Capítulo 3 Um Ultimato em Paris

Um Ultimato em Paris

Narrado por Sebastian Montgomery

Paris tem um jeito de me deixar em paz que Londres nunca teve. Talvez seja o idioma, talvez seja a distância, talvez seja simplesmente o fato de que aqui ninguém carrega na ponta da língua a história da minha família como se fosse uma lenda de aviso para crianças mal-educadas. Aqui eu sou só Sebastian Montgomery, Diretor Financeiro da Lavigne Capital. O inglês que fala francês bom demais para ser turista e ruim demais para ser confundido com um nativo. Isso me basta, sempre bastou.

Cheguei ao escritório às sete, antes de qualquer pessoa da equipe, porque gosto do silêncio dos corredores vazios, das luzes ainda apagadas na sala de reunião, do café que eu mesmo faço na máquina italiana que trouxe de casa. A do escritório é uma ofensa pessoal ao meu paladar.

Já mandei um e-mail sobre isso para o departamento de compras. Eles responderam com um emoji de polegar para cima. Um polegar. Foi a coisa mais próxima de uma declaração de guerra que já recebi.

Passei a manhã fechando os números do terceiro trimestre com o Julien, meu analista mais competente e mais dramático. Julien tem trinta anos, usa gravata-borboleta sem nenhuma ironia e acredita que toda planilha tem alma.

— Você faz isso parecer fácil — disse ele, olhando a tela com uma mistura de admiração e cansaço.

— Não é fácil, só sei fingir bem que é.

Ele riu, e eu deixei o comentário morrer ali, porque era mais verdade do que eu queria admitir em voz alta. Minha vida inteira foi construída sobre essa habilidade específica, fazer o difícil parecer natural, o controlado parecer espontâneo. Aprendi isso cedo, muito antes de qualquer planilha, numa casa onde cada gesto meu era observado com um propósito maior do que eu conseguia entender quando criança. Eu tinha oito anos e já sabia cumprimentar um convidado com a postura de um pequeno diplomata. Aos dez, já tinha aprendido a sorrir quando alguém dizia, na minha frente, “que pena, coitado, o destino dele já está escrito”.

Almocei sozinho, num bistrô perto do escritório onde o garçom já sabe o meu pedido sem eu precisar falar.

— Le même, monsieur? — perguntou Marcel, de lápis na mão, sem nem olhar para mim.

— Hoje eu pensei em ousar.

— O senhor pensa isso toda semana.

— E toda semana eu acabo desistindo.

— Pois é. — Ele anotou. — O mesmo, então.

O pior é que ele tinha razão.

Tantos anos de vida adulta e eu ainda não tinha coragem de trocar o prato do dia. E, no entanto, ia me casar com uma desconhecida por causa de uma maldição. A ironia não escapou de mim, só ainda não tinha me alcançado.

À tarde, tive uma reunião com investidores que terminou tão bem, mas tão bem, que saí de lá com vontade de comemorar.

Para mim, isso quer dizer uma taça de vinho sozinho, na varanda do meu apartamento, vendo o sol se pôr sobre os telhados. Era essa a vida que eu tinha construído, sem ninguém me dizendo o que fazer, sem contrato de família pairando sobre cada decisão, sem o peso de um sobrenome que em Londres significa mais do que qualquer coisa que eu tenha conquistado sozinho.

O celular tocou às oito da noite, hora de Paris, uma sexta-feira, e o nome no visor foi suficiente para o meu corpo inteiro enrijecer antes mesmo de eu atender.

— Sebastian — disse meu pai, sem nenhum “olá”, porque meu pai nunca perde tempo com formalidades que considera inúteis. — Preciso falar com você sobre uma coisa importante.

— Se é sobre os investimentos da empresa, eu já mandei o relatório completo para a diretoria semana passada.

— Não é sobre a empresa.

Eu já sabia, claro que sabia. Só havia um assunto na vida do meu pai capaz de fazê-lo ligar sem avisar, numa sexta à noite, com aquele tom grave que ele guardava exclusivamente para isso.

— Pai, eu tenho...

— Você faz trinta e cinco anos daqui a pouco mais de um ano, Sebastian.

— E?

— E você sabe muito bem qual é o “e”.

Fechei os olhos, encostado na porta da varanda, o vinho esquecido na mesinha ao lado.

Lá fora, Paris continuava a sua vida normal, indiferente à conversa que estava prestes a acontecer dentro daquele apartamento.

— Eu não quero falar sobre isso agora.

— Você nunca quer falar sobre isso, e é exatamente por isso que eu preciso falar. — A voz dele ficou mais baixa, mais séria, do jeito que sempre ficava antes de contar a história que eu já tinha ouvido dezenas de vezes, mas que nunca perdia o poder de me deixar gelado. — Você sabe o que aconteceu com o meu irmão, não sabe?

— Pai, por favor...

— Eu vou contar de novo, porque acho que você esqueceu o peso disso.

E ele contou. Contou como sempre contava, com os mesmos detalhes, quase palavra por palavra.

O tio Edward, jovem, teimoso, apaixonado por uma mulher que não era a noiva combinada entre as famílias havia gerações. Como ele se recusou a cumprir o contrato e fugiu com a mulher que amava para começar uma vida nova, longe de tudo aquilo. Como, poucos meses depois, no dia exato em que completou trinta e cinco anos, foi encontrado morto na própria cama, sem nenhuma explicação médica que fizesse sentido, o coração simplesmente parando de bater numa noite de sono tranquilo.

Eu tinha onze anos quando ouvi essa história pela primeira vez. Lembro de ficar acordado até de madrugada, com medo de dormir, contando as batidas do meu próprio coração para ter certeza de que ele continuava funcionando. Uma criança de onze anos não devia saber que o coração pode parar sem avisar.

— Ele escolheu o amor — disse meu pai, no fim, como sempre dizia. — E a maldição escolheu ele de volta.

— Pode ter sido só coincidência.

— Você não acredita nisso, e eu também não. E nós dois sabemos que ninguém na nossa família teve coragem de testar essa “coincidência” depois daquele dia.

Fiquei em silêncio por um longo momento, olhando as luzes da cidade se acendendo lá embaixo, uma a uma, enquanto o sol acabava de sumir no horizonte.

— O que você quer de mim, pai?

— Quero que você volte para Londres. O contrato precisa ser cumprido antes de você fazer trinta e cinco anos. A família da Emma já sabe e vai conversar com ela. Só falta você aceitar o que sempre soube que ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.

— Emma Beaumont.

— Emma Beaumont.

Eu me lembrava dela de um jeito vago e distante, quase como se fosse personagem de uma história que outra pessoa tinha me contado, e não uma lembrança minha de verdade. Uma menina loira, séria demais para a idade, que uma vez me olhou com tanto desprezo depois que eu derramei vinho no vestido dela, de propósito, que tive a impressão de estar sendo julgado por um tribunal inteiro dentro de uma criança de treze anos.

Eu achei que seria engraçado, mas não foi. Passei duas semanas com medo dela.

— E se eu disser não?

— Então eu vou perder meu único filho do mesmo jeito que perdi meu único irmão. E não sei se sou forte o bastante para sobreviver a isso duas vezes.

Aquilo doeu mais do que qualquer ameaça, mais do que qualquer história sobre maldições e mortes súbitas.

Meu pai, o homem mais controlado que eu conhecia, deixando escapar, ainda que por um segundo, o medo cru por trás de décadas de tradição e disciplina. Ouvi a respiração dele do outro lado da linha, pesada, e percebi que aquele homem tinha passado a vida inteira com medo de perder o filho, e que eu nunca tinha parado para pensar nisso.

— Eu preciso de tempo para organizar as coisas aqui.

— Você tem o fim de semana. O seu voo sai na terça de manhã.

— Pai, isso é um assalto.

— É um casamento. A diferença é pequena.

Ele desligou, e, apesar de tudo, eu ri. Uma risada curta e seca, daquelas que escapam quando a gente não sabe se o que sente é raiva ou alívio.

O fim de semana passou como um borrão. No sábado, tentei fazer as malas e descobri que não sabia o que se leva para um casamento arranjado. Terno? Corda de escalada? Um advogado? Acabei colocando na mala três ternos, a máquina de café italiana e uma garrafa de vinho que eu estava guardando para uma ocasião especial. Pensando bem, aquela garrafa ia ser útil.

No domingo, encontrei no corredor a Madame Dufour, a vizinha do andar de baixo, com o seu gato gordo, o Napoléon, que me odeia desde 2019.

— Você vai viajar, Sebastian?

— Vou voltar para Londres, por um tempo.

— Por quê?

— Vou me casar.

Ela parou. O gato parou. Até o elevador, que não tinha nada a ver com a conversa, parece que parou.

— Com uma inglesa? — perguntou ela, horrorizada.

— Eu sou inglês, Madame.

— Ah, é verdade. — Ela pensou. — Então tudo bem. Mas o gato fica com você na foto.

Não entendi o que ela quis dizer, e não perguntei.

No domingo à noite, sozinho na varanda, olhei Paris se transformar numa cidade de luzes, sabendo que estava prestes a trocar tudo aquilo, a liberdade, o silêncio, a vida inteira que eu tinha construído longe de qualquer contrato, por uma obrigação que eu não escolhi e um casamento que eu não queria.

Vou voltar, pensei, servindo mais uma taça de vinho que eu não ia terminar. Vou voltar para Londres, vou cumprir esse maldito contrato. Vou fazer tudo certo pela minha família.

Mas juro, aqui mesmo, sozinho nesta varanda, que vou odiar cada segundo disso.

E, se eu soubesse o quanto estava errado, eu teria bebido a garrafa inteira.

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