havia olhado para um homem do outro lado da sala sem saber se ia chorar ou rir. Pensei no meu pai, no jeito que ela olhava para ele no almoço de domingo, e por um segundo tentei imaginar uma Margaret de vinte e poucos anos, assustada, num vestido que não escolheu.

Não consegui, mas a ideia ficou ali, quieta, como uma pedra no sapato.

— Uma maldição de mais de cem anos não devia ser “maior do que a gente”, mãe — falei, mais baixo do que pretendia. — Devia ser uma coisa tão absurda que a gente se recusaria a continuar alimentando.

Ela não respondeu, em vez disso, disse, num tom mais suave, quase gentil:

— Eu só quero que você esteja bem, Emma. De verdade.

Eu engoli em seco. Era muito mais fácil brigar com ela quando ela era só a minha mãe controladora. Aquela outra, a que dizia “de verdade” com a voz tremendo, eu não sabia como enfrentar.

Desliguei com o nó na garganta que eu tinha aprendido, ao longo dos anos, a engolir depressa, antes que virasse algo mais visível. Voltei para a mesa e tentei focar na campanha, na paleta de cores, no relatório que precisava revisar antes da reunião. Não consegui. Fiquei olhando para a tela sem ver nada, pensando no nome que eu tinha passado os últimos vinte anos evitando com todas as forças.

Sebastian Montgomery.

Eu me lembrava dele vagamente de reuniões de família.

Um adolescente arrogante que uma vez derramou vinho tinto no meu vestido de propósito só para me ver brava. E que depois cresceu, pelo que eu ouvia dizer, e virou um homem insuportavelmente charmoso e insuportavelmente ciente disso.

Ele era um Diretor Financeiro brilhante em Paris, todo mundo repetia, como se isso compensasse alguma coisa.

Eu tinha treze anos quando me disseram pela primeira vez que um dia eu me casaria com ele. Treze. A idade em que eu ainda dormia com um ursinho de pelücia e achava que o maior problema da vida era a minha franja. E eu já sabia, com uma certeza que nunca mais perdi, que ia odiar cada segundo.

A reunião do meio-dia foi um desastre silencioso. Eu fiquei lá, com um sorriso profissional colado no rosto, assentindo nas horas certas, enquanto o Trevor explicava um gráfico de barras. Em algum momento ele perguntou o que eu achava da cor de fundo, e eu respondi “Hum, interessante”, e ele ficou radiante, achando que tinha vencido.

Eu não tinha ouvido uma palavra. Se ele tivesse dito “vamos pintar tudo de roxo com bolinhas”, eu teria dado a mesma resposta.

Mandei uma mensagem para o Ollie debaixo da mesa: “Minha mãe ligou. Sebastian Montgomery volta de Paris. Preciso de vinho, de um buraco no chão e de um sobrenome novo.”

A resposta veio em dez segundos: “Estou indo aí com uma garrafa e uma pá. Qual das duas você usa primeiro?”

Eu ri alto, no meio da reunião. O Trevor parou de falar e me olhou, confuso. Fingi uma tosse.

O celular vibrou de novo às três da tarde, no meio de uma apresentação que eu mal estava conseguindo acompanhar. Olhei de rabo de olho, esperando que fosse o Ollie com mais uma piada sobre o Trevor.

Não era.

Era minha mãe de novo. Uma única mensagem, curta o bastante para me tirar o ar completamente:

“Ele chega amanhã. Prepare-se.”

Prepare-se. Como se existisse um manual para isso. Como se eu pudesse comprar um escudo na loja da esquina, ou treinar um mês e aparecer pronta. Fiquei olhando para aquelas três palavras até a tela apagar sozinha.

E foi só na tela preta, olhando meu próprio reflexo, que me ocorreu um pensamento terrível, eu não estava só com raiva, eu estava com medo.

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