Capítulo 4 O Pior Encontro da Minha Vida

O Pior Encontro da Minha Vida

Narrado por Emma Beaumont

Eu tinha decidido, na noite anterior, que ia me comportar como uma adulta. Repeti isso para mim mesma no espelho enquanto escolhia o vestido, o azul-marinho, sóbrio, o tipo de roupa que diz “estou aqui porque preciso, não porque quero” sem parecer deselegante.

Repeti de novo no táxi a caminho da casa dos meus pais, onde o jantar “informal” de reencontro das duas famílias estava marcado para quarta-feira, como se qualquer coisa envolvendo Margaret Beaumont pudesse ser chamada de informal com seriedade.

O celular tocou no meio do caminho, era o Ollie.

— Respira — disse ele, sem nem dizer “alô”. — Eu estou ouvindo você respirar errado daqui.

— Eu não disse nada.

— Você está respirando de um jeito muito alto. Escuta, se ele for horrível, você finge uma crise de alergia e vai embora.

— Alergia a quê?

— A ele.

Eu ri, e o riso saiu torto, meio trêmulo, e acho que o Ollie percebeu, porque ele ficou um segundo em silêncio antes de falar de novo, bem mais baixo.

— Ei, e se ele não for horrível?

— Aí eu mudo de país.

— Meu amor, você está com medo de gostar dele.

— Estou com medo de morrer, Ollie, é diferente.

— É meio parecido, mas tá bom.

Eu ia ser educada, ia sorrir, cumprimentar, dizer as frases certas, sobreviver ao jantar com a dignidade intacta e depois ir embora e nunca mais pensar naquilo até a próxima obrigação.

Durou exatos quarenta segundos.

Cheguei atrasada de propósito, dez minutos, o suficiente para parecer ocupada e não o bastante para parecer grosseira, e encontrei a sala de estar dos meus pais já cheia.

A casa estava cheirando a lavanda e a ansiedade. Tinham tirado a prataria boa do armário, aquela que só aparece em batizado, casamento e funeral, e eu pensei, com um humor sombrio que não ajudava ninguém, que pelo menos ainda faltava o funeral.

Minha mãe, impecável como sempre, veio na minha direção com aquele sorriso que ela usa quando quer que eu me comporte diante de gente importante.

— Você chegou — disse ela, baixinho, quase como uma advertência.

— Eu disse que vinha.

— Eles já estão aqui.

Segui o olhar dela até o outro lado da sala, onde Eleanor e Richard Montgomery conversavam animadamente com o meu pai perto da lareira. Ao lado deles, de costas para mim, estava um homem alto, de ombros largos sob um paletó que devia ter custado mais do que o meu aluguel, segurando uma taça de vinho tinto com a tranquilidade de quem se sente em casa em qualquer lugar do mundo.

Ele se virou antes de eu conseguir me preparar direito.

Certo. Preciso ser sincera aqui.

Por meio segundo, só meio segundo, pensei que talvez aquilo não fosse tão terrível quanto eu esperava. Ele era bonito de um jeito quase injusto, cabelo castanho-claro, olhos verdes que pareciam registrar tudo ao mesmo tempo, o tipo de rosto que parece ter sido desenhado especialmente para distrair mulheres em reuniões importantes.

Então ele abriu a boca.

— Então você é a Emma — disse ele, olhando para mim de cima a baixo, com uma calma que beirava o insulto, como se estivesse avaliando um imóvel antes de decidir se valia o investimento. — Achei que fosse mais alta.

Eu fiquei parada por um segundo, processando a frase, esperando algum sinal de que ele estava brincando. Não havia nenhum.

— E eu achei que você fosse mais educado — respondi, no mesmo tom casual que ele tinha usado, com um sorriso falso. — Parece que nós dois estávamos errados.

Ouvi minha mãe engasgar discretamente ao meu lado.

— Interessante — disse ele, com um canto da boca subindo num meio sorriso irritantemente confiante. — Eu não sabia que ia herdar uma noiva com tanta... personalidade.

— E eu não sabia que ia herdar um noivo tão obcecado com altura. Talvez você devesse conversar com o seu médico sobre isso.

Richard riu alto e tentou disfarçar com uma tosse. Eleanor deu um tapinha discreto no braço do filho, um gesto que dizia claramente “se comporte”, mas ele ignorou completamente.

— Sebastian Montgomery — disse ele, estendendo a mão como se estivéssemos numa reunião de negócios qualquer, e não sendo apresentados oficialmente, como adultos, depois de vinte anos de noivado imposto por uma maldição centenária.

Apertei a mão dele. Firme, quente, incomodamente confortável, e retirei a minha rápido demais para parecer casual.

— Eu já sei quem você é. A vida inteira eu ouço falar de você como se fosse um tipo de prêmio de consolação.

— E eu ouço falar de você como se fosse um problema que o meu pai insiste em não resolver.

— Sebastian — disse Eleanor, num tom de aviso que ele também ignorou, com os olhos fixos em mim e um brilho que eu só reconheceria muito depois como diversão diante da minha reação.

O jantar, incrivelmente, conseguiu piorar a partir dali.

Sentaram-nos lado a lado, claro, porque o universo tem um senso de humor cruel e a minha mãe tem um senso de oportunidade ainda mais cruel. Havia até cartõesinhos com nome em cada lugar, escritos à mão. O meu estava com a letra caprichada da minha mãe. O dele, nem preciso dizer, ela tinha escrito com ainda mais capricho.

Durante a entrada, ele fez um comentário sobre “provincianas inglesas que nunca saíram do país” que me fez apertar o garfo com força suficiente para deixar marca na palma da mão.

Eu retribuí perguntando, em voz alta o bastante para a mesa toda ouvir, se era verdade que os franceses achavam graça de ingleses tentando falar francês, “porque, pelo que me contam, você tenta com bastante frequência e sem muito sucesso”.

Meu pai engasgou dessa vez.

— O meu francês é impecável — disse ele, com os olhos brilhando com algo entre irritação e, eu juro que vi isso, mesmo contra a vontade, puro divertimento.

— Deve ser por isso que os seus colegas em Paris te chamam de “o inglês”, e não pelo primeiro nome.

— Você andou perguntando sobre mim?

— Eu ando ouvindo a minha mãe falar de você desde os treze anos. Não precisei perguntar nada.

Ele se inclinou um pouco na minha direção, a voz baixando só para mim, embora eu soubesse que meia mesa ainda ouvia tudo.

— E o que você concluiu, depois de vinte anos de pesquisa tão dedicada?

— Que a maldição tem um senso de humor terrível.

Dessa vez ele riu. Um riso curto, quase contra a vontade, que sumiu rápido demais para eu ter certeza de que tinha mesmo acontecido.

O resto do jantar seguiu naquele ritmo, farpa depois de farpa, disfarçadas mal o bastante de brincadeira para que as famílias fingissem não notar a tensão de verdade por baixo.

Durante o prato principal, Richard contou uma história longuíssima sobre um campo de golfe na Escócia, e eu e Sebastian trocamos, ao mesmo tempo, o mesmo olhar de tédio. Foi a única coisa que fizemos juntos a noite toda, e eu me odiei por perceber.

Foi na sobremesa que a coisa mudou. Eleanor, tentando acalmar o ambiente, mencionou sem querer o nome do tio Edward, e a mesa inteira ficou em silêncio, como se alguém tivesse desligado uma tomada.

Olhei de lado. A mão do Sebastian, que girava a taça o tempo todo, parou. Só por um segundo. Mas o rosto dele, aquele rosto cheio de arrogância e com resposta pronta para tudo, ficou vazio. Não foi tristeza, foi medo, e do tipo que a gente aprende desde criança e nunca mais esquece.

Eu conheço aquele medo, eu o vejo no espelho todo dia de manhã.

Ele percebeu que eu estava olhando, e em vez de uma piada, ele só disse, bem baixinho, para que só eu ouvisse:

— Pelo menos não sou o único que não escolheu estar aqui.

Fiquei sem resposta. Fiquei sem resposta pela primeira vez na noite, e isso me irritou mais do que todas as piadas sobre altura juntas.

Quando finalmente me despedi, já passava das dez, e eu tinha a sensação exata de ter acabado de sair de uma reunião de negócios extremamente hostil, e não de um jantar em família.

Minha mãe me deu um beijo no rosto, o que ela quase nunca faz, e sussurrou “você foi bem”. Eu respondi que ele tinha começado. Ela respondeu que isso era justamente o que ela temia.

Entrei no táxi, fechei a porta, e só então percebi que as minhas mãos estavam tremendo. De raiva, eu disse a mim mesma, só de raiva.

Peguei o celular antes mesmo de o carro sair da rua e escrevi para o Ollie, com os dedos batendo rápido demais na tela:

“Acabei de conhecer o Sebastian. Oficialmente, quero dizer, além das fotos idiotas que a mamãe me mostra sem eu pedir. Ele é arrogante, insuportável, se acha o dono do mundo só porque tem uns olhos bonitos e um sotaque que faz metade das mulheres da sala suspirar.”

A resposta dele veio quase na hora: “E aí?”

“E aí que eu prefiro morrer aos trinta e cinco a casar com esse homem.”

Três pontinhos apareceram, sumiram, apareceram de novo. Quando a resposta chegou, eu li duas vezes.

“Amor... você percebe que é exatamente isso que a maldição vai fazer, né?”

Guardei o celular na bolsa, olhei pela janela e fingi, com muito esforço, que não estava sorrindo.

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